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Família
Dependentes da dependência
Familiares podem alimentar a dependência química de seus membros sem mesmo saber disso, apenas para - emocionalmente - esconder as próprias psicopatologias e conflitos existenciais

Por José Antonio Mariano

O dependente químico é a lata de lixo da família. Por mais contundente e até irresponsável que pareça essa afirmação, ela confirma uma realidade que é percebida, na esmagadora maioria das vezes, quando a dependência química (DQ) se instala no lar. Como tudo conflui para a “cura” do dependente, toda a dinâmica da família se ajusta a esta demanda. Sobressaem, desse modo, as fugas, as revelações de incompletudes, frustrações, autopiedade, sensações de finitude e desvalorização no que pode ser chamado “Self familiar”. Há rasgos de “vazios emocionais”, caracterizados pela desrealização, despersonalização dos membros, e toda a agenda das pessoas da casa se modifica. Revolta e medo predominam. Entretanto, nenhum desses aspectos essenciais desta disfuncionalidade familiar é bem observado, porque são camuflados pelo sentimento de que o dependente está sendo acompanhado em sua doença e pela idéia de que a família luta com desespero para tirá-lo dessa condição. É a Co-dependência em ação.

A Co-dependência não está restrita a um membro da família, mas pode acometer um em especial. Sua conceituação é ampla, mas geralmente designa, segundo Roberto Ziemer, mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e terapeuta formado pelo Grof Transpersonal Center, Califórnia, EUA, uma pessoa que “perdeu sua alma ou sua verdadeira identidade. É uma maneira de sobreviver a situações dramáticas e crescer em ambientes inseguros e dolorosos”. Já Geraldo José Ballone, médico psiquiatra, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP) durante 21 anos, diz que a Co-dependência “é um transtorno emocional, definido e conceituado por volta das décadas de 1970 e 1980, relacionado aos familiares dos dependentes químicos – de cocaína, álcool, maconha, ecstasy –, marcado por um jogo patológico e por outros problemas de compulsão. “São pessoas que têm baixa autoestima, intenso sentimento de culpa e não conseguem se desvencilhar da pessoa dependente”.

Outras definições de Co-dependência incluem a necessidade imperiosa de controlar coisas, pessoas, circunstâncias, comportamentos e situações na expectativa de dominar suas próprias emoções; uma condição emocional, psicológica e comportamental que se desenvolve como resultado da prática e da exposição prolongada do indivíduo a regras opressivas, que impedem a expressão aberta de sentimentos e a discussão direta de problemas pessoais e interpessoais; comportamentos aprendidos de derrota ou “defeitos” de caráter que resultam em diminuição da capacidade de iniciar relações afetivas ou mantê-las; doença psicológica e comportamental cuja característica principal é a falta absoluta de identidade própria e de auto-estima. Percebe-se, portanto, uma característica presente em todas as definições: a auto-estima rebaixada do pretenso “cuidador”. Ele está, na verdade, tentando se salvar, não tanto salvar o dependente.

No Brasil, 11,2% da população é dependente de álcool

ÁLCOOL NO BRASIL
Para entender a Co-dependência e suas diversas manifestações, é preciso compreender sua dimensão epidemiológica. E essa dimensão está no abuso e dependência de substâncias psicoativas (SPA) no Brasil e no mundo. Apesar da ênfase de Antonio Maria Costa, diretor executivo do escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime (Unodoc) – “Os dados mais recentes que colhemos mundialmente mostram que a dependência de drogas tem diminuído” –, o fato é que, anualmente, 4,8% da população mundial entre 15 e 64 anos usa drogas, segundo dados divulgados em 2007. São cerca de 200 milhões de pessoas. De acordo com o relatório, mais da metade consome drogas pelo menos uma vez por mês e aproximadamente 25 milhões são dependentes químicos. “As drogas consideradas mais problemáticas no mundo são os opiáceos – principalmente a heroína –, consumidos especialmente na Ásia e na Europa; a segunda é a cocaína”, atesta Costa. Na América do Sul, a cocaína é a droga que mais leva à busca de tratamentos por dependência. “Na África, a maior demanda por tratamento decorre do uso da Cannabis em forma de erva (maconha) ou resina (haxixe)”, afirma.

Por aqui, um estudo epidemiológico de Carlini, Galduróz, Noto e Nappo (2002) estimou em 11,2% da população, cerca de 5 milhões de pessoas, os dependentes de álcool, em 2001, no Brasil. O sexo masculino apresentava uma porcentagem maior quanto à dependência de álcool, para todas as faixas etárias estudadas. No Estado de São Paulo, estudo realizado pelo Centro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas– Cebrid (2000) em 24 de suas maiores cidades, identificou que 6,6% da população era dependente de álcool. O preocupante é que, dois anos depois, houve aumento da incidência do alcoolismo na mesma população pesquisada, conforme artigo de Galduróz e Caetano (2004), constatando-se aumento significativo para 9,4% de dependentes. Esse mesmo estudo aponta um fato inquietante: no Brasil, 5,2% dos adolescentes (de 12 a 17 anos) já são dependentes, e a tendência é esse número aumentar.

No Brasil, o álcool é a substância mais consumida entre os jovens. A idade de início de uso tem sido cada vez menor, o que aumenta o risco de dependência futura. O uso de álcool na adolescência está associado a uma série de comportamentos de risco, os quais resultam, em números cada vez mais elevados, em acidentes de trânsito, violência sexual, participação em gangues, morte violenta, queda no desempenho escolar, dificuldades de aprendizado, prejuízo no desenvolvimento e estruturação das habilidades cognitivo-comportamentais e emocionais. O consumo de álcool causa modificações neuroquímicas, com prejuízos na memória, aprendizado e controle dos impulsos. Os profissionais que lidam com adolescentes devem estar preparados para avaliar adequadamente a possibilidade do uso abusivo ou dependência de álcool nesta faixa etária. Além do álcool, o uso de outras SPAs, como cocaína, maconha, crack, ecstasy, merla (junção de folhas de coca a produtos químicos – pode ser fumada sozinha ou misturada no cigarro comum e no de maconha), contribui para a desestruturação da personalidade do dependente – e da família.


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