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Analistas, AO DIVÃ!
Transferência versus contratransferência: profissional pode comprometer a dinâmica do setting analítico se não souber elaborar o material emitido pelo paciente

Por José Antonio Mariano

IMAGENS: SHUTTERSTOCK/ FOTOMONTAGEM? DIOGO FRANCO DO NASCIMENTO

Por mais acaciano que seja é preciso que se diga que analista é um ser humano. E como tal, está sujeito às vicissitudes que assolam as pessoas. Ele fica magoado, triste, irritado e deprimido. Tem raiva (ódio mesmo), pode ter um dia excepcionalmente ruim e não conseguir atender seu paciente como de costume. É capaz de “dormir” na sessão (ficar disperso e não prestar atenção na fala do paciente), pode confundir sentimentos e situações e, por mais treinado que seja, está sujeito a erros de interpretação. Mas, ao contrário do que ocorre em outras profissões, o terapeuta pode aproveitar esses momentos de fragilidade emocional para aprimorar seus contatos com os pacientes. Isso porque, embora tais sentimentos possam não estar direcionados para algum analisando em especial, alguns deles têm a capacidade de evocar certas lembranças e emoções no terapeuta, com repercussões no mínimo interessantes na interação entre os dois e no conjunto do tratamento.

De modo bem simplista, diz-se que o paciente, ao comunicar seus estados psíquicos ou não ao analista, está transferindo tais emoções ao profissional. Este recebe e elabora o material, e devolve, sempre que for o caso, a interpretação do que ouviu. Quando, porém, a comunicação do paciente atinge o terapeuta em algo particular (por exemplo, uma situação parecida com a que o terapeuta já vivenciou), o analista pode, algumas várias vezes, “travar”, isto é, não conseguir elaborar o material levado pelo paciente. Soa, mais ou menos, como se ele se recusasse – emocionalmente – a receber a transferência, exercendo a chamada contratransferência. Os psicanalistas franceses Jean Laplanche e Jean Pontalis afirmam que a contratransferência, na Psicanálise freudiana, é compreendida como o “conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste”.

FOTOS: SHUTTERSTOCK
Durante muito tempo, o divã foi a barreira física estabelecida entre o analista e o paciente

Receber materiais que expressam, de uma forma ou de outra, passagens de sua vida, pode tornar o terapeuta um agente inconsciente dos recalques, repressões, sublimações do paciente. É importante ressaltar que a figura do analista está, para muitas pessoas, numa fronteira entre bruxo e mágico. Por não conhecerem o corpo teórico da Psicanálise e suas várias vertentes, parece, a alguns, que o terapeuta tem a capacidade de “ler” pensamentos e traduzir em palavras todo o desconforto emocional pelo qual o paciente passa. Assim sendo, sua ascendência sobre o paciente é grande, o que fala tem relevo e é levado muito em consideração. Por isso, seus sentimentos precisam estar sob controle na dinâmica com o paciente, sob o risco de contaminar a relação. É fundamental que o terapeuta os observe em relação ao paciente, uma vez que tais sentimentos são subprodutos da interação que ocorre na sessão.

O divã
Afim de manter tais sentimentos sob controle vários psicanalistas adotaram posturas de defesa tanto emocionais como físicas. Durante muito tempo, o divã foi a barreira física estabelecida entre o analista e o paciente. Ficar ao lado do divã, com o paciente deitado, funcionava como uma defesa ativa para o analista, ainda que a “desculpa” fosse o conforto do paciente. Sem olhar nos olhos, apenas recebendo a comunicação deste, o terapeuta podia dar vazão a caras e bocas diante do material exarado. Com o desuso do divã, contudo, foi preciso que adotasse outras posturas físicas. Hoje, na maioria das vezes, de frente para o paciente, ele recebe toda a carga de sentimentos, emoções e frustrações e precisa lidar com o impacto que tais revelações proporcionam, sem lhe demonstrar nenhum sintoma que possa ser interpretado como juízo de valor ou reprovação. A frieza, para muitos analistas, é sua principal defesa.

Há que se perguntar, contudo, se tal frieza ainda tem lugar na clínica psicanalítica. Na década de 1950, os psicanalistas que tentavam tratar dependentes de álcool com essa postura fria e distante não conseguiam estabelecer o menor contato com o paciente. Com isso, o índice de insucesso era tremendo, o que só colaborava para tornar a dependência de álcool um “problema de caráter que acometia pessoas que não queriam se tratar”. Não se compreendia, na época, que alcoolistas severamente comprometidos necessitavam de uma abordagem mais próxima, de acolhimento. Prevalecia a idéia de que o psicanalista, do alto do seu pedestal, não podia se aproximar muito do paciente, uma vez que isso faria com que não compreendesse o quadro em sua totalidade. E isso ocorria não só com pacientes dependentes de álcool, mas com vários outros portadores de muitas outras psicopatologias. O distanciamento protegia o analista – não o paciente.

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