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Um império que transformou o Mediterrâneo num mar romano e alcançou também a parte mais ocidental da Europa



Michael Foley e o absurdo da condição humana

Imagens: Divulgação

Michael Foley, de origem irlandesa, é professor de Tecnologia da Informação em Londres e autor de quatro romances. Publicou também quatro coletâneas de poesias, além de traduzir poemas franceses. A Era da Loucura, lançado no Brasil pela Editora Alaúde no ano passado, é seu primeiro título de não- -ficção. Em curta entrevista à Filosofia Ciência & Vida ele comenta pontos altos da publicação.

Gostaríamos que você explicasse o significado do título de seu livro A Era da Loucura, ou, em uma tradução mais literal do original em inglês The Age of Absurdity, A Era do Absurdo.
O título tem dois significados: o absurdo do comportamento contemporâneo e, ainda, a filosófica tradição do absurdo no século XX, tal como fora desenvolvida por pensadores como Albert Camus. Como ele, acredito que a condição humana é fundamentalmente absurda, porque estamos programados para buscar significados para nossa existência e ter consciência de que não há nenhum. Mas podemos saborear este absurdo em vez de nos tornarmos assustados ou deprimidos por ele. Podemos perceber que ambas as formas de absurdo, o comportamental e o filosófico, são, na verdade, hilários.

No livro, você afirma que a sociedade se tornou infantil, menos consciente de si e de suas obrigações, mais orientada por méritos individuais. Poderia nos dar um exemplo desse típico comportamento moderno?
Um dos sintomas de infantilidade é a rejeição da dificuldade. Um dos melhores exemplos disto é que, no Reino Unido (e, possivelmente, em outros países bem desenvolvidos) as vendas de laranjas estão caindo porque ninguém pode se incomodar em descascá-las.

Como isso afeta o ideal de felicidade e os valores tradicionais?
As sociedades tradicionais tinham obrigações demais e não tinham direitos suficientes.

A sociedade moderna tem muito direito e obrigação insuficiente. É preciso haver equilíbrio entre os dois – mas esse equilíbrio é difícil de atingir.

Você descreve, em seu livro, o “absurdo de trabalho”, no qual a menor liberdade no ambiente corporativo é compensada pelo paternalismo dos empresários: um local de trabalho com ricos intercâmbios sociais, ambientes autossuficientes, com lojas, cafés, etc. Com base nisso, e no fato de que, em todo o livro, a impressão é de que a revolução necessária é individual e íntima, eu gostaria que você comentasse sobre o papel das instituições na mudança de paradigmas e valores que permeiam, sobretudo, a nossa busca por felicidade.
Concordo que a revolução individual é provavelmente a única forma de avançar.

Forçar instituições à mudança é provavelmente inútil. Mas se um número suficiente de indivíduos mudar, instituições e governos os seguirão. No entanto, trabalhar por uma vida, como a maioria de nós tem de fazer, provavelmente será sempre complicado. Empregadores nos pagam para fazer o que querem, não o que queremos, e temos cada vez mais engenhosas e sutis formas de convencer-nos a querer o que eles querem. Temos de estar conscientes destas manobras.

Você escreveu sobre a atrofia da experiência e como isso afeta nossas vidas, como desde então a tecnologia e a vida em um “nível meta” fomentam a ilusão.

Você não acha que ela destrói a noção de responsabilidade? Que também é algo inevitável na vida virtual, cheia de esperança, gerando ansiedade (algo que Schopenhauer já havia percebido)?
A maioria dos pensadores, dos filósofos estoicos até Marcel Proust (inclusive Schopenhauer, é claro), tem entendido que temos uma tendência inevitável para viver na expectativa e que isso torna difícil apreciar o presente. Mas compreender a tendência torna possível resistir a tudo isso.

Que caminhos você imagina para uma sociedade menos ansiosa e mais resiliente? Na realidade, você acredita na resiliência como uma coisa positiva hoje em dia? (Especialmente nos relacionamentos, ou no “absurdo do amor”...)
Eu acredito que a ansiedade é uma consequência inevitável da riqueza. Quanto mais confortáveis nos tornamos, mais medo temos de perder esse conforto. O mundo desenvolvido não tem sido mais saudável e seguro e nunca se sentiu menos saudável e menos seguro. E quanto mais a gente se acostuma ao conforto, menos resilientes nós nos tornamos. Tal como acontece com o problema da expectativa, a única maneira de resistir a estes eventos é compreendê-los. Uma das minhas frases favoritas é de Buda: “O entendimento é transformação”.

Nas relações, tolerância e esforço são tão cruciais como resiliência. Não há a tal coisa da “pessoa certa” e nem um estado definitivo e passivo de “apaixonamento”. Ninguém é fácil de se conviver. Todo relacionamento exige trabalho constante.

Como a sociedade moderna lida com a espiritualidade e com as experiências de transcendência?
Transcendência é uma perda de si mesmo, uma imersão de si em uma unidade maior – e a sociedade moderna prefere tomar o atalho à transcendência por meio de álcool e drogas. Quanto à espiritualidade, não-crentes não devem permitir que isto seja reivindicado pela religião. Também pode ser uma espiritualidade ateia: essencialmente, um sentimento de admirar o milagre da existência consciente na galeria das maravilhas que é o universo.

Parece que cada nova teoria ou descoberta científica nos traz a sensação de que apenas uma medida justa de todas as coisas, um comportamento moderado, pode trazer um pouco de bem-estar... O que você acha sobre a nossa incapacidade ou impossibilidade de encontrar esse equilíbrio?
O problema é que o equilíbrio é difícil de conseguir, em primeiro lugar, e nunca é permanente, porque tudo está mudando constantemente - o indivíduo, suas circunstâncias e as da sociedade em que ele opera. Assim, o esforço, a aprendizagem e a adaptação são infinitos. Não há uma realização definitiva.

O que você poderia extrair de Kafka e Sartre – suas referências – para “descrever” ou “para nos fazer refletir sobre” a atual “Era do Absurdo”?
Eu gosto da insistência de Sartre sobre a importância da responsabilidade pessoal: “o homem é totalmente responsável por sua natureza e suas escolhas.” Infelizmente, esta não é uma ideia moderna. O mundo moderno encontra na responsabilidade muita exigência e prefere acreditar em várias formas de determinismo - genética, neurológica e evolutiva. O que eu amo em Kafka é a sua variação moderna sobre as sagas ancestrais, comuns a todas as culturas. Nas sagas de Kafka (por exemplo, o romance O castelo e a parábola Diante da Lei), nunca o herói localiza o objeto de sua missão, mas é obrigado a continuar buscando mesmo assim. Esta é uma maneira maravilhosamente engraçada de ilustrar o absurdo da condição humana.

Poucas pessoas parecem entender que Kafka é engraçado...

 

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