A Tragédia em notas musicais Apesar da falta de palavras, a música pode expressar, de forma universal, a essência moral buscada pela Tragédia. É é dessa forma que Música e Filosofia se aproximam e ajudam-se uma à outra, como mostram Nietzsche, Wagner e Schopenhauer
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| Escultura de Melpômene, musa da Tragédia. Para Aristóteles, tanto a escultura quanto a Música e outras formas de Arte não passam de imitações, nunca são inéditas |
Celebração da Vida
Friedrich Nietzsche, um vidente da humanidade superior, alguém que buscava a superação de si mesmo, tinha como base filosófica a consagração da vida, cheia de força e vigor. O filósofo era venerador de Wagner e de Schopenhauer e dizia que a Arte e a Filosofia eram os guias verdadeiros da vida 2.
Niilista e muito mais dionisíaco que apolíneo, se dizia o último discípulo de Dionísio, pois sua vida era de embriaguez e sofrimento. Em seu pensamento, é indispensável a embriaguez para que haja Arte, ação ou contemplação estética, ou seja, um processo de idealização. É na Arte que o homem chega à sua perfeição em seu próprio condicionamento. Partindo desse pensamento nietzscheano, não é distante para ele ser dionisíaco, pois Dionísio é a força criadora e lúdica da vida se tornando o símbolo dos desejos humanos, dando liberdade de movimento, de pensamento e ação. Desta forma, o filósofo alemão foi buscar no culto dionisíaco a instabilidade, a reprodução, chegando à mulher como peça natural da criação, sendo inspiração dos sátiros, percebendo a dualidade dos sexos e da explosão da Arte.
Nietzsche coloca a ópera de Wagner como o renascimento da Tragédia, afinal, afirma que nenhuma outra Arte está tão próxima do coração como a música, pois sua linguagem se manifesta pelo ouvido interior, em uma maestria da cadência para o tempo, o ritmo e a palavra. A relação de Nietzsche com a música foi de paixão, no sentido de aproximação e conhecimento pelo objeto, da mesma forma que o aproximou de Wagner, contemplando a junção destes três elementos: Tragédia, paixão e música.
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| Para Schopenhauer, a Música é superior a outras artes por não ser a cópia de ideias e sim a expressão pura de sentimento, livre de qualquer representação |
Portanto, o sentimento trágico só é possível de ser absorvido por quem possui conhecimento necessário para refletir a moral exposta na Tragédia, apesar de atingir também àqueles que possuem o "sentimento simpático" 3 .
Neste trecho de Além do Bem e do Mal, Nietzsche explicita o que pensa por Tragédia: "A volúpia dolorosa que é a essência da Tragédia, nada mais é que crueldade, tudo aquilo que na paixão trágica, e no fundo mesmo no sublime, mesmo nos mais supremos e mais delicados arrepios da metafísica, desperta uma complacência, obtém seu dulçor apenas pelo ingrediente de crueldade que lhe é mesclado. Todos os prazeres que se apossavam com secreta volúpia dos romanos na Arena, dos cristãos na lembrança da cruz, dos espanhóis frente aos toureiros ou corridas de touros, que experimentam os japoneses da modernidade quando se reúnem para ouvir a Tragédia, os operários dos subúrbios de Paris que têm a nostalgia das revoluções sangrentas, os wagnerianos que imersos em êxtase degustam Tristão e Isolda - são apenas filtros mágicos da grande Circe que tem o nome de Crueldade" (Nietzsche, 2007, p. 150).
Portanto, a Tragédia grega demonstra sobretudo o aniquilamento do herói diante de forças extraordinárias que o superam. O herói representado em cena é um indivíduo, e o destino da individualização é a dissolução no âmago da natureza. Para o espectador, este enredo gera uma compreensão em forma de consolo metafísico.
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| Monalisa, de Leonardo da Vinci. Em sentido platônico, as ideias são as essências das coisas existentes no mundo tangível. Para Schopenhauer, o artista reproduz um conhecimento dessas ideias |
Música e Drama
Richard Wagner disse com um calor indescritível em um encontro com Nietzsche que Schopenhauer é o pensador que mais conhece a essência da música. Wagner recebeu de presente do poeta Georg Herwegh, pouco antes do outono de 1854, dois livros do filósofo Schopenhauer, Die Welt Als Wille und Vorstellung e Parerga und Paralipomena, no mesmo ano em que terminou a partitura de O Ouro do Reno. No ano de 1854, quando começou a ler Schopenhauer, chegou à conclusão de que o drama era essencialmente expresso pela Música e que o desempenho no palco não passava de um "ato musical visualizado", colocação esta que acrescentará no artigo escrito em Über die Benennung Musikdrama Wochenblatt, em 8 de novembro de 1872 4 .
Em seu artigo sobre a palavra Musikdrama, Wagner cita que estes dois substantivos (música e drama), que juntos formam uma única palavra, resultam em algo como um drama no serviço de música, retomando, assim, a ópera libreto. Reduzindo o significado para "um drama musical", Wagner coloca este termo da seguinte forma: ou é bom para se fazer música, ou bom para entender a música. O fato é que a forma com que Wagner expõe a música na palavra Musikdrama, coloca a música no mesmo patamar de importância do drama apresentado. Desta forma, a Música é convidada a desenvolver e a alargar as suas competências em parceria de um autêntico drama.
Para Wagner, a primeira acepção de drama acontece na Tragédia, com o "feito" ou "ação" ocasionado geralmente por um coral cantando em caráter sacrifical.
O que Wagner propõe a esclarecer é que a música não pode ser vista apenas como um fundo musical - música esta que se define como "música para acompanhar uma refeição" (Tafelmusik) - no momento em que ocorre toda a Tragédia e, sim, um importante complemento. Desta forma, a Música não é vista como superior ou inferior ao drama, pois ambos estão ligados para melhor atingir o ouvinte ou o espectador, fazendo que o "feito" ou "ação" seja de caráter único.
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