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Reflexos do auto-amor em excesso
O narcisismo parece estar em alta nos consultórios. A obsessão pelo padrão ideal de beleza é apenas um dos indícios de que ele está a nossa volta; outro é a manifestação agressiva a fim de reforçar a auto-imagem

Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

Culto ao corpo, obsessão por magreza, consumismo. Práticas correntes na contemporaneidade, mas, ao mesmo tempo, com um pé na Grécia Antiga, mais precisamente no mito de Narciso - filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope - que, fascinado pelo reflexo de sua imagem na lagoa de Eco, permanece em sua margem admirando-se até definhar e morrer, nascendo ali uma bela flor. Se na lenda, o personagem morre por alimentar-se apenas de si mesmo, atualmente muitos continuam pecando pelos exageros e se consomem de suas inquietudes e carências em torno da auto-estima. Para lidar com o problema, uma das saídas é pedir auxílio aos profissionais de saúde mental.

Na opinião de Maria de Fátima Vieira Severiano, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e autora do livro Narcisismo e Publicidade: uma análise psicossocial dos ideais do consumo na contemporaneidade, estas compulsões estão intimamente relacionadas ao comportamento narcisista. “Em todas as atividades voltadas para a busca de um padrão de beleza, há sempre um apelo psicológico, que diz respeito às carências humanas, às fontes de sofrimento humanas estruturais concernentes aos sentimentos de impotência diante da natureza, da decrepitude do corpo e do outro", lembra a professora, recorrendo às idéias de Freud.

COMPRO, LOGO EXISTO

SHUTTERSTOCK
Consumo sem fim: produtos, carregam consigo ilusão de poder, sensualidade, reconhecimento social, segurança

Um dos exemplos mais claros deste apelo psicológico a que Maria de Fátima se refere são as campanhas de publicidade que, segundo a psicóloga, associam a compra do produto à mitigação dessas fontes de sofrimento e incertezas. Para exemplificar seu parecer, a psicóloga cita a infinidade de produtos cosméticos, dietas light e diet, além das complexas cirurgias plásticas que visam retardar os efeitos da velhice. "Essas novas tecnologias buscam auferir poder e onipotência ao homem diante das forças da natureza. Há uma série de objetos e serviços de consumo que são veiculados pela publicidade com o apelo de facilitar a relação com o outro, promovendo aceitação social e reconhecimento", afirma.

Segundo a especialista, ao associar atributos subjetivos ao produto – tais como poder, sensualidade, reconhecimento social, segurança e sentimento de pertença –, a publicidade passa ao consumidor a idéia de que, ao adquiri-lo, ele comprará também esses atributos subjetivos associados ao objeto. Levando esta idéia em consideração, Maria de Fátima se refere à atual lógica do consumo como uma produtora de subjetividades. "O produto não mais é veiculado em seu valor de uso ou funcionalidade, mas preponderantemente em seu valor como signo, no qual são enaltecidos os valores desejáveis que envolvem a mercadoria, e não mais suas propriedades materiais".

A psicóloga ressalta, entretanto, que esta promessa de completude por meio da aquisição de um bem material nunca é cumprida. "Esse perfil ideal apresentado pela mídia é inatingível, pois, de acordo com Freud, o desejo nunca se realiza em sua totalidade. Além disso, a plenitude é inalcançável na medida em que esses objetos são efêmeros, sempre sujeitos a renovações e substituições", lembra.

Narcisismo: do conceito à clínica - Por Sergio Nick

O narcisismo pode ser definido como o amor que se tem a si mesmo. Na Psicanálise, desde Freud, refere-se aos investimentos no próprio Eu (ego) e se opõe aos investimentos nos outros (objetos). Espera-se que todos possam ter um balanço equilibrado de investimentos pulsionais no eu e nos objetos, ensejando assim uma personalidade robusta, capaz de ter uma boa auto-estima e um bom relacionamento com o mundo que o cerca.

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Para Freud, o indivíduo sairia do auto-erotismo por meio da diferença do eu versus não-eu

Ovídio, na terceira parte de Metamorfoses, conta a lenda de Narciso: "Filho do deus Céfiso, protetor do rio Céfiso, e da ninfa Liríope, ele era de uma beleza ímpar, vindo a despertar o amor de muitas ninfas. Eco, ao ver-se repelida por Narciso, implorou à deusa Nêmesis que a vingasse. É então que Narciso, ao ver seu rosto refletido numa poça de água, fica fascinado pela imagem de si próprio, que supõe ser de outro. Paralisado, vê-se impedido de desviar seu olhar daquela imagem maravilhosa. Arrebatado de paixão, ele tenta abraçar essa imagem, que teima em desaparecer diante de seu gesto. Diante da impossibilidade de realizar esse desejo, Narciso acaba por entender que está apaixonado por si próprio. No afã de se separar de si mesmo, empreende uma série de medidas para separar-se de sua própria pessoa, culminando por se ferir até sangrar e morrer. Suas irmãs, desoladas, ao levar seu corpo a uma pira, constatam que ele havia se transformado em uma flor".

Muitos autores psicanalíticos se debruçaram sobre o tema do narcisismo, dentre eles Sigmund Freud, Jacques Lacan, Bela Grunberger, Heinz Kohut, Donald Winnicott, André Green e, entre nós, recentemente, Jurandir Freire Costa.

Freud, nos Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade descreve os invertidos como sujeitos que "tomam a si mesmos como objetos sexuais" e, "partindo do narcisismo, procuram rapazes semelhantes a sua própria pessoa, a quem querem amar tal como sua mãe os amou".

Em Introdução ao Narcisismo, Freud faz uma primeira tentativa de inscrever na sua metapsicologia os achados clínicos de pacientes perversos e psicóticos. Ali, ele desenvolve a Teoria das Pulsões, opondo as pulsões do Ego às pulsões objetais. Para ele, o indivíduo sairia do auto-erotismo (em que a satisfação adviria de si mesmo) por meio da percepção da diferença eu versus não-eu. Ao perceber precocemente que há algo que não está sujeito aos nossos mandos, o indivíduo teria, assim, a primeira percepção de um outro. Dessa percepção, decorre a divisão mental entre Ego e objeto ou, mais propriamente, entre eu e não-eu. Surge a noção de narcisismo, em que as pulsões irão investir no próprio eu, em oposição às que investirão no objeto.

Tal teoria foi muito útil à Psicanálise, servindo para explicar, por exemplo, as melancolias. Nelas, o sujeito enlutado por uma perda importante – além de fazer refluir para o próprio eu as pulsões outrora investidas no objeto perdido – passaria a se identificar com elas, impossibilitando a saída do luto por meio do reinvestimento da libido em novos objetos e da identificação com o objeto morto. Tal elaboração da teoria é fundamental para a compreensão clínica dos chamados estados limites, ou dos pacientes fronteiriços, uma vez que a compreensão do complexo de Édipo não era suficiente para se acercar psicanaliticamente de tais patologias.

A percepção de que tais pacientes sofriam de patologias narcísicas ajudou em muito a aproximação clínica dos pacientes de nossos dias. A divisão do narcisismo em normal e patológico ajuda a entender que o investimento no próprio eu vai permitir ao indivíduo ter uma auto-estima que lhe permita enfrentar os rigores da vida cotidiana. Green descreveu o narcisismo como "o próprio coração do nosso Eu", ou como narcisismo de vida. Nele se ancora toda a força do indivíduo, pois a possibilidade de reconhecer o sujeito como outro, como diferente do si, depende do grau em que cada um é capaz de tolerar a alteridade, isto é, da sua integridade narcísica. Falamos então de um narcisismo patológico quando esse retraimento em direção ao Eu toma as características de alheamento em relação ao outro, bem como da busca de uma fusão com o objeto idealizado. Decorre daí que o indivíduo desiste de buscar a satisfação, investindo muito mais na busca do nada, do não-investimento, da simples redução da tensão intrapsíquica. No dizer de Green, "a aproximação da morte psíquica" ou o narcisismo de morte; em que o neutro substitui o prazer.

A clínica atual

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Hoje, há um deficit na relação mãe-filha, prejudicando a formação de um eu coeso e estável

Foi com Kohut que se deu um passo importantíssimo na compreensão clínica do narcisismo. Ao propor a teoria dos self-objetos, Kohut trouxe à luz a compreensão do tipo de transferência possível de ser analisada nos ditos pacientes narcísicos. Para ele, esses pacientes tratavam o analista como parte de si mesmos, e era como tal que deviam ser analisados. Ao compreender e aceitar que o analista era visto e experimentado como parte do analisando, foi aberta uma porta para uma futura relação objetal ao fim do processo de análise da transferência narcísica. A compreensão da fúria narcísica, fenômeno em que o paciente busca se livrar da dor decorrente da ferida narcísica extravasando maciçamente seu ódio em direção a qualquer um que encontre pela frente, deu aos analistas uma importante ferramenta para lidar com a transferência negativa, permitindo que esses pacientes continuassem em análise até que seu narcisismo fosse compreendido e elaborado.

Esses desenvolvimentos da técnica psicanalítica vieram bem a calhar, uma vez que estávamos, àquela época, enfrentando o despertar daquilo que Lasch descreveu como a Cultura do Narcisismo. Sem querer entrar na análise do texto de Lasch, devemos destacar que ainda hoje nos vemos às voltas com o problema, uma vez que, conforme descreve Jurandir Freire, vivemos a era do espetáculo, na qual a imagem parece importar mais do que a pessoa. Esta cultura imagética tem forte influência na formação da personalidade dos nossos tempos, uma vez que a ela se acrescem questões próprias do capitalismo avançado: a compressão do espaço-tempo, a cultura do descartável, e a fluidez das relações interpessoais (Bauman).

O enorme manancial de relatos advindos da técnica da observação da relação mãe-bebê trouxe à luz importantes contribuições à compreensão do narcisismo, uma vez que é no início da vida que se dá o processo de inundação narcísica do sujeito. No dizer de Lebovici, os pais transferem para os filhos o seu narcisismo primário abandonado, o que foi traduzido pela sabedoria popular como "Sua Majestade, o Bebê", ou, explicitando um pouco mais, a intensa paixão amorosa transferida para os fi- lhos – fundamental para a constituição de um sujeito com boa auto-estima. Hoje temos mães sem tempo para ficar com seus filhos; ou, para ser mais claros, entendemos que as relações fluidas de Bauman se estendem à própria relação das mães com seus bebês. Como conseqüência, encontramos um crescente deficit relacional justamente onde isso é capital para a formação de um eu coeso, estável e contínuo ao longo da vida. Tal estado de coisas enseja a formação de sujeitos com importantes deficits narcísicos e, portanto, prontos para buscar as compensações próprias da contemporaneidade: uma imagem que reflita a grandiosidade perdida do Eu. Daí, temos a prevalência do Ter sobre o Ser, próprio da sociedade consumista.

Na clínica, encontramos pacientes que se queixam de um vazio interior, vorazes na busca de quem os ouça e lhes dê a importância e a atenção inencontrável nas relações cotidianas. Ao sintoma das histéricas de Freud, correspondem hoje os sintomas próprios das desordens narcísicas: sintomas psicossomáticos, distúrbios da auto-imagem e da auto-estima, falta de coesão do Eu, dentre outros.

Sérgio Nick é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) e Associação Brasileira de Psicanálise (ABP)

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