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Saúde Mental
Parceria entre o Ministério da Saúde e o Centro de Teatro do Oprimido completa cinco anos
Criado em 2004, o projeto tem como finalidade propiciar uma relação mais humana entre portadores do sofrimento psíquico, seus familiares e os profissionais do SUS

Por Michael Nuñez (Fonte: Centro de Teatro do Oprimido)

A parceria entre o Ministério da Saúde e o Centro de Teatro do Oprimido completa em 2009 cinco anos de existência. Criado em 2004 com a finalidade de propiciar uma relação mais humana entre portadores do sofrimento psíquico, seus familiares e os profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde), o projeto se utiliza das técnicas do Teatro do Oprimido para capacitar os profissionais que trabalham com saúde mental nas unidades do SUS.

 

O Rio de Janeiro foi o primeiro estado a receber o projeto, que a partir de 2008, patrocinado pelo Ministério da Saúde por intermédio do Fundo Nacional de Saúde, passou a chamar-se Teatro do Oprimido na Saúde Mental. Atualmente, o Teatro atua em CAPS (Centros de Atenção Psicossociais) e UBS (Unidades Básicas de Saúde) de três estados-pólos: Sergipe, São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Em cinco anos de trabalho, já foram capacitados mais de 170 profissionais. Espera-se que outros 50 sejam capacitados nos próximos meses nos três pólos.

 

"Entendo essa parceria como um reconhecimento da potencialidade e capacidade de se trabalhar a complexidade de sofrimentos psíquicos a partir de uma metodologia estética, visando a transformação da realidade de usuários, familiares, profissionais da saúde e até da sociedade como um todo, numa perspectiva de direitos humanos", afirma o sociólogo Geo Britto, Curinga do Centro de Teatro do Oprimido.

 

Além de médicos, enfermeiros e psicólogos, o projeto beneficia também os técnicos em enfermagem, seguranças, porteiros, auxiliares de limpeza, cozinheiros, músicos terapeutas, terapeutas ocupacionais e outros profissionais que têm contato com os usuários dos CAPS e UBS e seus familiares.

 

Segundo o teatrólogo Augusto Boal (criador do Teatro do Oprimido e Embaixador Mundial do Teatro pela UNESCO), o que se busca neste trabalho é desenvolver as capacidades estéticas que todos os indivíduos têm, com o objetivo de que eles analisem os problemas do presente, usando a experiência do passado, para inventar o futuro.

 

"Numa sociedade em que se procura excluir o diferente, inventar o futuro é mais do que necessário. Nós temos medo dos diferentes, mas quando a gente se olha no espelho e diz "este sou eu", está dizendo que é diferente. Portanto, diferentes somos todos nós. Por isso, sentimos medo e angústia com a exclusão daqueles diferentes que são tão semelhantes a nós mesmos", afirma Boal.

 

"Trabalhamos sobre a possível superposição entre o delírio patológico e o delírio artístico, e o uso dos ritmos na criação de diálogos e de estruturas sociais. O teatro em geral já é uma forma delirante de arte. Às vezes as pessoas perguntam: "Mas cadê o resultado?". O resultado é que em muitos desses CAPS que a gente trabalha o consumo de drogas (medicação) diminuiu. O teatro não cura, ele tranquiliza e dá mais um pouco de felicidade para as pessoas, para não ficarem tão angustiadas", acrescenta o teatrólogo.

 

 

Um remédio chamado "teatro"

 

Muitas coisas não conseguem ser expressas somente com a palavra, numa conversa ou terapia. Por meio do teatro pode-se usar o corpo, a imagem e o som. A teatralização de um problema, pelas técnicas do Teatro do Oprimido, cria um distanciamento que permite aos participantes (atores e espectadores) observarem o que de fato está acontecendo.

 

Vestindo um figurino, utilizando-se de uma cenografia, música e dramaturgia, o usuário e o profissional da saúde mental, agora atores, protagonistas de suas histórias, podem transmitir o que a simples conversa não é capaz de comunicar. Assim, a possibilidade de transitar entre vários personagens no palco, ora sendo usuário, ora sendo médico, filho, pai ou mãe, permite que eles se vejam de outra maneira e sejam vistos de outra forma também, minimizando o estigma da doença mental e trazendo a questão dos direitos humanos para a sociedade.

 

O coordenador do projeto Teatro do Oprimido na Saúde Mental, sociólogo e, também, Curinga do Centro de Teatro do Oprimido, Geo Britto, afirma que, "é importante considerar a questão do Teatro do Oprimido como possibilidade de uma metodologia artística que proporciona o diálogo. Um exemplo é que atualmente os CAPS (Centros de Atenção Psicossociais) vêm utilizando o Teatro do Oprimido nas suas assembléias (reuniões que reúnem os usuários, seus familiares e profissionais dos CAPS) onde muitas vezes não se conseguia falar coisas que foram ditas e trabalhadas por meio da imagem, do teatro", afirma Britto.

           

O Teatro do Oprimido não apresenta respostas, mas procura fazer as perguntas certas. E uma das principais perguntas que surgem na relação entre usuários, seus familiares e os profissionais da saúde mental é: o que fazer?

 

Por meio do teatro, da encenação de um problema ou conflito, pode-se chegar a um entendimento das condições dos protagonistas. Começa a existir uma nova relação, mais humana, entre usuários e profissionais da saúde mental. Ou seja, o diferente é igual a gente. "Num contexto onde tentam esconder o diferente, o Teatro do Oprimido vem estimulando a sua visibilidade como cidadão e agente transformador de sua própria história. O diferente sobe no palco, conta sua história, vê e é visto por todos sem negar a sua condição de usuário, porém sem se sentir inferior mais semelhante com sua diferença", destaca Cláudia Simone, psicopedagoga e Curinga do Teatro do Oprimido.

 

Dica da redação: na Edição 39 da Revista Psique, que está nas bancas, você pode acompanhar o trabalho de psicólogos que recorrem às artes cênicas para desenvolver e aperfeiçoar suas técnicas de relações pessoais. Boa leitura! 

 

 

 

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