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Filosofia, economia e a crise
Com base no individualismo metodológico de um lado e na teoria marxista de outro, a crise econômica atual pode ser entendida não como uma deficiência do sistema financeiro, mas como um colapso das relações humanas

Por Maria Cristina Longo Dias e Tomas Rotta

Relações sociais

Uma concepção alternativa ou mesmo oposta a este modo de entender a sociedade é a concepção elaborada por Marx. Para este autor, a essência humana não é algo que reside em um único indivíduo. Essa essência se constrói no conjunto das relações sociais7, de maneira dinâmica e histórica. Em outras palavras, não é possível pensar o homem com uma natureza isolada das relações sociais, não é possível interpretar a realidade (com as esferas econômica, moral e política) a partir de considerações sobre a natureza humana, simplesmente porque não há uma natureza humana, o que há é uma construção coletiva do caráter destes indivíduos que ocorre a partir das relações sociais. Tais relações incluem toda a experiência humana que tem como principal componente a esfera das relações de produção, conforme explicitado na passagem de Engels a seguir:

"Segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instância, determina a história é a produção e a reprodução da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda.

"Quando escrita em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade" JOHN KENNEDY

A situação econômica é a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela - as forças políticas da luta de classes e seus resultados, as constituições que, uma vez vencida uma batalha, a classe triunfante redige, etc., as formas jurídicas, e inclusive os reflexos de todas essas lutas reais no cérebro dos que nelas participam, as teorias políticas, jurídicas, filosóficas, as ideias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva a converter-se num sistema de dogmas - também exercem sua influência sobre o curso das lutas históricas e, em muitos casos, determinam sua forma, como fator predominante.

Trata- se de um jogo recíproco de ações e reações entre todos esses fatores, no qual, por meio de toda uma infinita multidão de acasos (isto é, de coisas e acontecimentos cuja conexão interna é tão remota ou tão difícil de demonstrar que podemos considerá-la inexistente ou subestimá-la), acaba sempre por impor-se, como necessidade, o movimento econômico. Se não fosse assim, a aplicação da teoria a uma época histórica qualquer seria mais fácil que resolver uma simples equação do primeiro grau"(Engels, Letter to J. Bloch em 21 de setembro de 1890)8.

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Trabalho como exploração do homem é uma visão recente na história. Para o pensador grego Hesíodo, por exemplo, o trabalho agradava aos deuses, fazia os homens independentes e afamados

Marx chama a atenção para o fato de que não é possível separar as diversas esferas das relações sociais da formação do caráter humano. Para Marx, não se pode supor que o caráter do indivíduo é construído a partir de uma complexidade de relações e ao mesmo tempo reduzir tal caráter ao autointeresse, como sugere Mill, quando se trata de explicar a esfera das relações econômicas. O homem é formado, assim como entendido pelo materialismo, pela complexidade de relações que ele mesmo produz em sociedade.

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Na Fábula das Abelhas, de Mandeville, os vícios de cada abelha acabam contribuindo para a prosperidade econômica - geram competição e avanço tecnológico. Isso ocorre com a sociedade capitalista e individualista, em que cada um persegue seu interesse

A "naturalização" de uma hipotética essência humana, assim como perpetrado pelo individualismo metodológico, é um dos vários mecanismos sociais que servem ao ocultamento da apropriação de um excedente social por aqueles que não a produziram. Nesse ponto, o individualismo metodológico que embasa a teoria neoclássica é um exemplo direto do que Gramsci denominou de hegemonia: a prática político-teórica da classe dominante ou o domínio cultural-ideológico de uma classe e/ou teoria sobre outras. Processo esse que não é explícito, mas sim ocultado por uma gama de mecanismos ideológicos cuja moralidade naturaliza o que é um produto social.

Tendo em vista a impossibilidade de separar a constituição do caráter dos indivíduos das relações sociais em que estão inseridos, ao adotar-se a visão marxista de compreensão da realidade, torna-se imperativo observar o conjunto das relações humanas como uma totalidade que não se dissocia das relações estabelecidas pelas condições materiais de reprodução da vida. Relações de produção estas que são também antidemocráticas, pois sempre hierarquizadas, com processos de tomada de decisão de cima para baixo, dos donos dos meios de produção para aqueles que só possuem sua força de trabalho para vender como meio de subsistir.

O que se constata hoje é que o individualismo metodológico e a operacionalidade ótima dos mercados não significaram mais do que uma crença

Assumindo, portanto, essas duas formas de interpretar a realidade - a marxista e aquela que pressupõe o individualismo metodológico - apresentamos a seguir uma análise de como a crise começou e quais as saídas para solucioná-la.

Seria, em primeiro lugar, a atual crise meramente financeira? Não seria esta uma crise sistêmica, capaz de revelar que não se trata de um problema específico de um setor da economia, mas que se refere a um desarranjo estrutural cuja origem reside na tensão entre apropriadores e produtores de mais-valor?

Segundo dados apresentado por Resnick e Wolff (2006, Cap.17)9, entre os anos de 1920 e 1970 nos EUA, o crescimento dos salários reais acompanharam o respectivo crescimento da produtividade do trabalho. Entretanto, a partir de 1971, tal tendência não mais se verificou: a produtividade continuou a subir, mas os salários reais se estagnaram. Dentre os principais motivos para esta nova dinâmica, destacam-se a revolução digital, o aumento da concorrência internacional (em especial advinda de países asiáticos, como Japão, Coreia do Sul e China) e a inserção de milhões de novos indivíduos no mercado de trabalho, em especial as mulheres e os asiáticos.

O resultado foi o ascendente aumento da participação dos lucros (em detrimento dos salários) na renda nacional. Mas o padrão de felicidade norte-americano, assentado principalmente no consumo, tornara-se um problema para os assalariados, pois a massa salarial não seria mais suficiente para comprar as mercadorias produzidas com a referida crescente produtividade.

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