Em busca do próprio vôo Deixar de ser criança e passar para a idade adulta acarreta um turbilhão químico e emocional no qual o jovem procura criar uma visão autêntica de mundo e pilotar a própria vida
Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

Exemplos e apoio são, na maioria das vezes, boas escolhas para moldar um comportamento adolescente feliz. Sel- ma Correia, psicóloga e psicanalista do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa) da Universidade do Estado do Rio de Ja- neiro (Uerj), afirma que o psiquismo é regido por regras, de forma que o homem vai, ao longo do tempo, introjetando a lei. Esse processo começa na infância e dá-se por meio da referência. Se- gundo Selma, essa referência pode ser os pais ou, por exemplo, uma instituição, caso a criança seja criada em abrigo. Na verdade, a representação vai ser obtida a partir do responsável que cuida dela. “A criança quando pequena quer mexer na tomada, ir à janela; os responsáveis é que dizem o que pode e o que não pode ser feito. Nós não podemos realizar tudo o que desejamos, a socie- dade é regida por normas e desde sempre estamos atrelados ao sim e ao não”, diz Selma.
Essa relação, estabelecida entre os pais e a criança desde muito cedo, é determinante no de- senvolvimento futuro do adulto. Pesquisas realiza- das sobre os cuidados dispensados pelos pais a seus filhos mostram que tanto a permissividade quanto o autoritarismo são perniciosos nesse contexto. Em artigo que ainda aguarda publicação no periódico Journal of Adolescence, estudiosos australianos exa- minaram os efeitos de tais cuidados sobre a saúde mental de adolescentes e concluíram que há uma associação significativa entre saúde mental pobre e cuidado parental inadequado, nos casos em que a criança relata pouco cuidado por parte dos pais e/ou um excessivo controle a partir deles.
De acordo com Rigby, Slee e Martin, autores do estudo, pesquisas anteriores já haviam iden- tificado duas dimensões de particular relevância nesse contexto, relacionadas aos vínculos estabe- lecidos entre pais e filho. “Tem-se, em primeiro lugar, o cuidado parental refletido na afetividade, empatia e intimidade emocionais, em oposição à frieza, indiferença e negligência. E, em segundo lugar, o controle parental, demonstrado quando os pais são super-intrusivos, controladores e fa- zem contatos excessivos, conseqüentemente infantilizando a criança e impedindo o desenvolvi- mento da independência e da autonomia.”
Após avaliarem 1.216 crianças, entre 12 e 16 anos de idade, os pesquisadores concluíram, ainda, que crianças que não vivenciaram rela- ções mais íntimas, sem que haja confiança entre pais e filhos, têm maior probabilidade de apre- sentar baixos níveis de segurança e auto-estima, o que pode levar a estados difusos de ansiedade e depressão futuramente. E o autoritarismo, por sua vez, pode exacerbar estas condições.
| Médico de adolescente |
A Hebiatria é a especialidade voltada àqueles que não são mais crianças. Começou a ganhar corpo na década de 50 nos Estados Uni- dos e na Europa. No Brasil, existe desde 1974 no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência é o período entre os 10 e 20 anos de idade. Seu nome faz refere- rência à deusa grega da juventude Hebe: filha de Zeus e Hera. Etimologicamente a palavra Hebiatra é formada pelo antepositivo Heb+ o pospositivo iatra. Heb(e), do grego – hêbé,és – juven- tude, adolescência; vigor da mocidade e iatra, do grego – iatrós, oû – ‘médico’, com interferência do francês –iatre. |
Conflitos de Geração
O conflito entre pais e filhos, nessa fase da vida, no entanto, não deve ser visto neces- sariamente como um problema. Na opinião do médico José Augusto Messias, professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj e diretor do Nesa, muito mais do que um conflito, o que existe é um desenvolvimento conjunto do adulto e da criança para que essa criança, ao virar um adulto, consiga atuar da maneira mais eficaz possível naquele contexto em que ela vive. Para ele, esta relação vai muito além de uma disputa de autoridade e acaba reapresentando “uma tensão, tanto da criança púbere, que- rendo a independência, uma vida autônoma, quanto da família”. O médico entende a fa- mília como basicamente pai e mãe, família nuclear, ou aquele grupo que cria a criança no período de transformação para a adoles- cência, tendo a necessidade de proteger, de cuidar, e que mostra medo de soltar o adoles- cente, expondo-o a riscos desnecessários.
Ele afirma, ainda, que muitos problemas são conseqüências dessa relação de gerações. Problemas que se encontram em extremos, como a violência e os transtornos alimenta- res, freqüentes na mídia, também têm bases nos conflitos de geração. “No fundo essa tensão vai estar entre a lógica da autonomia, e não da independência, pois a gente nunca fica independente das nossas circunstâncias e a maior circunstância que temos é a famí- lia ou seu substituto. Isso é uma perda e, às vezes, é difícil para adultos terem essa noção com muita clareza, de que para fazer apren- der é preciso libertar”, defende.
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