Inteligentes e algo mais Além de inteligência acadêmica, superdotados possuem habilidades como criatividade, senso de liderança, motivação, potencial artístico, grande desenvolvimento psicomotor ou outros talentos especiais
Por Marcos Vinícius dos Anjos

Cerca de oito milhões de brasileiros são considerados superdotados, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde. Ao contrário do que ocorria há algum tempo, os testes de QI perderam sua supremacia na definição da superdotação. Atualmente, critérios como a criatividade, senso de liderança e motivação ganham espaço nas discussões sobre o tema. O paranaense Charles Reis Ribeiro não sabe que Kuala Lumpur é a capital da Malásia, desconhece o fato de que Leni Riefenstahl foi a cineasta oficial de Adolf Hitler e nem imagina que Gregor Mendel é considerado o Pai da Genética. Mesmo assim, aos 15 anos ele foi aprovado em dois vestibulares: Ciência da Computação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Engenharia da Computação na PUC de Curitiba. Ele diz não saber tudo e afirma que o termo superdotado é muitas vezes usado de forma equivocada. "A maioria das pessoas acha que os superdotados já nascem sabendo tudo e dominam todas as áreas do conhecimento. Não é verdade; seria excelente se alguém soubesse tudo", desabafa.
Charles não poderá cursar a faculdade porque ainda não concluiu o ensino médio. A família dele está tentando conseguir autorização judicial para que ele seja matriculado, mas caso isso não ocorra ele terá de esperar mais dois anos para ingressar no ensino superior. Enquanto não se torna universitário, ele continua em busca de mais informações da área em que possui mais conhecimento: informática, mais especificamente, processadores quânticos que, segundo ele, são aparelhos capazes de resolver cálculos com uma rapidez muito maior do que computadores convencionais.
"A CRIANÇA SUPERDOTADA APRENDE MAIS RÁPIDO, QUESTIONA
CONSTANTEMENTE, TEM CURIOSIDADE EXCESSIVA E FALA ELABORADA"
"A teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, explica que as pessoas, assim como Charles, podem ter altos desempenhos em áreas específicas do conhecimento. No entanto, o ser humano é ilimitado e suas inteligências podem contemplar infinitos aspectos. Em meu trabalho, já deparei, por exemplo, com crianças com síndrome de Down que realizam trabalhos artísticos impressionantes", comenta a psicóloga Priscila Augusta Lima, professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutora em Educação Inclusiva pela Universidade de São Paulo (USP).
No Brasil, a superdotação é definida usualmente como um fenômeno que engloba, além da inteligência acadêmica, outras habilidades como a criatividade, o senso de liderança, motivação, potencial artístico, desenvolvimento psicomotor ou outros talentos especiais. Segundo especialistas, a explicação para o desenvolvimento das altas habilidades parece ser uma combinação de fatores hereditários e estímulos externos. "A maioria dos estudos na área realmente conduz a esse tipo de explicação, ou seja, há um equilíbrio entre a genética e a influência ambiental, que cria um cenário favorável ao desenvolvimento da inteligência", explica a pedagoga Dora Cortat Simonetti, membro do conselho técnico da Associação Brasileira para Altas Habilidades / Superdotados.
Curtir música e expressar a raiva
A pressão exercida sobre os superdotados pode resultar no desenvolvimento de problemas emocionais. O fato foi comprovado por uma pesquisa realizada pela Universidade de Warwick, na Grã-Bretanha, apontando que a música heavy metal, de grupos como Iron Maiden, Black Sabbath e Led Zeppelin, é utilizada por esses jovens para superar suas emoções negativas.
O levantamento foi feito com 1.057 alunos entre 11 e 18 anos. Os participantes da pesquisa responderam a perguntas sobre suas relações familiares e na escola, lazer e gosto musical. Os resultados mostraram que o rock foi o estilo mais popular, seguido pelo pop. A parcela que apontou o heavy metal como tipo de música preferido, mais de um terço do total, é composta por jovens que teriam uma autoestima mais baixa do que o restante. Em busca de explicações para essa relação, os pesquisadores entrevistaram 19 jovens superdotados para saber o que eles achavam do heavy metal.
As respostas obtidas sinalizaram que o estilo tem um efeito de catarse sobre os jovens, servindo para liberar suas irritações e frustrações do diaa- dia. Os fãs mais convictos disseram que o heavy metal é música para ser ouvida em todos os momentos, ao passo que outros disseram ouvi-la apenas quando estão de mau humor.

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Já o conceito adotado pelo Ministério da Educação (MEC), que está presente nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, define como superdotados os indivíduos que apresentam um desempenho notável nos seguintes itens (isolada ou conjuntamente): alta capacidade intelectual geral, aptidão acadêmica específica, pensamento criador ou produtivo, capacidade de liderança, talento especial para as artes e capacidade psicomotora. "Esta definição utilizada pelo MEC é fruto de estudos desenvolvidos por grupos norte-americanos de pesquisa e é bastante adotada no Brasil. No entanto, a meu ver, faz-se necessário na prática um referencial teórico para um entendimento melhor do que seja notável desempenho e alta capacidade intelectual", questiona Dora Cortat.
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