editora Escala
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000    
 
Filosofia  
 
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

SÍNDROME
Tique-tique nervoso
Desconhecimento acerca da síndrome de Tourette cria estigma e sofrimento em pacientes com o quadro e dificulta tratamento e a inclusão social desde a infância

Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

IMAGENS: SHUTTERSTOCK FOTOMONTAGEM: DIOGO FRANCO DO NASCIMENTO

Desde os dois anos de idade, Roberto tinha atitudes que chamavam a atenção dos pais. Falava compulsivamente e gostava que lhe lessem histórias antes de dormir, mas sempre pedia que tomassem cuidado para que as páginas do livro fossem viradas de forma que uma folha não raspasse na outra. Quando entrou na escola, passou a repetir palavras obscenas, independentemente de hora ou local, sendo taxado por professores e colegas de "criança difícil" e "boca suja". Passados alguns anos, sua conduta se tornou mais estranha: freqüentemente, encolhia a barriga, dizia "ops" e apresentava pigarro e tosse inexplicáveis. Depois, começou a dar piscadas que culminavam em pulos, enquanto conversava, e giros, imitando helicóptero, quando estava alegre.

O comportamento fez com que fosse zombado pelos colegas e deixou os pais angustiados por não conseguirem detectar as causas da conduta socialmente inadequada, mesmo com apoio psicológico e pediátrico. Ambos só descobriram o que havia de errado com o filho ao encontrarem descritos, em um site italiano, os sintomas da síndrome de Tourette.

Diagnosticado pela primeira vez em 1985 pelo neurologista Gilles de la Tourette, o distúrbio é caracterizado por tiques: contrações musculares súbitas e manifestadas por espasmos, seja por movimentos, seja por expressões vocais. Tais ações podem ser simples, com um pequeno número de músculos (uma sacudidela de cabeça ou tosse, por exemplo), ou complexas, com padrões distintos e diferentes grupos musculares, como piscar os olhos fazendo caretas. De acordo com Henrique Ferraz, membro do Departamento de Distúrbios do Movimento da Academia Brasileira de Neurologia, outro traço dos tiques é o caráter semivoluntário. "A pessoa sente necessidade de executá-los. Pode até represá- los em um momento sob pressão, em que muitos a observam, porém fica ansiosa, desconfortável", explica. "Para receber o diagnóstico", diz o médico, "não basta apresentar tiques. É necessário que eles sejam repetidos por, pelo menos, um ano, ainda que com intensidade variada."

Segundo Leonardo Fontenelle, professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a periodicidade dos tiques de Tourette os distinguirá dos tiques transitórios, comuns em crianças, que apresentam circuitos neuronais em desenvolvimento. O psiquiatra também aponta a sensação de desconforto que precede os tiques como outro traço que diferencia a síndrome de outras patologias, entre elas o transtorno obsessivo-compulsivo. "Naquela, os movimentos involuntários são repetidos, estereotipados e motivados por sensações desagradáveis; neste, os comportamentos disfuncionais (como verificar ou lavar) são desencadeados por pensamentos que geram ansiedade e são executados de acordo com regras rígidas", distingue.

Além dos tiques, a síndrome de Tourette pode vir acompanhada de comorbidades: transtornos de ansiedade, de oposição desafiante e, especialmente, de déficit de atenção e hiperatividade. Existem ainda episódios de depressão, associados a fatores como severidade dos tiques, como mostra o estudo intitulado (em português) Locus de controle, estilo de paternidade percebido e sintomas de ansiedade e depressão em crianças com síndrome de Tourette, publicado na revista European Child & Adolescent Psychiatry, em fevereiro deste ano. A pesquisa foi feita com 53 meninos e 12 meninas, com idade entre 9 e 17 anos, que tiveram avaliados, por meio de questionários, depressão e sintomas de ansiedade, locus de controle (percepção da possibilidade de controlar o sintoma como interna ou externa) e história do parto. Segundo a pesquisa, "as taxas de sintomas de ansiedade e depressão em crianças com Tourette são acentuadamente influenciadas por fatores psicossociais, aumentando a influência do TDAH e de comportamentos obsessivo-compulsivos".

"O aluno com Tourette tem pontos fortes para aprendizagem como qualquer outro e, por isso, não deve ser visto como paciente na sala de aula", defende Ediclea Mascarenhas. Para que crianças com o quadro aproveitem de forma plena a escola, a educadora diz ser necessária a realização, de forma discreta, de adaptações curriculares, para que elas não se sintam discriminadas. Veja algumas sugestões:

Condutas - no caso de comportamentos obsessivos, o professor pode incentivar atitudes positivas, como deixar o aluno responsável por manter o mural organizado. Para lidar com a coprolalia (palavrões), pode-se motivar o estudante a buscar palavras exóticas e menos agressivas no dicionário.

Didática - o conteúdo deve ter início, meio e fim. É aconselhável reservar um momento, ao final da exposição, para resumir os tópicos principais a fim de que o aluno reveja pontos não fixados. Uma forma de estimular a percepção do estudante é recorrer a apoio musical, dramático e visual, utilizando letras com caracteres ampliados e contrastes fortes entre figura e fundo, para reduzir a dispersão. "É necessário estimular e reforçar a participação dele com gestos e palavras, mas sem tornar isso uma exigência. O educador deve deixar que o educando apenas observe, se ele assim desejar", ressalta Ediclea.

Material didático - no início da escolarização, os lápis devem ser mais grossos e os cadernos devem ter pautas largas para facilitar a coordenação e a escrita, respectivamente. As letras devem ser grandes e definidas; os exercícios, espaçados e os locais destinados a respostas das questões, bem demarcados. Computador, calculadora e gravador são suportes que minimizam problemas com a caligrafia e ajudam o educando a executar tarefas com mais agilidade. "Se o aluno estiver impossibilitado de escrever, um colega poderá auxiliá-lo, copiando a lição com uma folha de carbono para que ele possa recuperar um conteúdo perdido em casa", recomenda a psicóloga

Avaliação - deve envolver diversas situações e contextos de ensino, permitindo ao aluno que expresse seu potencial e aprendizado de várias formas. Pode ser realizada oral e individualmente, com tempo expandido, para que o estudante se sinta mais seguro e a turma não se sinta prejudicada pelos tiques sonoros.

Espaço - o aluno deve sentarse em local em que haja menos oportunidade para distração ou dispersão, bem iluminado e próximo do quadro e do professor. É também importante que possa se deslocar de forma confortável, caso necessite sair da sala para fazer uma "salva" de tiques.

Debates - atividades que estimulem tolerância à diversidade humana - como debate sobre filmes ou livros - são bem-vindos. "Os objetivos afetivos são tão fundamentais quanto os cognitivos e motores. Desenvolver a autopercepção e o respeito ao semelhante contribuem para o aumento da auto-estima de todos os alunos", defende Ediclea.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 45
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado


 
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000