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Médicos detectam aumento de estrutura cerebral em pacientes com Transtorno do Pânico
Cientistas detectaram pela primeira vez um aumento no volume da insula, uma estrutura cerebral que está diretamente envolvida no processamento das emoções

Agência USP

Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, cientistas detectaram pela primeira vez um aumento no volume da insula, uma estrutura cerebral que fica entre o lobo frontal e temporal, que está diretamente envolvida no processamento das emoções. A descoberta vai permitir avanços nos estudos sobre o funcionamento do cérebro, principalmente de pessoas com Transtorno do Pânico (TA).


Segundo o psiquiatra Ricardo Riyoiti Uchida, que defendeu doutorado sobre o tema no Programa de Saúde Mental, da FMRP, "várias estruturas já haviam sido implicadas no Transtorno do Pânico, mas a insula não havia sido detectada com volume alterado, mas somente com função alterada." Uchida é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

 

Ainda segundo o pesquisador, estudos anteriores de pânico funcional já mostraram que pessoas que têm dor, falta de ar, taquicardia ou sensações gastrintestinais ativam a insula. "Como pacientes com Transtorno do Pânico (TA) sentem e queixam-se de sensações corpóreas muito intensas e desagradáveis durante as crises, sugerimos que a insula aumentada em nossos pacientes os predisponha a perceber mais intensamente o próprio corpo. Aliado a isso, há a diminuição de volume de cíngulo anterior, região muito importante do lobo frontal, também relacionada com ansiedade, percepção corporal e avaliação de risco", afirma.


O psiquiatra relata que existem inúmeras formas de avaliar o cérebro e que o seu objetivo foi examinar o volume de estruturas cerebrais comprovadamente envolvidas em reações de ansiedade que já tinham sido citadas em estudo anteriores com animais, voluntários sadios e em pacientes com TA. A técnica utilizada, morfometria baseada no vóxel, de acordo com Uchida, é nova e capaz de avaliar a maior parte do cérebro de uma só vez, permitindo detectar alterações em várias regiões diferentes.


"Assim determinamos uma rede de estruturas volumetricamente alteradas, todas elas envolvidas diretamente em reações de ansiedade. Como o Transtorno do Pânico é caracterizado pela presença de ansiedade, conseguimos fazer essa correlação e detectar que o cérebro de pessoas com TA, em termos de volume, é diferente em relação ao cérebro daqueles sem o transtorno". Uchida ressalta, entretanto, que todos os estudos anteriores são muito recentes e publicados em curto período de tempo. "Após o meu estudo, outros, muito semelhantes, também foram publicados. Há uma atenção muito grande voltada para este tipo de estudo".


O pesquisador diz que utilidades práticas imediatas para estudos deste tipo são ainda limitadas. "Mas nos últimos anos mudaram vários pontos de vista sobre a doença. Agora já se comprovou que pessoas com TA sentem as coisas de modo diferente. Talvez elas tenham que se esforçar muito mais que qualquer outra pessoa para ignorar alarmes corporais internos e que terão mais dificuldade de racionalizar e assim saber que não irão morrer, enlouquecer ou perder o controle, sintomas presentes durante o ataque de pânico, apesar de sentirem que estão para morrer". Outro fato importante abordado por Uchida é que as pessoas com TA freqüentemente têm vergonha do que sentem. "Muitas vezes vão parar em pronto-socorros e nada é diagnosticado, causando um enorme desconforto. Saber sobre a neurobiologia de seu problema ajuda os portadores com uma possível estigmatização que ele possa sofrer".


Na pesquisa foram avaliadas 39 pessoas, entre pacientes com TA e controles. Os exames de ressonância foram feitos no Hospital das Clínicas da FMRP e a análise no Hospital das Clínicas de São Paulo.


Ciência comprova modelo

O envolvimento de regiões do tronco cerebral em ataques de pânico não era novidade, pelo menos para os professores Frederico Guilherme Graeff, da FMRP e orientador da pesquisa de Uchida, e Bill Deakin, psiquiatra inglês da Universidade de Manchester. Em 1991 eles propuseram um modelo anatômico e neuroquímico para o Transtorno do Pânico. Nesse modelo, a estrutura chave para o ataque de pânico seria a matéria cinzenta periaquedutal dorsal, localizada no tronco cerebral. "Nossos resultados confirmam o envolvimento do tronco cerebral", diz Uchida. Mesmo que a tecnologia atual não seja capaz de dizer qual especificamente a estrutura no tronco esta aumentada, o modelo criado por eles foi capaz de predizer este achado.


Transtorno do Pânico

Segundo dados na literatura médica, Transtorno do Pânico é caracterizado por crises onde a pessoa sente medo de morrer, vontade de fugir de alguma coisa, batedeira no peito, falta de ar, tremores. "Dizem que é a pior coisa que uma pessoa pode sentir. A crise geralmente é de curta duração, somente alguns minutos. Depois de algumas crises a pessoa desenvolve medo de ter a crise novamente, fica muito preocupada em ter um derrame, por exemplo, e começa a ter medo de ir a locais onde já teve a crise", diz Uchida.


Já a ansiedade é descrita como uma reação fisiológica normal, importante para a sobrevivência e adaptação do organismo. "Precisamos sentir ansiedade e assim evitarmos o perigo. Quando muito intensa ou descabida, transforma-se em um problema de saúde. Alguns autores diferenciam medo de ansiedade, mas todas podem trazer sérios prejuízos para as pessoas", alerta o psiquiatra.


A pesquisa Anormalidades regionais de substância cinzenta no Transtorno do Pânico. Um estudo e morfometria baseada no vóxel teve colaboração dos professores Cristina Marta Del-Bem, Francisco Silveira Guimarães. José Alexandre Crippa, David Araújo, Antonio Carlos Santos, da FMRP, e Geraldo Busatto Filho, Fabio Luis Duran, da Faculdade de Medicina da USP na Capital.


Fonte: Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura do Campus Administrativo de Ribeirão Preto


Mais informações: e-mail rruchida@uol.com.br, com Ricardo Riyoiti Uchida

 

 

 

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