Self Digital Como a Internet influencia seus usuários a constituírem suas identidades na rede e pode criar transtornos à saúde de cada um. Afinal, os internautas já podem recorrer à terapia on-line?
Por Alessandro Vieira dos Reis
A maior parte dos psicólogos interessados na Interação Humano-Computador (IHC) adentrou esse perímetro via a prática clínica, daí questões relativas à terapia on-line serem as mais citadas quando o assunto é Psicologia & Informática. Contudo, independentemente da área de atuação profissional, o psicólogo precisa estar ciente das implicações da comunicação mediada por computadores na saúde humana, visto que a sociedade foi irreversivelmente influenciada pela Informática ao ponto de ela, hoje, fazer parte dos detalhes mais íntimos do cotidiano dos indivíduos. Por isso é mais que oportuno o questionamento: "Como as tecnologias digitais afetam a saúde humana?"
A EXPERIÊNCIA DO SELF E A INTERNET
Sherry Turkle, pesquisadora do Massachussets Instituct of Technology (MIT) foi a primeira profissional de Psicologia a falar sobre a Internet, em 1994. Sua pesquisa, até hoje, fala sobre como se dá a formação do Self dos usuários de comunicação digital: a Internet de alguma forma influencia a forma como eles constituem suas identidades?
Partindo do conceito de que a experiência de Self é uma forma de auto-observação para delineamento de uma identidade fluida, Turkle conclui que há três princípios fundamentais para explicar a formação do Self na Internet: a superficialização, a fragmentação e o dinamismo. O Self digital é superficial uma vez que se trata de uma coleção pequena de comportamentos. O internauta não se expõe em demasia no palco digital. É comum que ele crie personagens, sejam eles fakes (alter-egos inteiramente fictícios) ou versões alteradas de si mesmo (ao maximizar, por exemplo, seus atributos agradáveis). Sua superficialidade remete, portanto, a formação de personas que se organizam de forma horizontal, como máscaras à disposição sobre uma mesa.
Quando é a hora da terapia on-line
Por terapia on-line entende-se o conjunto de procedimentos de comunicação mediada por computador para exercício de um vínculo terapêutico. Essa prática profissional ainda não se encontra plenamente aprovada e liberada no Brasil para psicólogos, apesar da Telemedicina já ser uma realidade, especialmente na Saúde Pública envolvendo Neurologia e deve começar a ser empregada em Neuropsicologia por médicos.
Kate Anthony, pesquisadora do Reino Unido, é para muitos o maior nome do mundo na área de terapia à distância e vem desenvolvendo seu trabalho na Inglaterra desde os primórdios da Internet. Anthony estuda a aplicação de todo tipo de comunicação digital em terapia, sejam processos de comunicação síncrona (como videoconferências) ou assíncrona (como e-mails e blogs).
Seu trabalho envolve achados que apontam para o uso da terapia on-line como complemento para terapias convencionais. Por exemplo, no caso do cliente estar viajando ou impossibilitado de sair de casa. Em casos especiais o processo terapêutico pode ser inteiramente à distância, o que envolve alguns pré-requisitos por parte do cliente. Anthony é cética, por exemplo, quanto ao tratamento à distância de psicoses severas (conforme o DSM-IV), talvez pelo aspecto de fragmentação do Self digital identificado por Sherry Turkle.
Sobre o uso de dispositivos incomuns na terapia (como leitor de biofeedback) Anthony adverte: não é producente usar tecnologias com as quais o cliente já não esteja habituado. O cliente não pode, em hipótese alguma, ver a tecnologia como algo aversivo. (Contudo o biofeedback digital vem sendo usado com êxito em terapias presenciais, especialmente para dessensiblização de fobias). Uma das conclusões mais entusiasmantes da pesquisa de Anthony é que é possível criar um vínculo terapêutico de qualidade à distância, apesar desse processo ainda não estar inteiramente compreendido e delineado.
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Devido à possibilidade de manifestar diversas personas, o internauta pode representar mais de um papel na rede (inclusive vezes ao mesmo tempo). É o que Turkle entende por fragmentação. Ele pode teclar com um amigo usando sua identidade pública e em paralelo fazer uso de um fake para entrar em uma comunidade em que ele seria provavelmente punido pelo amigo por entrar. Seus diversos papéis mais ou menos integrados, ainda por cima, funcionam pelo princípio do dinamismo: estão, o tempo todo, mudando, fundindo-se, sobrepondo, dialogando, disputando espaço etc. A identidade digital é regida por transformações ditadas pela necessidade, pela moda, pelas circunstâncias, etc. Por tudo isso a Internet tende a oferecer um desafio tipicamente pós-moderno ao seu usuário. O de perguntar-se: "Afinal, quem sou eu de verdade?"
HÁ 3 PRINCÍPIOS PARA EXPLICAR A FORMAÇÃO DO SELF NA INTERNET:
SUPERFICIALIZAÇÃO, FRAGMENTAÇÃO E DINAMISMO
DISSOCIAÇÃO DA REALIDADE
No início da popularização da Internet, entre 1995 e 2000, muito se falou que o Self digital iria incentivar a esquizofrenia dos internautas em proporções epidêmicas. Os mecanismos de formação da identidade on-line desembocariam, via de regra, em sua dissociação patológica. A mídia contribuiu com esse temor ao divulgar casos extravagantes nos quais usuários confundiam real e virtual. Hoje entendem-se esses casos de "esquizofrenia digital" como isolados ou episódios em casos pré-existentes.
Manuel Castells, em A Galáxia Internet de monstra como o perfil da primeira geração de internautas muito contribuiu para o surgimento do mito da esquizofrenia adquirida pelo computador e, à medida que esse perfil foi sendo substituído por outros, o mito caiu por terra. Não se fala mais da Internet como patologicamente alienante e promotora de delírios. Ao contrário: Castells afirma, fundamentado em rica pesquisa, como na prática, que a Internet aumentou o senso de pertença social, bem como a comunicação interpessoal real. O cientista chega a afirmar que a Internet apenas potencializa a vida que o usuário já leva ao incrementá-la. Portanto a fragmentação do Self virtual não parece levar a uma fragmentação da identidade do internauta em contexto real.
O dinamismo do Self digital pode ser uma fonte de criatividade e invenção, mas também pode gerar ansiedade quando fora de controle. O mundo moderno oferece ambientes virtuais de superestimulação aos quais não conseguimos nos habituar, pois, via de regra, são turbulentos. O gerenciamento do tempo e a seletividade parecem ser a saída: navegar a partir de interesses e com objetivos é a melhor forma de não afundar no mar digital.
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