FAMÍLIA Quem morreu? Como é morrer? Crianças tentam compreender e elaborar a morte, questionando familiares com perguntas difíceis de responder, mas é preciso dar atenção e informações reais sobre o luto
Por Kátia Regina Beal Rodrigues

| Kátia Regina Beal Rodrigues é psicóloga clínica, especializanda em Práticas Docentes e Gestão na Educação e professora de Psicologia Aplicada. Contato: katiabeal@globo.com |
No âmbito familiar, uma dificuldade grande para os pais está exatamente na necessidade que a criança tem de fazer perguntas muitas vezes complexas. Colocam questões profundas sobre o ser humano, sobre a vida e sobre a morte.
Quando alguém da família de uma criança morre, ainda que se tente omitir ou negar, ela irá perceber por meio das atitudes transformadas dos familiares ao redor. O fato é que cedo ou tarde ela descobrirá. Omitir-lhe a verdade seria algo grave, seria como ignorá-la só porque ela não fala como os adultos, como excluí-la da família, e pior ainda, se as pessoas mais próximas em que ela deposita toda sua confiança não forem capazes de falar sinceramente sobre a morte, ela tomará isso como um modelo a seguir e nem ousará perguntar a respeito daquilo que sua percepção lhe diz.
O que o adulto não sabe, é que as crianças questionam sem angústia a respeito da morte até cerca de sete anos. Por volta dos três anos de idade esta questão começa a aparecer. Existem animais que morrem em torno delas, elas ouvem histórias, conversas, o conceito de que as coisas acabam, e que os limites existem, já estão estabelecidos desde muito cedo.
A EXPERIÊNCIA DA PERDA
A morte pertence à condição humana. A morte da pessoa amada é não apenas uma perda, como também a aproximação da própria morte, uma ameaça. O significado da morte é pessoal e internalizado, evocando as vulnerabilidades pessoais a ela associadas.
Além do desajustamento social, os sentimentos que acompanham a morte são intensos e multifacetados, afetando emoções, corpos e vidas por um longo período de tempo.
Segundo Bromberg (2000) do ponto de vista individual, as tentativas de domínio da morte, ou seja, de negação da mortalidade, muitas vezes encontram apoio em crenças religiosas que retratam a morte como uma passagem, um estado transitório e não a cessação da vida. Esta última concepção provoca o surgimento de fortes defesas, uma vez que sem elas seria impossível imaginar qualquer espécie de futuro.
Segundo KÜBLER-ROSS (1998), há uma reação emocional das pessoas frente à possibilidade da morte, distribuída em cinco estágios distintos. As pessoas não esperam necessariamente a chegada da fase final de sua doença para manifestar suas emoções. A possibilidade da morte é suficiente para provocarlhes tais emoções. Também não é regra que todos passem pelos cinco estágios, ou podem passar, porém reagindo de forma singular. Mas de qualquer forma, há um processo psicológico envolvido no processo de adoecer, e segundo a autora referida pode ser reconhecido (veja quadro Os 5 estágios emocionais causados pela morte).
| 5 estágios da morte* |
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Negação: ajuda a aliviar o impacto da notícia, servindo como uma defesa necessária a seu equilíbrio, geralmente em pacientes informados abruptamente e prematuramente. O médico deve respeitar, porém ter o cuidado de não estimular, compactuar ou reforçar a negação. |
Raiva: manifesta-se quando o paciente já assimilou seu diagnóstico e prognóstico, mas se revolta por ter sido escolhido, tenta arranjar um culpado por sua condenação, geralmente se mostra muito queixoso e exigente, procurando ter certeza de não estar sendo esquecido, reclamando atenção, talvez como último brado. |
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Negociação: há a tentativa de negociar o prazo de sua morte, por meio de promessas e orações. A pessoa já aceita o fato, mas tenta adiá-lo. Deve-se respeitar e ajudar o paciente. |
Depressão: o paciente aceita o fim próximo, fazendo uma revisão da vida, mostrando-se quieto e pensativo. É um instrumento na preparação da perda iminente, facilitando o estado de aceitação. Neste momento, as pessoas que o acompanham devem procurar ficar próximas e em silêncio. |
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Aceitação: a pessoa espera a evolução natural de sua doença. Poderá ter alguma esperança de sobreviver, mas não há angústia e sim paz e tranqüilidade. Procura terminar o que deixou pela metade, fazer suas despedidas e se preparar para morrer. |
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