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Infância SEM TRAUMA
Especialista indica caminhos para se livrar da relação entre pais e filhos pautada na agressividade

Por Rose Campos e Fotos Paulo Brasil

Logo na introdução de seu primeiro livro solo, Como Educar Sem Usar a Violência (Summus Editorial, 2007), a psicóloga clínica Dora Lorch deixa clara a casualidade que a fez envolver-se com o tema da violência. Ao mesmo tempo, a propriedade e clareza com que argumenta sobre o assunto vêm não apenas de uma sólida base teórica, que ela deixa entrever pelas referências que surgem em seu texto, mas também do olhar atento que nos alerta para o fato deste tema estar absolutamente entranhado em nosso dia-adia. A violência contra a criança não está apenas longe, em problemáticas instituições feitas para abrigar menores infratores, nem se restringe às frias estatísticas publicadas com certa assiduidade nos jornais. A covardia da violência aplicada contra indefesas crianças e adolescentes está em nossas casas, nas escolas e onde quer que haja esse convívio e tem início a cada vez que um adulto, em seu trato com a criança, demonstra a sua indisponibilidade para perceber as necessidades indica caminhos sem trauma 6 psique ciência&vida dela, ou a inabilidade em interpretar a linguagem infantil, que não se restringe aos códigos verbais. Fica patente também na dificuldade do adulto em se colocar no lugar da criança e quando lhe falta a paciência necessária para traduzir aos infantes as regras que lhes permitiriam começar a entender o universo que os cerca. O adulto também se esquece, muitas vezes, que não basta à criança ouvir o não. É importante, além disso, saber explicar de modo coerente o porquê de cada negativa. Essa paciência Dora dirige ao adulto, na medida em que vai explicando, numa linguagem simples - mas não simplista - e transparente, como entender que nas agruras de lidar com uma criança "difícil" em geral estão envolvidos a raiva, a angústia, a insegurança e outras problemáticas do adulto. Educar sem violência, como propõe a autora, requer entender a criança e, sobretudo, saber enxergar as limitações do adulto. Dora Lorch, que respondeu com exclusividade à seguinte entrevista para a revista Psique, também é mestre em psicologia pela PUC-SP, atende em seu consultório e é diretora da clínica Delfos Previne. Coordena o Projeto Florescer da Fabrica do Futuro e atua como psicóloga na Associação Novas Trilhas e já publicou, ao lado da escritora Ruth Rocha, duas coleções de livros infantis, pela Editora Ática.

Psique - Entre suas várias atividades está a coordenação de um projeto contra a violência doméstica na Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Fábrica do Futuro, no Educandário Dom Duarte. Quando e de que modo começou este trabalho?
Dora Lorch - Eu coordeno este projeto há quatro anos, mas ele começou bem antes, uns seis anos antes. A princípio eu fui convidada para dar uma palestra na creche, que estava ligada à Faculdade de Saúde Pública (da USP). A diretora queria mudar paradigmas e não conseguia. Então, passou a solicitar de mim algumas idéias e viu que o local precisava de um psicólogo. Inicialmente estavam programados apenas oito encontros, nos quais eu falaria sobre a questão da birra, que por sinal foi tema da minha tese de mestrado. A partir daí, eu pude acompanhar o trabalho de alguns dentistas que atuavam na instituição e não conseguia entender como eles não percebiam que sua "técnica de contenção" - que consistia em tentar abrir à força a boca da criança, muitas vezes imobilizandoa completamente - era uma violência. Meu papel passou a ser, então, traduzir a criança para o dentista. Isso fez toda a diferença, pois a leitura que faço da birra infantil, por exemplo, é muito mais da irritação do adulto que do comportamento da criança.

Psique - Seu trabalho incluiu uma avaliação do que ocorreu a partir de suas intervenções?
Dora - Sim. Eu já tinha previsto uma avaliação, que foi feita depois de dois anos de atuação. Também fiz uma seleção dos temas mais interessantes, aqueles que atraíam maior atenção do educador e, além disso, ofereci a eles um certificado de participação. Nessa primeira avaliação eu levei um susto, porque percebi que aquele trabalho acabou mudando a vida das pessoas. Não era possível dar uma receita, mas eu ia norteando as questões e mostrava como era importante ouvir a criança compreender o que estava acontecendo na realidade e, aí sim, escolher a maneira de agir. Se o comportamento da criança era porque ela estava infeliz, então não adiantava colocá-la num canto, de castigo. Aos poucos o jeito daqueles educadores lidarem com as crianças mudou; isso se refletiu no comportamento da criança e o jeito de os pais lidarem com ela, em decorrência disso, também mudou.

"NA RAIVA, O ADULTO NÃO SE DÁ CONTA DO
QUE ESTÁ FAZENDO; TEM ADULTO QUE CHUTA A
CRIANÇA QUANDO ELA CAI NO CHÃO
"

Psique - Todo esse treinamento era dirigido aos educadores. Aos pais também era oferecida alguma orientação?
Dora - Durante esse meu começo no João XXIII (como era chamada a instituição anteriormente) me lembro de uma única criança que foi tirada do colo da mãe, porque estava toda marcada no rosto com ferro de passar, e isso ocorreu dois anos depois da minha atuação. Avaliamos que isso não ocorria durante este período porque sempre que alguma criança apresentava algum comportamento que denunciava algo de estranho, chamávamos a família para uma conversa, muitas vezes dizendo abertamente que os pais não podiam agredir os filhos e discutindo outras maneiras de lidar com o problema da disciplina. Acredito que essa foi a razão de, durante anos, não termos casos graves. E eu posso dizer que faz muito efeito chamar os pais para conversar, se nos dispusermos a uma conversa sem preconceito com eles, sem rotulá-los, e ajudá-los a encontrar outras atitudes para o problema que eles estão enfrentando. Na maioria dos casos de agressão, os pais foram maltratados mais até do que maltratavam os filhos.

Psique - Você afirma, logo no início de seu livro Como Educar Sem Violência, que muitas vezes a violência é praticada contra a criança de modo que o adulto nem sequer se dá conta de estar sendo violento. Isso é muito comum acontecer e de que modo essa realidade pode vir à luz?
Dora - Eu já vi isso muitas vezes. Um dos exemplos mais marcantes foi de uma família que estava no carro. O pai, a mãe e duas filhas estavam envolvidos em uma discussão. Num dado momento o pai virou para trás e bateu muito em uma das filhas. Chegando em casa a filha olhou no espelho e foi mostrar ao pai a marca do que ele havia feito. Ele simplesmente não acreditou que havia sido ele quem tinha feito aquilo e perguntou se outra pessoa tinha batido nela. O que acontece muitas vezes é que, na raiva, o adulto não se dá conta do que está fazendo. Tem adulto que chuta a criança quando ela cai no chão. Não percebe que está chutando seu rim 8 psique ciência&vida e que a criança poderá ter problema para sempre naquele rim. A pessoa simplesmente não se dá conta das conseqüências do que está fazendo. É raro ver um adulto batendo em uma criança por prazer. Em todos os anos que tenho de experiência só vi isso acontecer duas vezes. Há duas coisas que o adulto pode fazer que promovem a mudança. Uma é ele se colocar no lugar da criança e tentar perceber como ela se sente. E a gente percebe que muitas vezes na família onde ocorre a violência contra criança esse tipo de circunstância já vem de um histórico, os adultos também foram crianças que sofreram violência; muitas vezes só conseguimos que o adulto mude seu comportamento quando ele resgata os sentimentos que tinha quando apanhava. A segunda coisa a fazer é mostrar ao adulto alternativas para ele lidar com a situação, pois muitos acham que aquela é a única alternativa. Então, a gente tem que vir com a tradução da criança - ela fez isso por quê? Aconteceu recentemente uma situação assim. Na escola havia duas crianças se batendo agressivamente, a ponto das mães ficarem muito incomodadas com o que estava ocorrendo. Foi difícil separar as crianças e ninguém entendia por que estavam agindo assim. Então, eu fui conversar com uma delas. Descobri que a tropa de choque da polícia havia entrado na favela onde ela mora e atacado os moradores com balas de borracha. O menino ficou muito assustado. Sua agressão contra o colega era na verdade uma reação. Mas a gente nunca vai descobrir esse tipo de coisa se não parar e tentar entender o que está acontecendo com a criança, se não ouvi-la.

Psique - Como a criança agredida costuma se sentir?
Dora - Uma das primeiras reações é a introspecção. A criança não entende por que está sendo agredida. Os pais costumam alegar que é porque ela fez alguma coisa errada. Mas também nesse aspecto é importante se colocar no lugar da criança. Se o marido chegar em casa e o jantar não estiver pronto, é certo a mulher apanhar? Alguns pais batem em seus filhos porque eles não foram bem na escola. Mas o certo aí não seria verificar o que está acontecendo? Talvez ela não tenha entendido a lição. Talvez a melhor alternativa seja fazer a criança estudar mais, mas não bater nela. Uma das conseqüências de tentar educar a criança com violência é que estamos ensinando para esta criança que este é o jeito de resolver as coisas, na base da força. A criança também repete a atitude dos pais como forma de tentar compreender o que está se passando. Afinal, não é comum a criança brincar de imitar o adulto? Ela faz comidinha, acalenta a boneca como um bebê e faz de conta que vai para o trabalho como forma de tentar compreender o que se passa no universo adulto. Se ela recebe violência em casa vai ficar muito atrapalhada. É difícil dizer exatamente como a violência vai repercutir em cada uma, mas é muito comum o adulto violento ser alguém que apanhou em sua própria infância. Em geral, são também pessoas muito inseguras. A vitimização causada pela violência também pode se traduzir de várias maneiras. Uma delas é a manifestação de doenças físicas. Além disso, essa criança se torna um adulto sem autonomia de julgamento. Ela não consegue pensar a regra. São as pessoas que tendem a repetir: "eu apanhei porque eu merecia". E esta era a fala da mãe. Não estou dizendo que em algum momento não seja necessário dar punição, castigo. A punição precisa existir, quando necessário. O que eu discuto é o tipo de punição.

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