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Filosofia, economia e a crise
Com base no individualismo metodológico de um lado e na teoria marxista de outro, a crise econômica atual pode ser entendida não como uma deficiência do sistema financeiro, mas como um colapso das relações humanas

Por Maria Cristina Longo Dias e Tomas Rotta

Regular o capitalismo

Duas soluções concomitantes se apresentaram para os trabalhadores: (a) o aumento de horas trabalhadas (que segundo os mesmos autores se refletiu em aumento dos índices de depressão, divórcios, esgotamento físico e suicídio); (b) quando a elevação da jornada não era suficiente para manter as contas em dia, as famílias se endividaram. Do lado dos capitalistas, o cenário seria perfeito: massa de lucros crescentes e uma classe trabalhadora devidamente disciplinada pelo endividamento familiar. Por parte dos capitalistas financeiros, ao perceberem que empréstimos aos trabalhadores poderiam tornar-se uma nova e importante fonte de lucros, a resposta foi o aumento da oferta de crédito para o consumo.

O período 1970-2008 foi, consequentemente, o período em que as famílias mais se endividaram nos EUA para manter o seu desejado padrão de vida10 . De tal forma, os capitalistas ganharam duplamente: o excedente que extraem do trabalho de outros, e adicionalmente os juros que cobram dos empréstimos para o consumo das mercadorias que eles mesmos produzem. Os assalariados hipotecaram suas casas, em alguns casos mais de uma vez, como garantia destes empréstimos. A realização dos lucros dos capitalistas estava, então, completa, e o sistema financeiro passou a efetuar uma série de operações para alavancar ainda mais recursos, vendendo e revendendo hipotecas e alastrando estas operações por todo sistema econômico.

"Sem compreendermos o capitalismo não podemos compreender a sociedade humana da maneira que ela atualmente existe"

BERNARD SHAW

Karl Marx (1818-1883), pensador alemão, fundador da doutrina comunista moderna. Segundo ele, não se pode interpretar a realidade a partir da natureza humana porque tal natureza fixa não existe, ela é produto das relações sociais

A explicação neoclássica da crise, pressupondo uma natureza humana autointeressada e uma harmonia dos ganhos dos agentes na economia de mercado, atribuiria parcialmente (e superficialmente) à violação da concorrência perfeita a culpa pela crise11. Desta forma, a solução neoclássica, que se utiliza do individualismo metodológico para interpretar a realidade, passa por propor medidas de regulamentação dos mercados que visam - ironicamente - garantir a aproximação de um modelo teórico de concorrência perfeita.

Em outras palavras, é necessário conter os agentes que tentam auferir ganhos exorbitantes descolados da "economia real", ou se preferirmos, a partir da óptica neoclássica de compreensão da realidade, seria necessário "moralizar" o capitalismo para refrear este desejo ilimitado de maximizar prazer, utilidade ou ganhos que quando associados ao poder de mercado gerariam danos à harmonia social.

A regulação dos mercados e intervenção estatal nas economias, como por exemplo, a estatização dos bancos, seria uma saída, provisória, proposta pelos liberais12 e neoclássicos. Ou seja, o que se propõe é, em verdade, a socialização das perdas e a regulação estatal provisória. Entretanto, diversas perguntas surgem a partir desta solução proposta pelos liberais, dentre elas: Se a solução para a crise dos anos dourados do capitalismo, isto é, para o "capitalismo keynesiano" de 1944 a 1973, foi a desregulamentação dos mercados, produto típico da era pós-Regan e pós-Tacher, qual o sentido de realizar uma nova regulamentação? Se a desregulamentação foi a solução para a regulação, para que regular outra vez?

Não seria, também, mais razoável interpretar o indivíduo como fruto de uma construção que se dá nas relações sociais, em vez de assumir uma natureza humana estática, autointeressada e a-histórica? Não seria essa crise um fruto de um erro lógico de pressupor que a racionalidade individual automaticamente enseja racionalidade social?

Esta é uma crise que envolve a totalidade das relações humanas e que deve ser superada a partir desta compreensão

O que se constata hoje, até mesmo entre os liberais mais ortodoxos, é que o individualismo metodológico e a operacionalidade ótima dos mercados não significaram mais do que uma crença, ainda que muito bem-disfarçada por todos os tipos de vestimentas científicas. Sendo que tal crise parece justamente ter sido produzida - e não somente explicada - por esta particular e hegemônica visão de mundo.

Assumindo, como afirma Marx, que o caráter humano é construído no jogo das relações sociais, não seria o momento de democratizar estas relações de fato?

Não seria o momento de pensarmos e agirmos em prol de uma sociedade na qual a racionalidade individual seja de fato produtora de uma racionalidade social? O primeiro passo para entender a crise não é, então, pensá-la apenas como uma crise do sistema financeiro. Esta é uma crise, conforme explicitado, que envolve a totalidade lidade das relações humanas e que deve ser superada a partir desta compreensão.

A solução seria um sistema no qual não prevaleça a anarquia da produção levada a cabo por produtores independentes e atomizados. A atual crise sistêmica do capitalismo e do individualismo metodológico torna patente que uma sociedade que produz sem levar em conta os efeitos e custos globais de decisões individuais não pode funcionar sem fortes e frequentes desarranjos. É só dessa forma que a possibilidade de superação desta crise, entendida não apenas como uma crise financeira, mas antes como uma crise em todas as esferas da vida social, pode ocorrer.

Paul Krugman

(1953), economista norteamericano que recebeu o Nobel de Economia em 2008, é colunista do The New York Times. Lembrou em artigo publicado neste ano que há mais de uma década os EUA são uma nação de "emprestadores e gastadores, não de poupadores", o que explica a crise atual

REFERÊNCIAS

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