Pesquisa Treinos mais específicos melhoram aprendizagem motora O estudo, realizado entre 2005 e 2008, observou os efeitos de duas diferentes maneiras de treinamento sobre o processo de aprendizagem motora
Agência USP de Notícias
Uma pesquisa realizada no Laboratório de Aprendizagem Sensório-Motora (LAM), do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina (FM) da USP (Universidade de São Paulo) observou os efeitos de duas diferentes maneiras de treinamento sobre o processo de aprendizagem motora em voluntários. Participaram do estudo homens e mulheres com idade entre 20 e 32 anos, todos destros, jovens e saudáveis.
O levantamento foi feito com 20 homens e 20 mulheres, divididos aleatoriamente em dois grupos de treinamento: específico e variado. A tarefa treinada consistia de movimentos seqüenciais dos dedos, em oposição, que foram realizados com a mão dominante. Os movimentos eram registrados por um computador, cuja programação permitia o controle do desempenho dos movimentos de oposição de dedos.
Feedback visual
O treino específico permitiu o feedback (resposta) visual da mão, e o treino variado combinou blocos de treinamento em que o feedback visual da mão era permitido. Houve ainda outros blocos nos quais a resposta visual (feedback) foi distorcida por meio do uso de um jogo de espelhos. Os grupos foram avaliados nas duas condições de treinamento, antes e após realizarem a atividade, o que permitiu verificar a aprendizagem motora entre ambos. "Inicialmente acreditávamos que o grupo que treinou de forma variada obteria os melhores resultados, pelo fato de ter experimentado as duas condições durante a fase de treinamento", pondera a autora do estudo, a fisioterapeuta Carolina de Oliveira Souza. "Surpreendentemente, os resultados mostraram que o grupo que realizou o treino específico apresentou o melhor desempenho, favorecendo a consolidação da aprendizagem motora da tarefa que foi estudada", acrescentou.
De acordo com a fisioterapeuta, as evidências identificadas no estudo reforçam a necessidade de treinamentos mais específicos, ou seja, com menor variabilidade nas fases iniciais do processo de reabilitação, o que possibilitará melhor aprendizagem motora. "Como fisioterapeutas, esperamos que após o treino de uma determinada habilidade, além da melhora do desempenho, seja adquirida a capacidade de realizá-la em diferentes situações, distintas do ambiente terapêutico", esclarece. "Após realizar um treino de locomoção no ambulatório, por exemplo, o paciente deve ser capaz de locomover-se com desempenho similar em ambiente doméstico e/ou externo como a rua, onde as condições ambientais são distintas das treinadas", reforça. "Além disso, esse paciente também deve ser capaz de utilizar a experiência adquirida com o treino da locomoção, para melhorar o desempenho em outras tarefas semelhantes, como subir escadas."
Reabilitação
Carolina explica que a aprendizagem motora é o que fundamenta o processo de reabilitação de pacientes, uma vez que possibilita a mudança do comportamento motor já adquirido, bem como a aquisição de novos comportamentos motores. Atualmente, a pesquisadora é fisioterapeuta do Ambulatório dos Distúrbios do Movimento do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP e membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento.
"Nossos achados estão em concordância com outro conjunto de trabalhos em Neurociências e Comportamento que utilizaram métodos de neuroimagem funcional", informa. "Esses estudos mostraram que quando os voluntários receberam feedback das tentativas corretas houve um avanço mais significativo de sua aprendizagem, inclusive com maior ativação de algumas áreas cerebrais como o córtex pré-frontal medial, córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal dorso-lateral, o que pode funcionar como um reforço para o aprendiz continuar o comportamento motor atual. Em outras palavras, o movimento correto."
A pesquisadora ressalta que há outros campos interdisciplinares promissores para a aplicação de seu trabalho, sobretudo os que envolvem processo de reabilitação como Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e Psicologia e, até mesmo, áreas que utilizam os conceitos da aprendizagem motora para suas intervenções como, por exemplo, Educação Física e Esporte.
Maiores informações: (11) 9251-7071, com Carolina de Oliveira Souza ou e-mail souzaco@usp.br. |