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Conhece-te a ti mesmo
O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção, abastecido de crises existenciais, mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável

Por Renato Dias Martino

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Na busca por instrumentos que nos possam auxiliar na tarefa de pensarmos o conteúdo psíquico, faces da alma, ou qualquer nome que possamos criar para os aspectos da personalidade (aquilo que transcende o corpo físico), cogitaremos sobre algo dinâmico, algo que se forma como processo e nunca como produto. Sugiro até uma analogia com algo fluido e corrente, como a água que corre num rio. Apesar de tendermos a pensar a personalidade como algo estático ou um produto pronto, ou acabado, e a criticar veementemente qualquer possível falha, não nos esqueçamos que se trata de algo vivo e, portanto, só estará concluído na morte (e ainda assim viverá nas impressões que deixará no mundo). Perceba que, por mais fiel que possa ser o retrato de um rio, ele nunca mais será aquele que fora retratado anteriormente. Os conteúdos psíquicos estão, e é bom que estejam, em constante movimento. Sob o olhar psicanalítico podemos pensar em impulsos internos, em suas tentativas de encontrar no mundo externo o que possa representá- los. Cada experiência que permita o vínculo de um impulso interno (psíquico) com um objeto do mundo externo como representante é, para o eu, um tijolo em sua construção, um passo na busca pela maturidade. Assim, no encontro impulso interno/ representante externo dá-se à capacitação do Ego, ou em outras palavras, o desenvolvimento do que poderíamos chamar de órgão emocional. Assim como no corpo é função do fígado certa tarefa no funcionamento biológico, na alma é função do Ego organizar o que se sente, transformá-lo em pensamento e, finalmente, em palavras comunicáveis ao outro. Essa capacidade do Ego progride conforme a qualidade do vínculo que se pode ter com o real, a realidade ou a verdade sobre o que se vive.

Porém, o desenvolvimento de um processo implica sofrimento. A própria expressão da fala coloquial nos orienta quando diz: “sofrer o processo”. Penso que todo e qualquer movimento de expansão implica em crise e é, em si, uma fase no processo de crescimento da alma, ou qualquer que seja o objeto de observação e estudo. O sofrimento estará presente, mesmo que em uma pequena dimensão, tanto naquele (ou naquilo) que busca crescer, como naquele que impede o desenvolvimento.

Ser ou não ser
ReproduçãoEis a questão; se é mais nobre ao espírito suportar as pedradas da sorte ultrajante ou se opor a um mar de percalços e vencê-los, continuaria Shakespeare. Em outras palavras, ou nos conformarmos com o que somos e/ou temos, ou enfrentamos as diversidades conscientemente. Mas, diante de uma ou outra opção enfrentaremos o mar de percalços, isto é pagaremos “seu preço”, o preço da crise existencial de ter que escolher as conseqüências da decisão tomada.

Somos dotados de uma parte da alma chamada identidade (iden-entidade). Idem, que sugere algo que é sempre igual, ou numa visão mais ampla, aquilo que é como o outro, e entidade, como figuração de algo vivo, algo que existe. Esse é o lugar de nossa origem, da nossa herança e mais profundamente daquilo ao qual o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), chamou de inconsciente coletivo, o conjunto de arquétipos que nos liga a toda humanidade. É nossa essência, o que realmente somos, aquilo que podemos evitar, mas não podemos fugir - ou seja, aquilo que explicaria nossa existência. O pensamento que nos antecedeu e que nos tornou pensador.

Se tomarmos esse vértice, podemos pensar a crise existencial como o resultado de conflito entre o que sou e aquilo que gostaria de ser. É como se nosso ‘si mesmo’ se sentisse ameaçado de abandono por não ser bom o bastante. O reconhecimento de partes de nossa identidade é sempre um desequilíbrio do eu, e é em si o processo doloroso da expansão da alma. Existe sempre um medo implícito no processo do desenvolvimento, algo que surgirá, como no primeiro vôo de um pássaro, a liberdade e a insegurança. A dor gerada pelo confronto entre o narcisismo (Freud, 1914) e nossa real capacidade. Nunca somos exatamente o que imaginamos, ou queríamos ser, e isso é o que nos faz lutar pra melhorar. Quanto mais se amplia a visão da alma, maior será a sua capacidade de expandir-se no mundo.

A tarefa de reconhecer-se é, antes de tudo, uma tarefa de tornar-se consciente de nossa própria ignorância

Contudo, todo momento de crise é também caracterizado por uma bifurcação das escolhas. Nesse trecho o caminho abre-se em dois. Um lado é especialmente atrativo por sua acessibilidade, porém se apresenta como círculo e volta sempre no mesmo ponto; o outro lado é sempre mais difícil e sem dúvida menos atrativo, pois exige paciência. Nesse caminho existe uma ponte após a qual nunca mais somos os mesmos. Uma vez cruzada a ponte da maturidade da alma, não mais se retorna. Como coloca o poeta chileno Pablo Neruda em Adioses: “Quem volta jamais partiu”. Para que possamos reconhecer- nos a nós mesmos, ou aquilo que podemos chamar de substância do existir, é necessário um movimento de regressão. Um caminho de volta, porém agora, percorrendo-o em busca de responsabilizar- se pelo cuidado da própria vida, e aí sim não tem volta. Penso em uma seqüência de experiências que nos convida a aproveitar como aprendizado. Nessa direção reconhecemos cada falta existente no eu e iniciamos um trabalho de capacitação para viver com elas.

Mas não é sempre assim, podemos aproveitar a crise para crescermos, ou como um motivo para alimentar uma possível crença de destino para o fracasso. Nesse segundo modelo, no lugar da maturidade do eu, o que se dá é uma fixação regressiva, é como se caminhássemos com a cabeça voltada para trás, fixados num ponto do passado. Reconhecemos o ‘si mesmo’, porém não conseguimos nos responsabilizar por ele, assim, responsabilizamos o outro pelo fracasso do eu.

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