O que é a Abordagem Direta do Inconsciente (ADI), como funciona? No que difere da proposta de Freud?
Aparecida Oliveria, por e-mail
Acredito que para complementar e desmistificar a tentativa de Abordagem Direta do Inconsciente, cabe lembrar e retomar o próprio paradigma da interpretação dos sonhos, de Freud: no centro do inconsciente há um umbigo, um umbigo dos sonhos, um puro ponto de tensões que produz manifestações que chamamos "formações do inconsciente". Freud buscou compreender as propriedades inconscientes através não só dos sonhos, mas também dos lapsos de memória, de escrita, atos falhos, chistes, sintomas, obras de arte e rituais. A diferença é que nos sonhos o funcionamento do inconsciente nos é mais próximo, por disponibilizar material relativo a certa exposição ao mundo dos símbolos. O inconsciente é alógico, ou seja, coisas opostas podem trazer em sua significação um mesmo sentido e atemporal, a ordem dos eventos podem coexistir em vários tempos. O que traz interferência direta no nosso comportamento uma vez que sugere que este é motivado por forças que não estão em nosso controle. Quantas vezes planejamos dizer alguma coisa e falamos outra, ou, acabamos cometendo determinado ato que consideramos até irracional? Aqui nos surpreendemos com algo totalmente diferente do proposto, portanto, um exemplo simples e cotidiano da existência do inconsciente. O inconsciente só se positiva através dos recursos linguageiros, simbólicos, da presença na ausência, ou seja, indiretamente. O caminho que pode nos aproximar do (umbigo do) inconsciente é o da análise dessas produções enigmáticas – o divã. O que nos possibilita formular que o inconsciente nunca é observado diretamente. Se este não é observado diretamente, como é possível sustentar sua existência enquanto instância? Foi através de eventos hipnóticos que Freud compreendeu a importância do inconsciente e seus fenômenos. Por meio da experiência hipnótica pôdese observar que era possível trazer à consciência a lembrança de eventos aos quais não se podia acessar. A pessoa sob hipnose acreditava que o que estavam fazendo era de forma voluntária. Não tinha a percepção que se comportavam sob influência de uma técnica, de uma sugestão. Ao descartar a técnica da hipnose, Freud observou que determinadas memórias e desejos que antes não podiam emergir à consciência, enterrados portanto nos arcabouços psíquicos, advinham à consciência sempre associados a emoções dolorosas. Desta forma formulou-se uma das máximas e pilar da psicanálise em construção: “O homem não é senhor de si mesmo, está sob o domínio de forças as quais desconhece”. Mas, caro leitor, não é porque estamos sujeitos a forças que desconhecemos que não temos que responder por isso. Portanto, cuidado com o que você deseja.
Na edição 17 da Psique, fala-se sobre Witz na seção Literatura no Divã. Teria a ver com um estilo da linguagem? O que Freud introduziu com este conceito?
Edlâine Alves Gouveia , por e-mail
Assim como no sonho, por meio da condensação e do deslocamento, os Witz encenam um jogo produtivo com as palavras. Freud sublinhou o caráter nada ingênuo das transmissões chistosas ou esquizofrênicas que tiram partido da ambigüidade da palavra, na transformação do material latente em elementos manifestos na produção do sonho.
As transmissões chistosas ganharam destaque na obra de Freud O chiste e sua relação com o inconsciente ou Der Witz, publicada em 1905. O texto se divide em três partes: uma analítica, a seguinte sintética e a última, teórica. Segundo Freud, o Witz requer a presença de pelo menos três lugares (o do emissor, o do destinatário e o do receptor) e quando atinge seu objetivo ajuda a suportar os desejos recalcados, fornecendo um novo modo de expressão socialmente aceitável. Para resumir, de fato, o critério do “dispêndio psíquico” é exatamente o riso que, com a autorização de sentido dada pela conjugação dos três elementos, confessa aí uma verdade a calar.
Ainda seria importante agregar que, como experiência, o Witz (relação triádica) se diferencia do cômico (relação dual/emissor-receptor) e do humor, implicando um desconserto do espírito, cuja graça é por vezes mais irônica que derrisória.
Notem que, se aparentemente o Witz, tão associado à piada, como palavra espirituosa, pode despertar suspeitas de falta de seriedade para os desavisados; ele pode não ser apenas isso. Ou seja, é interessante considerar que o que pode estar em jogo é o próprio “rasgo”, “traço” de espírito.
Freud nos fala de um prazer obtido no próprio jogo com as palavras e na liberação do nonsense. Mas a formação do Witz não se estabelece de forma universal, mas particular. O Witz, a cada transmissão, poderá fracassar ou suceder. Trata-se de um dispositivo verbal em marcha.
Como no caso da produção de uma Psicanálise, o que está em jogo é um artifício, um dispositivo que deve ser implementado e manejado a cada caso, no âmbito do particular.
É interessante situarmos que dentre as formações do inconsciente, os Witz resultam ser aqueles que guardam uma lógica e uma estrutura que mais se aproximam do dispositivo psicanalítico, já que é condição para ambos: 1) a lógica significante, ou nos termos de Freud, uma técnica verbal; e 2) a existência do terceiro elemento, ou seja, uma estrutura triádica para se passar algo, seja o signo do Sujeito de Desejo, seja o rasgo de espírito no Witz.
| Colaboraram nas respostas desta edição as psicanalistas Karin de Paula Slemenson e Paula Nei S. Mantovani. |
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