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Filosofia  
       
 
 

 

Alain de Botton
Um guia para a Filosofia
Escritor suíço que coleciona uma legião de fãs, e também de críticos, fala de sua proposta de tornar a Filosofia mais palatável e a Arquitetura mais bela

Por Bruno Tripode Bartaquini

FILOSOFIA  Alguns de seus críticos dizem que você cria manuais práticos a partir do pensamento dos filósofos e que, fazendo isso, incorre em dois problemas principais: 1. Seu enquadramento dos pensamentos desses filósofos encontra uma sabedoria prática do dia a dia onde não há; 2. Existe uma descontextualização e deformação dos trabalhos daqueles pensadores. Além disso, sua crítica mais comum é a de que você diz o óbvio de uma forma pomposa. Como você costuma responder a estas afirmações?
Alain de Botton 
A tarefa de se entender um pensador "em seu contexto" é uma das que são feitas de forma bela pelas universidades modernas. Há milhares de acadêmicos por todo o mundo não fazendo nada além disso. Há muito menos, portanto, pessoas que se atrevem a perguntar "como esta ideia pode nos ajudar hoje?". Este é meu projeto, e penso ser válido (mesmo que eu não o faça tão bem). Penso também que é completamente legítimo deformar pensadores com o objetivo de extrair algo interessante deles. Então, por exemplo, se eu ignoro 10 páginas de Ruskin (John Ruskin, 1819 -1900) para focar em 1 que considero fascinante, isto é de certa forma uma "deformação". A real questão a ser perguntada é: para começar, qual é o motivo de se ler Ruskin? De novo, meu ponto de partida é que precisamos ler essas pessoas pelo que elas podem nos dizer hoje, não pelo que eles podem ter dito à sua plateia há 100 anos.

FILOSOFIA  Enquanto você estava em São Paulo, você publicou em seu twitter "Enfrentando uma grande plateia, um profundo desejo de abraçar os inventores de Propanol. Qual sua opinião sobre a crescente medicalização de nosso cotidiano? Chegamos a um ponto onde devemos aceitar que é impossível ser bem-sucedido sem ajuda química? Deveríamos aceitar que a Filosofia não é suficiente no mundo em que vivemos?
Alain de Botton 
O ser humano sempre se apoiou sobre ajuda "química". Pense no vinho, no café, na água... Mas também, no sono, nos rituais como orações e nos momentos vazios em monastérios. Não há nada errado em tentar controlar o humor de alguém de qualquer forma que for possível. O que importa é o quão valiosa é a sensação que se tenta criar. O problema das drogas é, portanto, não que elas sejam "drogas", mas que as sensações que criam são, em geral, tão horríveis, irreais, sentimentais, violentas ou excessivamente sexuais. Se amanhã fossem inventadas drogas que nos fizessem parecidos a Proust ou Sócrates, eu não seria contra.

FILOSOFIA  Nietzsche costumava dizer que uma pessoa só pode se chamar de filósofo se tiver desenvolvido todo um sistema de pensamento, como ele mesmo havia feito. Dentro desta condição, você se consideraria um filósofo, um professor de Filosofia ou um transmissor?
Alain de Botton 
Eu desenvolvi um sistema de pensamento que abrange desde objetos de Arquitetura, amor, Religião até viagens e economia - portanto, pela descrição de Nietzsche, eu posso me considerar um filósofo.

FILOSOFIA  Como a Escola da Vida funciona? O que é inovador nela?
Alain de Botton 
Um dos paradoxos da sociedade de consumo moderna é que enquanto se pode encontrar milhares de negócios estilosos que lhe venderão o café ou a blusa perfeita, infelizmente poucas empresas estão interessadas em oferecer algo que poderia beneficiar sua mente. Um londrino ávido por receber algumas ideias de uma forma atrativa e viva sofre de uma séria escassez de opiniões para trabalhar. A maior parte da Educação disponível para o público geral acontece em instituições deprimentes, com chão de pedra, sob a proteção de pessoas que nos lembram do porquê de a academia ser também um sinônimo para "distante" e "entediante", e porque nós fomos, provavelmente, um dia, bastante agradecidos por desistir da escola ou da faculdade.


Um dos paradoxos da sociedade de consumo é que enquanto se pode encontrar milhares de negócios estilosos, poucas empresas podem oferecer algo que beneficie a mente

É por isso que eu e alguns amigos nos reunimos para começar um estabelecimento educacional diferenciado há dois anos. Para começar, a Escola da Vida tem uma crença apaixonada em tornar relevante o aprendizado - e assim ministra cursos sobre questões importantes da vida cotidiana. Ao passo que a maioria das universidades enquadra o aprendizado em categorias abstratas ("História agrária", "Novela inglesa do século XVIII"). A Escola da Vida intitula seus cursos de acordo com as coisas que todos nós temos tendência a nos importar: carreiras, relações, políticas, viagens, famílias. É provável que uma noite ou um final de semana seja usado em um desses cursos na reflexão sobre problemas tais como sua responsabilidade moral para com um ex-parceiro ou como resolver uma crise de carreira. Como a diretora da Escola, Sophie Howarth diz: "Nós o ensinaremos todas as coisas importantes e sensatas que um curso universitário pode oferecer, mas reunimos de forma diferente para que nunca pareça que estão te passando um sermão rígido ou chato. Mostramos a você como Aristóteles ou Platão podem fazer a diferença na sua vida. Claro, estamos adoçando a pílula do conhecimento, mas não é muito melhor do que adoçar a falta de senso?"

É inegável que a Escola da Vida está interessada em adoçar - ou antes, em parecer bem. De suas brochuras estilizadas ao interior lúdico de sua sede em Bloomsbury, você sabe que estar nas mãos de pessoas que pensam que alimentar a mente não deveria ser incompatível com o deleite visual. Mais importante, talvez, o lugar consegue manter o senso de humor sobre si mesmo e sobre todo o negócio da aprendizagem.

A Escola oferece um serviço chamado biblioterapia, baseado na ideia de que a razão real de as pessoas não lerem muito hoje em dia é que há, de longe, muitos livros na praça. Perplexas e confusas com as escolhas, e mentalmente desgastadas pelo mais novo e bombástico vencedor premiado, será mais fácil escolher a TV. Para mudar tudo isso, os biblioterapeutas da Escola da Vida oferecem encontrar- se com você em uma conversa profunda sobre seu caráter e aspirações e então chegar num plano de leitura para o futuro, que termina nos livros que poderiam realmente resgatar seus interesses subjacentes e enriquecer seu modo de olhar para o mundo.


Minha própria identidade está toda baseada em recusar categorizações e fronteiras; sejam elas de um país ou de uma instituição como uma Universidade


Então, novamente tudo vem com o coração leve. A Escola tem uma divisão oferecendo psicoterapia para indivíduos, casais ou famílias - e o faz de uma forma completamente livre de estigmas. Para os ingleses, geralmente reservados, deve ser uma prioridade ter uma instituição que oferece terapia em uma rua comum e mais, trata a ideia de fazer terapia como não mais ou menos estranha do que cortar o cabelo ou ir a pedicure, e talvez seja um tanto mais útil.

Em uma cultura onde qualquer um que tenta ter uma conversa séria foi alguma vez acusado de pertencer às "chattering classes" (termo inglês usado para se referir à classe média urbana que engendra conversas com certo ar de esnobismo) e onde tudo o que é muito intelectual corre o perigo de ser chamado de pretensioso, deve-se aplaudir um lugar que tenta pôr o aprendizado e as ideias de volta para onde elas deveriam sempre ter ficado - bem no meio de nossas vidas.

FILOSOFIA  Você tem um histórico familiar interessante vindo de uma família judia sefardita, como Edgard Morin, que veio de Alexandria, e como Erick Hobsbawn. Sua família está envolvida com coleções artísticas, bancos e Arquitetura, temas que você parece privilegiar. Seus filhos têm os nomes Saul e Samuel. Mais especificamente, como sua história familiar influenciou o seu trabalho?
Alain de Botton  Existem algumas coisas interessantes no meu histórico familiar: em primeiro lugar, desde muito novo aprendi a falar para uma audiência internacional. Eu falava três línguas fluentemente quando tinha oito anos e circulava entre Suíça e Reino Unido. Eu compreendi as classes e as diferenças sociais cedo. Acredito que isso ajudou meu trabalho cruzar fronteiras. Minha própria identidade está toda baseada em recusar categorizações e fronteiras; sejam elas de um país ou uma instituição como uma universidade. Além disso, meu passado me deu um amor à Literatura - uma crença de que não há nada mais importante do que bons livros. Não me lembro de uma única parede da minha infância que não tinha livros por todo lado. Isso impressiona uma criança.

Ao mesmo tempo, meus pais eram pessoas muito práticas, envolvidos nos negócios do mundo. Então, isso me deu o sentimento de que eu não era simplesmente um intelectual numa torre. Era importante também me misturar, mesclar-me, ser ativo - e tentar mudar as coisas além de meramente livros.

 

 

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