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A Tragédia em notas musicais
Apesar da falta de palavras, a música pode expressar, de forma universal, a essência moral buscada pela Tragédia. É é dessa forma que Música e Filosofia se aproximam e ajudam-se uma à outra, como mostram Nietzsche, Wagner e Schopenhauer

Véu de Maia

A expressão "Véu de Maia" ou "véu da ilusão" vem da filosofia indiana e significa esconder a realidade das coisas em sua essência. Os hindus cultivaram a ideia de que o nosso mundo não é exatamente esse que vemos e somos levados a acreditar.
O mundo real, segundo eles, seria algo escondido do olhar humano comum, acessível somente a quem conseguisse ultrapassar o "Véu de Maia". Schopenhauer, influenciado pela filosofia indiana, desenvolveu a teoria segundo a qual há algo que impede o homem de conhecer a realidade. O fenômeno, ou seja, todas as coisas que nos cercam, seria apenas ilusão e aparência. A realidade, ou a "coisa em si", estaria velada a nós em sua essência, escondida atrás do fenômeno. O acesso à "coisa em si", a retirada do "Véu de Maia", segundo Schopenhauer, seria a "vontade". Não uma vontade finita, individual e ciente, mas cujo conceito se refere a algo infinito, uno e indizível.

Imagem: Jastrow/Wikipédia
Dionísio, deus da mitologia grega de quem Nietzsche se dizia discípulo. Ambos valorizam a liberdade, os impulsos e a embriaguez, sem a qual não imagina a Arte

Filosofia sem Palavras

Quando Platão diz que a música imita o movimento da alma e Aristóteles que a música é ordenada ao ético e semelhante a ele, compreende-se a essência da Música como um discurso sem palavras, a essência que Schopenhauer define como do "bem e/ou mal" (Wohl und Wehe), como um manifestar-se sem palavras daquele processo da mais íntima autorrealização; como o devir da pessoa moral; como o querer em todas as suas formas; como o amor. Essa mesma essência para Platão é um meio para formação do caráter do indivíduo.
Como já dito anteriormente, discorrer sobre Filosofia e Música nos remete a aproximá-las de modo que uma ajude a compreender a outra, realizando assim o silogismo pela arte de pensar.
Não só para Platão, mas também para Aristóteles, a Arte se dá por intermédio da imitação, não imitação por imitação, mas sim a imitação direta da própria ideia, do inteligível imanente do sensível, tornando desta forma a intuição como fator primordial para receber a obra do artista.

Temos como exemplo de silogismo Nietzsche, com a abertura de Lohengrin, onde cita: "detesto toda música cuja única ambição consiste em agir sobre os nervos" (Nietzsche, 2007, p.32). Wagner, com a Filosofia de Schopenhauer na composição de Die Walküre, diz: "Assim, certamente não era uma simples coincidência que, ao ler Schopenhauer pela primeira vez em 1854, tenha tido uma espécie de iluminação súbita, no exato momento em que trabalhava na cena do ataque de desespero de Wotan, no segundo ato de Die Walküre" (Deathridge e Dahlhaus, 1988, p.69).
A Filosofia possui certa quantidade de Música, como a Música possui de Filosofia. "Música é um exercício oculto de metafísica no qual a mente não sabe que está filosofando" (Schopenhauer, 2007, p.347).
Sendo assim, o mito e a Tragédia, apesar de expostos de maneiras diferentes, tinham como fator primordial fazer que o ouvinte ou o espectador, por meio da mensagem recebida, trabalhasse seu interior para buscar a moral em si. Além disso, podemos concluir que para entender a essência da música e da Tragédia é necessário trabalhar de maneira que o drama e a música sejam um único argumento em harmonia. A filosofia de grandes pensadores nos mostra que a função da Música em determinado período possui liberdade única de expressão para atingir universalmente o homem como a poesia age quando é lida ou apresentada de várias formas.
Por fim, a pura contemplação, a essência e os fenômenos do mundo são representações na imitação de ideias, da Arte, da obra, que pelo conhecimento das ideias seu único fim é a comunicação e a reflexão deste conhecimento, ou seja, da informação apresentada.

Mito e Tragédia - duas formas de moral

O mito (saber alegórico), relatava a vida dos deuses, heróis e seu envolvimento com os homens. Este conjunto de lendas e crenças através de um modo simbólico forneceu explicações para a realidade grega acomodando e tranquilizando o ser humano em um mundo assustador, uma preocupação de expor a degradação moral crescente da humanidade, em seguida fazer conhecer o destino para além da morte, das gerações sucessivas.
O mito estabeleceu uma distinção clara entre o mundo da natureza, o mundo humano, o mundo das forças sagradas aproximadas pela imaginação mítica, que às vezes estabeleceu entre todos os setores do real um jogo de correspondências sistemáticas, os pensamentos míticos são assimilações implícitas estabelecidas entre fenômenos físicos e agentes divinos, o sobrenatural, ou seja, formas diversas, níveis múltiplos, modos de organização. Em segundo lugar o pensamento racional volta-se para suas origens, interroga o seu passado para se situar e compreender historicamente, sendo assim, elimina estações polares e ambivalentes que representam no mito um papel importante, utiliza associações por contrates, afasta o que procede de ambíguo ou do equívoco.

A Tragédia pode ser vista como o cotidiano, é a imitação do viver, do agir, da incerteza, seja ela qual for, independentemente da ação e reação, pois por intermédio desta ação surge a catarse que é o principal ponto a ser tocado pelo homem, ou seja, a purificação realizada pelo lado emotivo passado pela reação, o terror que o espectador ou leitor está vivenciando do lado de fora da cena faz que ele possa sentir-se no mesmo lugar, o padecimento, o alívio junto ao enredo mostrado desde o início ao fim.
Desta forma, mostrando a realidade pela tristeza, redenção e alegria ao mesmo tempo, gera-se um estímulo para vida, que o homem que está fora da encenação adentre e tome o lugar deste trágico momento, movendo assim um momento de reflexão e mudança caso seja necessário. A Paideia é este enredo trágico recebido de maneira correta, no conceito da moral pelo homem que se encontra pelo lado de fora.

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