editora Escala
 
Filosofia  
       
 
 

 

A Tragédia em notas musicais
Apesar da falta de palavras, a música pode expressar, de forma universal, a essência moral buscada pela Tragédia. É é dessa forma que Música e Filosofia se aproximam e ajudam-se uma à outra, como mostram Nietzsche, Wagner e Schopenhauer

Imagem: Wolfgang Sauber/Wikipédia
Escultura de Melpômene, musa da Tragédia. Para Aristóteles, tanto a escultura quanto a Música e outras formas de Arte não passam de imitações, nunca são inéditas

Celebração da Vida

Friedrich Nietzsche, um vidente da humanidade superior, alguém que buscava a superação de si mesmo, tinha como base filosófica a consagração da vida, cheia de força e vigor. O filósofo era venerador de Wagner e de Schopenhauer e dizia que a Arte e a Filosofia eram os guias verdadeiros da vida 2.
Niilista e muito mais dionisíaco que apolíneo, se dizia o último discípulo de Dionísio, pois sua vida era de embriaguez e sofrimento. Em seu pensamento, é indispensável a embriaguez para que haja Arte, ação ou contemplação estética, ou seja, um processo de idealização. É na Arte que o homem chega à sua perfeição em seu próprio condicionamento. Partindo desse pensamento nietzscheano, não é distante para ele ser dionisíaco, pois Dionísio é a força criadora e lúdica da vida se tornando o símbolo dos desejos humanos, dando liberdade de movimento, de pensamento e ação. Desta forma, o filósofo alemão foi buscar no culto dionisíaco a instabilidade, a reprodução, chegando à mulher como peça natural da criação, sendo inspiração dos sátiros, percebendo a dualidade dos sexos e da explosão da Arte.

Nietzsche coloca a ópera de Wagner como o renascimento da Tragédia, afinal, afirma que nenhuma outra Arte está tão próxima do coração como a música, pois sua linguagem se manifesta pelo ouvido interior, em uma maestria da cadência para o tempo, o ritmo e a palavra. A relação de Nietzsche com a música foi de paixão, no sentido de aproximação e conhecimento pelo objeto, da mesma forma que o aproximou de Wagner, contemplando a junção destes três elementos: Tragédia, paixão e música.

Imagem: Shutterstock
Para Schopenhauer, a Música é superior a outras artes por não ser a cópia de ideias e sim a expressão pura de sentimento, livre de qualquer representação

Portanto, o sentimento trágico só é possível de ser absorvido por quem possui conhecimento necessário para refletir a moral exposta na Tragédia, apesar de atingir também àqueles que possuem o "sentimento simpático" 3 .
Neste trecho de Além do Bem e do Mal, Nietzsche explicita o que pensa por Tragédia: "A volúpia dolorosa que é a essência da Tragédia, nada mais é que crueldade, tudo aquilo que na paixão trágica, e no fundo mesmo no sublime, mesmo nos mais supremos e mais delicados arrepios da metafísica, desperta uma complacência, obtém seu dulçor apenas pelo ingrediente de crueldade que lhe é mesclado. Todos os prazeres que se apossavam com secreta volúpia dos romanos na Arena, dos cristãos na lembrança da cruz, dos espanhóis frente aos toureiros ou corridas de touros, que experimentam os japoneses da modernidade quando se reúnem para ouvir a Tragédia, os operários dos subúrbios de Paris que têm a nostalgia das revoluções sangrentas, os wagnerianos que imersos em êxtase degustam Tristão e Isolda - são apenas filtros mágicos da grande Circe que tem o nome de Crueldade" (Nietzsche, 2007, p. 150).
Portanto, a Tragédia grega demonstra sobretudo o aniquilamento do herói diante de forças extraordinárias que o superam. O herói representado em cena é um indivíduo, e o destino da individualização é a dissolução no âmago da natureza. Para o espectador, este enredo gera uma compreensão em forma de consolo metafísico.

Imagem: Wikipédia
Monalisa, de Leonardo da Vinci. Em sentido platônico, as ideias são as essências das coisas existentes no mundo tangível. Para Schopenhauer, o artista reproduz um conhecimento dessas ideias

Música e Drama

Richard Wagner disse com um calor indescritível em um encontro com Nietzsche que Schopenhauer é o pensador que mais conhece a essência da música. Wagner recebeu de presente do poeta Georg Herwegh, pouco antes do outono de 1854, dois livros do filósofo Schopenhauer, Die Welt Als Wille und Vorstellung e Parerga und Paralipomena, no mesmo ano em que terminou a partitura de O Ouro do Reno. No ano de 1854, quando começou a ler Schopenhauer, chegou à conclusão de que o drama era essencialmente expresso pela Música e que o desempenho no palco não passava de um "ato musical visualizado", colocação esta que acrescentará no artigo escrito em Über die Benennung Musikdrama Wochenblatt, em 8 de novembro de 1872 4 .
Em seu artigo sobre a palavra Musikdrama, Wagner cita que estes dois substantivos (música e drama), que juntos formam uma única palavra, resultam em algo como um drama no serviço de música, retomando, assim, a ópera libreto. Reduzindo o significado para "um drama musical", Wagner coloca este termo da seguinte forma: ou é bom para se fazer música, ou bom para entender a música. O fato é que a forma com que Wagner expõe a música na palavra Musikdrama, coloca a música no mesmo patamar de importância do drama apresentado. Desta forma, a Música é convidada a desenvolver e a alargar as suas competências em parceria de um autêntico drama.

Para Wagner, a primeira acepção de drama acontece na Tragédia, com o "feito" ou "ação" ocasionado geralmente por um coral cantando em caráter sacrifical.
O que Wagner propõe a esclarecer é que a música não pode ser vista apenas como um fundo musical - música esta que se define como "música para acompanhar uma refeição" (Tafelmusik) - no momento em que ocorre toda a Tragédia e, sim, um importante complemento. Desta forma, a Música não é vista como superior ou inferior ao drama, pois ambos estão ligados para melhor atingir o ouvinte ou o espectador, fazendo que o "feito" ou "ação" seja de caráter único.

<< Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>

 

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 81
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
O QUE É FILOSOFIA?
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



Faça já a sua assinatura!

Psique

Desvende a mente humana

Assine por 1 ano
11x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Sociologia
Um olhar sobre o mundo que no para.

Assine por 2 anos
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Filosofia

Pensamentos universais de forma objetiva e sem complicaes.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Leituras da Histria

Fatos e personalidades que deixaram suas marcas.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS