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Evolução
Vergonha na cara
Sensação de inadequação e preocupação com a imagem pública são algumas características de quem se sente vulnerável ao julgamento alheio e teme não corresponder às expectativas do grupo ou as suas próprias

Por Isabella Bertelli Cabral dos Santos

SHUTTERSTOCKAo ouvirmos nossas avós nos dizer "Aquele lá é um sem-vergonha..." já podemos esperar que o que se seguirá é uma série de reprovações e recomendações de cautela com relação ao sujeito. Parece, então, que a vergonha é uma virtude, e ser desavergonhado, algo nada bom. Mas o que diria aquela pessoa que treme só de pensar em falar em público, ou ir a uma festa, até mesmo em procurar emprego ou reclamar seus direitos de consumidor? Com certeza, a vergonha é um peso do qual gostaria de se livrar na primeira oportunidade. E como seria o mundo totalmente privado da vergonha?

Primeiro, é bom definir o que é a vergonha. Essa é uma emoção considerada autoconsciente ou social, porque ela nasce como conseqüência das relações sociais em que as pessoas não apenas interagem como também avaliam e julgam a si mesmas e aos outros. Ela é autoconsciente justamente porque desperta o indivíduo à consciência de si mesmo, e assim permite que regule seu comportamento.

REPRODUÇÃO
Para Darwin, diante de estranhos, o envergonhado cora por preocupação com sua aparência. Entre conhecidos, cora pela preocupação com a conduta moral

Alguns autores, como Lewis, falam que, para sermos capazes de sentir uma emoção social, quatro aquisições cognitivas são necessárias: a capacidade de distinguir normas, regras e objetivos, a capacidade de avaliar os próprios comportamentos em relação a essas normas, regras e objetivos, o desenvolvimento da autoconsciência e a capacidade de focar em si mesmo.

Todas essas habilidades cognitivas parecem estar relacionadas com o desenvolvimento da "teoria da mente". Apesar do nome, não se trata de uma teoria como estamos habituados a ouvir, como uma teoria científica. Trata-se da denominação de uma capacidade tipicamente humana: a de inferir estados mentais dos outros. É um sistema de referências que viabiliza comparações entre nosso mundo interno, subjetivo, e o mundo externo, dos outros, permitindo que possamos nos ver representados na mente do outro.

ESPELHO SOCIAL

Para ficar mais claro, essa é a capacidade que nos permite entender os outros como seres iguais a nós, que pensam também, que têm intenções e que, portanto, têm opiniões, expectativas, e fazem julgamentos sobre as outras pessoas. Assim, é provável que a vergonha surja no momento em que a criança passa a se ver como um ser social e consegue se colocar na perspectiva do outro, que é quando ela desenvolve a sua "teoria da mente". Essa capacidade cognitiva permite uma assimilação de valores e normas sociais e acontece por volta dos três ou quatro anos. Contudo, não há consenso entre os estudiosos sobre a idade em que a vergonha, em si, aparece. Para alguns, traços da vergonha já começam antes do pleno desenvolvimento da teoria da mente.

"A PROVÁVEL FUNÇÃO EVOLUTIVA DAS
EMOÇÕES AUTOCONSCIENTES SERIA O
CUIDADO COM A IMAGEM PÚBLICA"

Teoria da mente

Esta teoria é a denominação para uma capacidade tipicamente humana: a de inferir estados mentais dos outros. É um sistema de referências que viabiliza comparações entre nosso mundo interno, subjetivo, e o mundo externo, dos outros, permitindo que possamos nos ver representados na mente do outro.

De qualquer modo, a partir do momento em que a criança é capaz de sentir a vergonha plena, vivencia um turbilhão de sentimentos típicos. Normalmente, quando acometida por essa emoção, a pessoa julga a si mesma como má, sente- se inferior, culpa a si mesma e possui um aumento da sua autoconsciência. Algumas pesquisas indicam que o envergonhado, em geral, não se sente injustiçado, não possui desejo forte de vingança; tenta fugir da exposição pública, foca seus pensamentos em si mesmo, tenta escapar dos olhares e não possui desejo forte de se desvincular dos sujeitos que presenciaram a sua falta.

A vergonha pode estar relacionada à quebra de regras, ao não respeito às normas e a valores sociais. Tem a ver com o fato de o indivíduo se sentir inadequado. As pessoas querem se sentir atraentes, amadas e desejadas pelos outros. Temos uma grande preocupação com a imagem pública, isto é, com a forma como gostaríamos que os outros nos enxergassem e por isso sentimos vergonha de nós mesmos quando reconhecemos que transgredimos ou que fomos incapazes de cumprir alguma regra ou comportamento considerado atrativo pelos outros. Por isso, ser o centro das atenções pode tão facilmente despertar a vergonha, pois é nessa situação que a pessoa está particularmente vulnerável ao julgamento alheio, e teme não corresponder às expectativas do grupo ou às próprias.

"NOSSO ROSTO, A PARTE MAIS VALORIZADA
E OBSERVADA DO CORPO, QUE TEM A VER COM
BELO OU FEIO, É TAMBÉM A PARTE MAIS AFETADA PELO RUBOR"

Assim, uma pessoa pode sentir vergonha a partir de avaliações internas, de seu autojulgamento, mesmo que ninguém a esteja criticando ou condenando. O indivíduo considera-se alguém não muito bom porque sente que outras pessoas perceberam que ele não possui competência ou que feriu regras, como ele pensou de si mesmo. Ou então ele sente vergonha só de imaginar essa situação, mesmo que ela tenha pouca chance de ocorrer. A vergonha estaria ligada a sentimentos de inferioridade que ocorreriam de duas formas: a partir do julgamento que o indivíduo faz de si próprio e a partir da perda de hierarquia ou status, este último vindo do seu grupo social. A culpa que ele sente de si mesmo pode fazer com que ele tome atitudes reparatórias, tentando consertar algo que fez de errado ou que julgou ter feito.

ADAPTAÇÃO E FUNÇÃO

FOTOS: SHUTTERSTOCK
Alguns gestos típicos da vergonha são mãos na boca, sorriso, corpo encolhido, desvio do olhar, rosto vermelho

E aí está a provável função adaptativa da vergonha. Durante nosso processo evolutivo, a vida social foi tomando crescente importância. Assim, novos mecanismos foram surgindo a partir dos já existentes, para que fosse possível manter o equilíbrio social. E fazem parte desses novos mecanismos as emoções autoconscientes, pois conduzem os indivíduos ao respeito às normas sociais, provocam o automonitoramento em encontros sociais e despertam a chamada ansiedade social que, nesse sentido, não é uma patologia, mas sim a preocupação em apaziguar desentendimentos, formar laços ou temer uma imagem ruim no grupo.

Vale lembrar que determinada característica física ou comportamental é adaptativa quando ela favorece a sobrevivência de um indivíduo, o que, em última análise, o ajudará também a deixar descendentes. Como a maior parte do que somos evoluiu durante o ambiente de adaptação ancestral, extenso período em que nossos antepassados sobreviveram como caçadores coletores, nem todos os comportamentos que herdamos são adaptativos ou funcionais nos dias de hoje.

Quem experimenta emoções autoconscientes, como a vergonha, colhe resultados como automonitoramento, aumento do olhar para si mesmo, autovigilância, aumento de sua autoconsciência e maior cuidado com o seu comportamento social. Portanto, a provável função evolutiva das emoções autoconscientes seria o cuidado com a imagem pública, que influencia o nível de atratividade social, tão importante para a aceitação no grupo e, indiretamente, para o sucesso reprodutivo. Além do mais, em um grupo no qual as pessoas seguem mais as normas há mais coesão, logo, pode haver mais benefício para os indivíduos pertencentes a ele.

A vergonha pode surgir a partir de nossas avaliações internas, de nosso autojulgamento, mesmo que ninguém nos tenha criticado

Outro ponto importante quando se fala em vida social é a comunicação do que se está sentindo para os outros. Daí voltamos àqueles mecanismos que antecederam as emoções autoconscientes. Em primatas não-humanos, como os chimpanzés, é comum uma exibição de gestos de apaziguamento em caso de transgressões. O mais característico é uma exibição silenciosa dos dentes, muito semelhante a um sorriso. Alguns pesquisadores acreditam que a vergonha seja característica unicamente dos humanos, já que demanda a "teoria da mente", cuja existência não foi conclusivamente encontrada em qualquer outra espécie. Mas os gestos de apaziguamento dos chimpanzés nos mostram que provavelmente ali está a vergonha em sua forma incipiente. E apontam também para outro aspecto da vergonha, que é a sua comunicação para os outros.

Alguns gestos típicos da vergonha são mãos na boca, sorriso, corpo encolhido, desvio do olhar, rosto vermelho. Enrubescer ou ficar vermelho é uma das formas mais conspícuas de aparentar vergonha, é "dar bandeira" de que você foi acometido por ela. Será que corar tem algo a ver com a comunicação da vergonha para os outros? Afinal, por que isso acontece?

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