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Filosofia, economia e a crise
Com base no individualismo metodológico de um lado e na teoria marxista de outro, a crise econômica atual pode ser entendida não como uma deficiência do sistema financeiro, mas como um colapso das relações humanas

Por Maria Cristina Longo Dias e Tomas Rotta

Prazer e dor

O modelo de indivíduo que é expresso a partir da ontologia do autor pode ser explicitado da seguinte forma: a) o indivíduo dotado da capacidade de experimentar duas sensações reais (prazer e dor) é a entidade ontológica fundamental, para análise política e econômica, pois é o único que possui existência na realidade, b) este indivíduo busca o prazer e foge da dor, ou seja, é autointeressado3 e c) o indivíduo possui a faculdade intelectual de uma razão que calcula, ele é capaz de fazer cálculos intertemporais, inclusive no que diz respeito às consequências das ações.

Essas características referentes a uma suposta natureza humana e essa maneira de pensar a sociedade a partir do indivíduo constituem a base filosófica teórica e prática da economia neoclássica, ou do chamado pensamento econômico liberal.

Mill, apesar de considerar uma natureza humana mais complexa, assumindo uma interação entre indivíduo e sociedade para a formação de seu caráter, também pressupõe que, para a análise econômica, o indivíduo deve ser considerado como sendo autointeressado. Para esse autor, portanto, quando se trata de pensar a sociedade considerando-se as relações econômicas, devem-se suprimir explicações das ações humanas influenciadas por outros motivos que não o próprio desejo de obter riqueza4.

Marx chama a atenção para o fato de que não é possível separar as diversas esferas das relações sociais da formação do caráter humano

Então, para Mill, a Economia Política é o campo da ação humana em que os motivos que a influenciam não são outros além do desejo de auferir mais riqueza, com o mínimo de trabalho. Segundo Mill, a ciência econômica é aquela que traça as leis do fenômeno social geradas a partir de operações combinadas da humanidade para a produção da riqueza, na medida em que estes fenômenos não são modificados pela busca de outros objetivos. Desta forma, de acordo com Mill e Bentham, quando se trata de análise econômica, o ponto de partida é o indivíduo autointeressado buscando, em todos os casos, maximizar sua utilidade e minimizar seus custos5.

Como vemos, ambos são exemplos de autores que embasaram filosofica riquezamente a doutrina que hoje se conhece como individualismo metodológico, ou a maneira de pensar as relações sociais a partir do indivíduo, assumindo considerações acerca de sua natureza.

A competição e as forças descentralizadas do mercado - assim como asseverado por Adam Smith - funcionariam como forças de inversão de interesses individuais em interesses gerais e, até mesmo, harmoniosos. Os fatores trabalho e capital seriam remunerados, de forma justa, de acordo com a sua contribuição marginal para a produção.

O papel do Estado e dos organismos políticos seria, desta forma, garantir a não violação desta harmonia. A de Mandeville seria, portanto, a plena naturalização do capitalismo e do individualismo, ou o perpetrado Vícios privados, benefícios públicos: "Esses insetos viviam como os homens, e todas as nossas ações / executavam em menor escala" (Mandeville 1934, p. 29). "Assim, cada parte era cheia de vício,/ Embora o todo fosse um paraíso" (idem, p. 33). "Então o vício é tornado benéfico / Quando é pela justiça aparado e limitado." (idem, p. 41)

ART RENEWALL INTERNATIONAL O agiota e sua esposa, Quentyn Massis. A busca por dinheiro move o homem autointeressado. Ele procura maximizar sua utilidade e minimizar seus custos com o objetivo de conseguir maior riquezamente

As consequências de interpretarmos a sociedade a partir de um indivíduo assim caracterizado são inúmeras. Em primeiro lugar, faz-se necessário criar uma série de mecanismos heterônomos para impedir que o autointeresse dos indivíduos não fira os interesses ou gere danos a outros indivíduos. Quando usamos a palavra heteronomia, em contraposição à autonomia, designamos uma série de mecanismos externos à vontade dos indivíduos que são criados para coagi-los. Tais mecanismos incluem, desde um aparato legal, prisões, escolas (que são usadas menos para emancipar e formar uma consciência crítica nos alunos e mais para discipliná-los), até regulações estatais6 que só devem entrar em ação quando a dita harmonia propiciada pela livre competição no mercado for violada.

O que liberais e neoclássicos propõem é, em verdade, a socialização das perdas e a regulação estatal provisóriapensada

Portanto, assumir que é possível pensar a sociedade a partir do indivíduo com uma natureza autointeressada significa tomar como pressuposto que ele também precisará de coação externa à sua vontade, pois há, constantemente, o risco de que esse autointeresse individual fira os outros indivíduos. E isto pode ocorrer em todos os âmbitos das relações humanas, sejam elas morais, políticas ou econômicas.

Essa necessidade de interferência externa no modo de agir das pessoas é, então, uma constante quando se toma como pressuposto que a sociedade é pensada a partir dos indivíduos com uma natureza autointeressada e que a comunidade (como afirma Bentham) nada mais é do que a soma destes indivíduos que buscam maximizar seus próprios interesses e minimizar suas dores. Ou seja, sempre há o risco de geração de danos mútuos, quando se toma a sociedade a partir de um indivíduo com este tipo de natureza. Dano este que deve ser coagido das mais diversas formas, conforme mencionado.

Adam Smith (1723- 1790), economista e filósofo escocês. Para ele, o indivíduo, movido por seu próprio interesse, era o responsável pela riqueza de uma nação. A tese serviu de base para o individualismo metodológico
Em A riqueza das Nações (1776), Adam Smith é interpretado como defensor irrestrito do individualismo e do liberalismo. No livro, ele explica que em uma economia de mercado, apesar da inexistência de entidade coordenadora, os indivíduos interagem resultando em uma determinada ordem, como se existisse uma "mão invisível" a guiá-los

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