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Transcender é preciso
A Psicologia Transpessoal busca soluções e perspectivas para o mundo atual e integra razão, emoção, sensação e intuição

Por Vera Saldanha Colaborou Mônica Serrano

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Desde que a Psicologia tornou-se uma disciplina separada da Filosofia e adquiriu o status de Ciência no final do século XIX, buscou estabelecer um conjunto de princípios que compreendesse o ser humano e pudesse favorecer seu processo de desenvolvimento, cura e aprendizagem. Foram criadas distintas escolas e de acordo com sua visão antropológica e visão de mundo, desenvolveram diferentes recursos de atuação na área clínica e na educação.

Na década de cinqüenta, Abraham Harold Maslow, psicólogo já então catedrático, pesquisador e docente em universidades dos Estados Unidos, Canadá e México, ampliou o horizonte da Psicologia trazendo questionamentos a respeito de quão pouco a Psicologia de sua época havia contribuído para questões tão dolorosas da guerra e do sofrimento humano.

Declarou que até então Freud havia feito um excelente trabalho sobre o lado doente do ser humano, mas que deveríamos também conhecer quem é o ser humano saudável, sua natureza, seu desenvolvimento, para que realmente pudéssemos contribuir para uma sociedade melhor. Denunciava sua inquietação em relação à cisão entre ciências e valores, por exemplo, sobre as perspectivas eufóricas que eram anunciadas para o ano 2000, enfatizando somente o avanço tecnológico. Lembrava que recursos mais poderosos nas mãos de pessoas estúpidas iriam gerar um mal maior e uma destruição ainda pior. Afirmava que a Ciência sem valores não é amoral, mas imoral. Suas apreensões refletem o momento atual em que precisamos de seres humano melhores, precisamos de uma sociedade melhor, ou corremos o risco de viver constantemente sob tensão, angústia, com ameaça de extinção da própria espécie e do planeta Terra.

Vidas Passadas

FOtOs: shuttERstOckA chamada Terapia de Vida Passada, em sua grande maioria, não considera aspectos psicológicos do desenvolvimento da personalidade. Tem um modelo para- digmático mais me- canicista, de causa e efeito diretos: um individuo é inseguro porque certa vez alguém lhe disse que ele era totalmente incompetente; se ele tem uma cefaléia, é porque em uma suposta vida passada foi guilhotinado. São relações de causa e efeito. ignoram-se os aspectos sistêmicos, as interações múltiplas entre o sujeito e os objetos, bem como as inúmeras possibilidades e situações em que o sintoma foi se estruturando e as situações temáticas repetitivas na vida do individuo. Em muitos casos, o paciente continua apresentando os mesmos sintomas, mas agora ele “justifica” “o porquê” de ter tal comportamento, sem contribuir para a libertação e evolução do individuo. Apenas o torna prisioneiro de seus sintomas e neuroses.

Ampliando o legado dos mecanismos de defesa freudiano, acrescentou a dessacralização, a perda do sentido do sagrado, a banalização do cotidiano, da sexualidade e da própria violência. Outro mecanismo de defesa identificado por ele foi o complexo de Jonas, a recusa a ouvir a própria voz interior, nossa essência mais genuína; a perda da própria subjetividade, a perda de si mesmo por medo do ostracismo, gerando uma Normose coletiva, ou seja, atitudes totalmente doentias, insanas, mas que pela alta incidência generalizam-se como sendo normais.

Seus estudos no contexto antropológico, psíquico e social levaram-no também a pesquisar sobre o que denominou de experiências culminantes e experiências platô, enfatizando que tais experiências remetem-nos a estados mais elevados da consciência, promovendo o autoconhecimento com maior profundidade, bem como a emergência de valores positivos e de uma ética natural saudável.

Simbolicamente, o ser inicia seu desenvolvimento na morte intra-uterina

Atribuía à transcendência os aspectos mais elevados do ser, os quais se dão na relação intrapessoal, interpessoal e mais além. São dimensões inclusivas na natureza humana, representam o processo de individuação e da cognição do ser e não de auto-aniquilação da individualidade ou de separação entre psique e espiritualidade.

Deixava claro que a dimensão espiritual é parte de nossa biologia subjetiva, que corpo sem espírito é cadáver e espírito sem corpo pode ser anjo, fantasma ou qualquer outra atribuição que se queira dar.

O ser plenamente humano necessariamente envolve corpo e espírito. Para ele, sem a dimen- são espiritual o ser humano torna-se violento, niilista, apático ou vazio de esperança. Neste sentido, criticava tanto a Ciência positivista quanto as religiões, pois estas haviam descarac- terizado esta unidade (corpo-espírito), a Ciên- cia focando só a matéria, a religião, só o espírito. Trouxe à Psicologia uma nova visão que reconhece a espiritualidade e a necessidade de transcendência, legitimando experiências que até então eram deixadas de lado, ou pior, às ve- zes consideradas patológicas ou superstição.

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