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Otimismo x Pessimismo
Especialistas discutem até que ponto uma visão positiva acerca das adversidades ajuda a ter mais êxito no trabalho, nos relacionamentos e na saúde e se há conseqüências reais para pensamentos pessimistas

Agência Notisa de Jornalismo Científico

SHUTTERSTOCK

Quando atuava na peça O rei e eu, o ator norte-americano Yul Brynner descobriu que tinha câncer, mas sua paixão pelo teatro fez com que continuasse a desempenhar o papel por várias temporadas e que a doença regredisse. Aos chegar à casa dos 60, Walt Disney comprou terrenos pantanosos na Flórida para construir parques de diversão – idéia que não foi apoiada pela esposa e pelo irmão. Tempos depois, o lugar passou a sediar a Disney World, uma das maiores áreas de entretenimento do mundo. Até 8 anos de idade, Attilio Fontana não tinha dinheiro nem para comprar sapatos e vendia bolachas caseiras para ajudar a família a quitar as despesas. Hoje, o fundador da Sadia, cita “não esmorecer para não desmerecer” como uma das frases favoritas e diz ser necessário acreditar que projetos venham a dar certo para que eles possam, de fato, deslanchar.

O que estes três homens com histórias e realidades de vida tão diferentes têm em comum? Todos são apontados como exemplos a serem seguidos por Ômar Souki, Ph.D. em Comunicação pela Universidade de Ohio (EUA) e autor de 13 livros que enfatizam a contribuição de uma atitude positiva para a obtenção de maior êxito profissional, entre eles A solução otimista e Otimismo nos negócios. De acordo com o professor de Marketing da Universidade Federal de Minas Gerais, pessoas otimistas tendem a ser mais exitosas que as pessimistas no campo profissional por perceberem os obstáculos como situações passageiras. “A expectativa positiva com relação à vida faz com que elas tenham mais sonhos e realizações que as pessimistas”, afirma.

Oliver Zancul Prado, mestre em Psicologia do campus de Araraquara da Universidade Paulista, também acredita que os otimistas tenham mais chances de conseguirem bons resultados no âmbito profissional e nas relações interpessoais de uma forma geral. Para ele, isto ocorre justamente por aqueles acreditarem em soluções, terem o costume de tirar lições de fracassos e serem persistentes. “Essas pessoas aumentam as chances de conseguirem o que querem. O mesmo vale para os pessimistas: por não acreditarem em soluções, arriscam menos e, por isso, têm menos chances de alcançar o resultado desejado”, opina.

E os otimistas “largam na frente” não apenas nos modelos do ramo empresarial. No campo das ciências médicas, podem ser encontrados vários trabalhos acadêmicos que destacam a contribuição de um comportamento otimista para o resultado do tratamento de patologias diversas, entre eles o artigo O papel do otimismo/pessimismo na qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes de hepatite C crônica, publicado no Journal of Clinical Psichology In Medical Settings, em 2003. Nele, os pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Michigan, Cheryl  Moyer, Robert  Fontana, Khozema Hussain, Anna Lok e Steven Schwartz relatam observação feita com 123 pacientes de ambulatório, entre eles homens e mulheres de diferentes raças, entre 15 e 17 anos.

O principal objetivo do estudo foi verificar a existência de uma ligação significativa entre otimismo/pessimismo, qualidade de vida relacionada à saúde (HRQOL) e status emocional. Para isso, os pesquisadores aplicaram um questionário sobre fatores que podem influenciar a estimativa de qualidade de vida, assim como predisposições cognitivas como otimismo e pessimismo. Os participantes foram divididos em três categorias: otimistas, realistas, e pessimistas.

"A VISÃO OTIMISTA DEVE VIR
ACOMPANHADA DE UMA POSTURA
PARTICIPATIVA POR PARTE DO
DOENTE PARA QUE SURTA RESULTADO"

Analisando os dados, os pesquisadores constataram que os pessimistas tinham histórico de doenças psiquiátricas e reportaram status de saúde mais pobre e níveis de sofrimento mais elevados que os otimistas e realistas. Também notaram que o abuso de substâncias e a aquisição de doenças mais severas de fígado, de qualquer forma, não foram determinantes em um comportamento pessimista. Entretanto, concluíram que “otimismo/pessimismo pode ser um importante determinante de qualidade de vida de status emocional em pacientes de hepatite C crônica”.

REPRODUÇÃO
Aos 60 anos Walt Disney viu em terrenos pantanosos a possibilidade de criar um mundo mágico

Mais resultados favoráveis ao otimismo foram revelados no estudo Qualidade de vida em pacientes com câncer: o papel do otimismo, da falta de esperança e do apoio do parceiro, publicado na Quality of Life Research, 2006, realizado por Mila Gustavsson-Lilius e Juhani Julkunen, da Universidade de Helsinki e por Päivi Hietanen, da Universidade do Hospital Central, ambas na Finlândia. Os pesquisadores distribuíram questionários para 155 doentes na ocasião do diagnóstico, dois meses depois deste dia e, em seguida, após um intervalo de seis meses. Os dados coletados indicaram significativas diferenças de gênero na relação entre as variáveis do estudo. Altos níveis de apoio do parceiro foram relacionados com avaliação otimista das pacientes femininas, que também relataram melhora de qualidade de vida. Já para os homens, a diminuição da falta de esperança foi a variável-chave para obter melhoras. Segundo o estudo, “o apoio e o otimismo (ou não) do parceiro e a falta (ou a presença) de esperança pareceram ser importantes determinantes em qualidade de vida ligada à saúde em pacientes com câncer”.

A idéia de que o otimismo pode realmente contribuir para resultados mais favoráveis no tratamento de pacientes com doenças crônicas é também defendida por Maria da Conceição da Costa Moreira, chefe da Seção de Psicologia da unidade HC1 do Instituto Nacional do Câncer (Inca). De acordo com ela, a atitude positiva funciona como motivação extra no combate à patologia e é incentivada a todo o momento pelos profissionais de saúde mental. “Fazemos com que os pacientes se lembrem de situações em que vibraram com conquistas para que possam resgatar o otimismo. Ressaltamos a importância de todos lutarem contra os sintomas para que o tratamento dê certo e tenham mais qualidade de vida, inclusive os que não têm possibilidade de cura pela cirurgia, radioterapia ou quimioterapia”, relata.

No entanto, a profissional de saúde mental enfatiza que esta visão otimista de mundo deve vir acompanhada de uma postura participativa por parte do doente para que os resultados tenham êxito. “Mostramos a ele que ser otimista não é apenas ter fé e transferir para Deus a cura. Este desejo também tem que partir do paciente. É necessário que ele faça os exames solicitados pelos médicos, utilize as medicações de forma adequada e compareça às consultas”, diz.

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