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A mulher moderna e seu dinheiro
Os conflitos femininos em busca de autonomia financeira estão além de sua consolidação profissional: fantasmas históricos, como o da prostituição, podem influenciar uma culpa inconsciente em obtê-la

Por Ana Lucília Rodrigues

A atividade profissional feminina permitiu às mu- lheres adquirir o direito à cidadania É agora um valor e uma aspiração legítima. A condição pós- moderna se recusa a presenciar uma identidade feminina constituída exclusivamente pelas funções de mãe e esposa. Segundo o sociólogo Gilles Lipovetsky, esta nova mulher concretiza uma ruptura histórica na identidade fe- minina, bem como nas relações entre os sexos. Esse novo modelo histórico é nomeado de a "terceira mulher". A "primeira mulher" corresponderia a Eva da tradição judai- co-cristã, ser nefasto e diabólico, agente da infelicidade do homem. A "segunda mulher" é posta em cena a partir da Idade Média, é uma espécie de anjo idealizado por sua be- leza e qualidades "passivas", é glorificada em verso e prosa pelos homens, ela está longe de conquistar sua autonomia individual diante do macho dominador.

A aparição da "terceira mulher" é resultado da revolução feminina dos anos 1960, a partir da qual, surge um novo modelo de subjetivação, com novas definições e significações no imaginário social. Agora é a vez da mulher que comanda seu destino, deixou de ser uma invenção do homem para se instituir como uma invenção de si mesma; é, portanto, inde- terminada - necessita ser reinventada a todo instante.

Mas, séculos e séculos de opressão feminina não po- dem ser solucionados num abrir e fechar de olhos, isso é demonstrado pelo discurso feminino que surge na práti- ca clínica ou no cotidiano de muitas mulheres, que ainda flertam com alguns fantasmas de suas antecessoras, tais como o da "prostituição" que as remete à culpa e à vergo- nha, ou da "mãe má", ou ainda o da transgressão de sua feminilidade etc. Alguns desses fantasmas foram reedita- dos quando as mulheres começaram a ter acesso ao seu dinheiro, eclipsando a constituição subjetiva da "terceira mulher", que às vezes desempenha muito bem seu papel profissional, mas sua remuneração fica a desejar. Será que podemos culpar só o campo do social por tal discrimina- ção? Por que as mulheres estabelecem uma relação com o dinheiro diferente da que o homem estabelece? Podemos realmente considerar a independência econômica femini- na como uma carta de alforria para a sua autonomia?

É ingênuo pensar que o problema da independência econômica feminina e sua autonomia seriam soluciona- dos com seu acesso ao dinheiro. A mulher, além de che- gar até ele (coisa nada fácil), tem ainda de se sentir com direito de possuí-lo - livre de culpas para administrá-lo - e assim poder tomar decisões segundo seus próprios critérios, fato que ocorre com pouca freqüência. Se as mu- lheres vasculharem seus baús de lembranças com certeza encontrarão situações nas quais se sentiram inibidas, vexadas ou desconfortáveis ao terem de receber, cobrar, plei- tear reajustes de salários, alterar o valor de seus honorários e até de estabelecer valor para seu trabalho.

"O DINHEIRO TORNA-SE UMA "BATATA QUENTE", QUE QUEIMA AS MÃOS E TEM DE SER ENTREGUE AO PRIMEIRO QUE PASSA"

O dinheiro para algumas torna-se uma verdadeira "batata quente", que lhe queima as mãos, e, portanto, tem de ser entregue ao primeiro que lhe aparecer pela fren- te, menos permanecer consigo mesmas. Este é um tema tabu que fica alojado num silêncio nada ingênuo e inócuo, dificultando ainda mais as mulheres a ascenderem ao direito de possuí-lo, livre de culpas ao administrá-lo ou tomar decisões segundo seus próprios desejos. São muitas as questões que este assunto pode evocar, mas recortarei apenas um aspecto, deste grande labirinto que se impõe quando se trata de mulheres e seu dinheiro.

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