Para refletir Quando o mundo falava latim Um império que transformou o Mediterrâneo num mar romano e alcançou também a parte mais ocidental da Europa
Sartre: a dimensão desumana da guerra
Diário de uma Guerra Estranha, Autor: Jean-Paul Sartre, Editora: Nova Fronteira 688 págs. |
Existem literaturas que comportam um alto grau de Filosofia. Machado de Assis, Fernando Pessoa, T.S. Eliot e outros. Assim como também existem filosofias que possuem um alto grau de poeticidade que caracterizam, entre outros elementos, a Literatura. Gaston Bachelard, Gilles Deleuze estariam, com tranquilidade, nesta lista. Jean-Paul Sartre é um grande pensador enquanto escritor, contudo, sem fugir da Filosofia como seria de se esperar. A maioria dos diários de grandes escritores e, neste caso, de grandes filósofos, possui uma dimensão filosófica inescapável. Sartre define seu diário: “Este caderno é útil para mim porque me ensina, se me é permitido falar assim, a pensar espontaneamente. Eu era sistemático demais. Eu teria elaborado, facilmente, uma teoria sobre a guerra, partindo dos princípios para chegar às últimas conclusões. Em vez disso, inscrevo, aqui, meus pensamentos tais como estes me ocorrem e não dissimulo que existem contradições no que pensei sobre o ser-em-guerra, neste ou naquele dia. Mas tanto faz. Em vez de uma teoria sobre a guerra, pretendo fazer descobertas.” Sartre participou da Segunda Guerra Mundial, durante o período de setembro de 1939 a março de 1940, como meteorologista, sem integrar a infantaria, ou seja, sem pegar nas armas diretamente. Desta forma, houve tempo e uma certa disponibilidade, como ele mesmo afirma, ao longo de sua escritura, para fazer anotações sobre sua condição, sobre a condição humana dentro de um contexto de guerra, assim como pensar em sua Literatura romanesca e filosófica. Este diário, alternado entre situações escritas e descritas com bastante objetividade – como por exemplo, a espera das cartas, em especial a de Simone de Beauvoir (Castor), os momentos em que vai comer com seus companheiros, conversas banais com seus amigos e os grandes momentos de reflexões existenciais – merece uma leitura cuidadosa por diversas razões. Uma delas é que ali se encontram os grandes questionamentos que Sartre faz a respeito da guerra em si e o papel da Segunda Guerra Mundial. Nessa perspectiva, o autor, como muitos historiadores observaram, diz que a Segunda Guerra seria uma espécie de continuidade da Primeira, que, na verdade, deixou muitos pontos irresolvidos no planeta. Evidentemente, Sartre não para por aí. Os grandes questionamentos brotam como gotas intensas de uma grande chuva de verão: o que, individualmente, um homem faz numa situação de guerra? Quais são as disposições? Quais as disponibilidades individuais e coletivas para uma guerra? Em que medida se colabora ou não para as grandes misérias que a guerra envolve? Nessa perspectiva, predomina na escritura de Sartre o abalo de nossas possíveis certezas acerca de nós mesmos. Um outro motivo essencial para a leitura da obra em questão seria a revisão provocada na identidade da humanidade: “Questionar a natureza humana, usando métodos próprios da natureza humana. Saber que a natureza humana já se define pelo questionamento que formula sobre si mesma. De um só golpe, colocamos o espírito, não o corpo, a psique, não a história, nem o social ou o cultural, mas a condição humana enquanto unidade indivisível, como objeto de nosso questionamento.” Nestes tempos de guerra, mesmo que isoladas, como no Oriente Médio, a leitura deste livro traz, certamente, um grande grau de visibilidade, se pensarmos o quanto de imbecilidade e miséria humana a guerra carrega. Em que medida assistimos, sem envolvimento, como estátuas de pedra, a mortes e sofrimentos que, talvez, fossem atenuados ou, mesmo, evitados, caso houvesse intervenções efetivas? Socorro! Onde estão os humanos? (A.M.H.B.)
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Corpos e tecnologia: extensão unitária
Indicado ao Prêmio Shell na categoria de Iluminação e ao Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro na categoria Direção, a peça Cabaret Stravaganza ainda está em cartaz. O objetivo da peça é discutir a relação do homem com a revolução tecnológica partindo das influências das stravaganzzas vitorianas, das performances dadaístas do Cabaret Voltaire e dos cabarés alemães dos anos 1920 e 1930. Em sua composição são utilizados recursos de multimídia, Internet e telefonia, numa sequência de cenas e intervenções performativas. Na pesquisa para a peça, foram analisadas as revoluções digitais e as recentes descobertas da Neurociência, como as de Antonio Damásio e Miguel Nicolelis. Para compor a dramaturgia, também foram usados relatos pessoais, vivências e aparatos tecnológicos que propõem a conexão entre o real e o digital. Com direção de Rodolfo García Vázquez e texto de Maria Shu, a peça fica em cartaz até dia 29 de abril no Teatro Satyros I. |
Ana Maria Haddad Baptista (A.M.H.B.) é mestra e doutora em Comunicação e Semiótica. Pós-doutora em História da Ciência.
Pesquisadora e professora de diversas universidades. Escreve sobre literatura nestas páginas. professoraanahb@gmail.com
As Loucas Aventuras de Rabbi Jacob
Imaginem alguém preconceituoso, que seja racista, xenófobo. Uma pessoa que odeia imigrantes árabes, judeus, negros. Qualquer um que não se encaixe na sua concepção de ser humano. No mundo real é até possível encontrarmos, mas no Cinema, essa pessoa é Victor Pivert (Louis de Funès). O filme inicia em Nova Iorque onde Rabbi Jacob parte para Paris para se encontrar com a sua família. Enquanto isso, na França, vamos encontrar Pivert em uma autoestrada a maldizer os turistas ingleses, alemães e belgas, quando seu caminho é interrompido por um casamento. Pivert chama o guarda de trânsito e lhe fala: “Você viu a noiva? Ela é negra. Nem ao menos é café com leite, ela é negra e noivo é branco”.
O diálogo se dá no exato momento em que ele recebe uma descarga do escapamento do carro dos noivos e sua feição torna-se negra. E passa a ser confundido com o pai da noiva. Em seguida, descobre que seu motorista Salomon (Henri Guybert) é judeu. E fica estupefato. Para completar, seu caminho é cruzado pelo revolucionário árabe Slimane (Claude Giraud) que tenta usar Pivert como refém para conseguir escapar da França. No aeroporto, quando estão sendo perseguidos, cruzam com os rabinos Jacob e Samuel, roubam e usam as vestimentas dos religiosos para passarem despercebidos. Pivert, que se diz um católico fervoroso, é agora um rabino. É o início de uma sucessão de confusões hilariantes com Pivert e seu preconceito diante de uma cultura diferente da sua. A boa comédia é uma das melhores formas de desnudar um preconceito e fazer pensar. (M.J.A.S.)
DICA: Link para o trailer do filme. http://www.youtube.com/watch?v=Fj6yVJ0neDQ.
Les Aventures de Rabbi Jacob
Direção: Gérard Oury
Ano de produção: 1973 (FRA)
Duração: 100 min.
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