Frustrando expectativas Com a rotina, parceiros vêem que se perderam em suas projeções sobre o outro e acabam comprometendo a relação
Por Eduardo Renso Zimiani

Na sociedade atual, existe uma crescente demanda dentro dos consultórios de atendimento psicológico acerca do tema: “Meu casamento está em ruínas” ou ainda “Amo meu companheiro (a), mas não agüento mais ele (a)”. Estas questões revelam um triste quadro sobre as dúvidas freqüentes acerca de continuar casado ou optar por um divórcio (talvez forçá-lo). Neste momento, o leitor deve estar se perguntando algo como: “Mas o casamento não é uma possibilidade de felicidade dentro daquilo que nos é ensinado desde crianças? Crescer, trabalhar, casar, ter filhos, envelhecer e morrer, sempre com a mesma pessoa a seu lado, continuando assim o ciclo em que a sociedade e a cultura espera que estejamos inclusos – e, no qual, mesmo que em parte, também esperamos estar inclusos?”
É certo que este sonho – se é que podemos colocar desta forma – é algo que desde cedo é ensinado a nós como uma possibilidade de felicidade, se não a mais importante. Mas por que existem tantas pessoas que acreditam piamente terem encontrado suas chamadas almas gêmeas, e mesmo assim, não são felizes ao lado delas?
Podemos pensar e observar ao nosso redor diversos motivos pelos quais são instauradas crises em um casamento: situação financeira insatisfatória; estresse do indivíduo que repercute em suas relações, tentativas frustradas de adquirir bens de consumo variados e não ter condições para obtê-lo, ou então, aquilo que propomos refletir neste artigo: as projeções daquilo que esperamos que o outro seja e não é, culminando em frustração. E, talvez, o problema seja justamente esse: a crença no sonho daquilo que esperamos para nós mesmos – seja nas relações amorosas, no trabalho, na família, no cotidiano. As projeções, no sentido psicológico, e de uma maneira fácil de se entender, podem ser explicadas como o conjunto de idealizações, expectativas, sonhos, nos quais esperamos algo para nós mesmos. A partir daí, colocamos (ou literalmente projetamos) nos outros, metas, realizações e características, sejam elas positivas sejam negativas.
"AS PROJEÇÕES SÃO O CONJUNTO DE IDEALIZAÇÕES, EXPECTATIVAS,
SONHOS, NOS QUAIS ESPERAMOS ALGO PARA NÓS MESMOS"
Essas projeções não são meramente aleatórias, pois são influenciadas pela nossa história pessoal. Há algumas figuras psíquicas envolvidas no processo, mas neste artigo será focado sobre aquilo que Jung chamou de Anima e Animus. “Anima (do latim: ‘alma’), o lado feminino, inconsciente, da personalidade do homem [...] o desenvolvimento da anima de um homem reflete-se no modo como ele se relaciona com as mulheres”. “Animus (do latim: ‘espírito’), o lado masculino, inconsciente, da personalidade da mulher. Ele personifica o princípio do logos (razão)” (James A. Hall: Jung e a Interpretação dos Sonhos, Editora Cultrix, 1983).São Anima e Animus responsáveis pelas escolhas e desejos inconscientes em relação aos parceiros e também funcionam como uma espécie de “modelo indireto” para buscar parcerias à altura destas projeções.
Rumo ao fracasso
Muitos casais entram em crise com frases como “você mudou, não te reconheço mais” ou ainda “é muito pedir que você seja diferente?”, por esperarem que seu parceiro ou parceira sejam da sua maneira, e não como estas pessoas de fato são. Isso não significa que há falsidade, ou ainda que alguém tenha demonstrado ser de um jeito durante a conquista, namoro e depois, de outro. Já dizia a máxima popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Isso não significa que APENAS cada um dos integrantes do casal seja responsável pela crise conjugal, mas sim que aspectos como a falta diálogo está sendo um fator determinante para os problemas. Ou seja: muita idealização daquilo que o outro poderia ser no relacionamento. Conseqüência disto: pessoas que não se conhecem adequadamente, ao serem apresentadas a outras como ela, caem nas armadilhas de suas próprias ilusões e primeiras impressões, que não se permitiram conhecer adequadamente, situação que numa etapa posterior extravasa os limites daquele que idealizou, gerando frustração pela expectativa não satisfeita, mas que faz com que a relação se sustente, a partir daí na base do medo de perder o amor, tornar-se solitário, receio de que uma separação possa fazer sua própria situação financeira degringolar, entre tantos outros motivos possíveis, originados com pequenas projeções, ampliados pela distância, pela falta de companheirismo, sinceridade e, principalmente, pelo excesso de cobranças e problemas “varridos para debaixo do tapete”. |
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