Repensando o cérebro infantil Avanços científicos e tecnológicos acumulados que permitiram ampliar o conhecimento das características e do funcionamento cerebral das crianças
Por Marco A. Arruda

Ainda que desajeitado, o recém-papai segura o filho em seus braços e o embala no balanço de dois passos daquela madrugada mal dormida.
... Foi um dia inesquecível aquele em que a jovem mamãe descobriu uma animada brincadeira com o seu bebê. Com a ajuda das suas pequenas mãos ele se escondeu, para em seguida reencontrar a mamãe com um sorriso eterno.
... A escuridão lá fora anunciava mais uma noite de medo, não fora a mamãe chegar ao quarto para ler mais uma incrível história e, de repente, a criança serenamente dormir.
Nunca antes pudemos entender como em momentos como esses, em questão de segundos, milhares de células do cérebro em pleno desenvolvimento são “ligadas”, como verdadeiros interruptores, rearranjando novas conexões, ativando circuitos até então inativos, estabelecendo rotas que permanecerão “abertas” para o resto da vida.
Com a ajuda de um dicionário podemos arriscar dizer que “o cérebro da criança é uma odisséia”, com uma série de ocorrências neurobiológicas singulares, variadas e inesperadas. Apesar disso, até alguns anos atrás o desenvolvimento cerebral nos primeiros anos de vida era bastante desconhecido e sua importância subestimada. No passado, as pesquisas sobre o cérebro em desenvolvimento se restringiam a poucas fontes: a observação do comportamento da criança ao longo de seu desenvolvimento; estudos com animais jovens; estudos com crianças portadoras de doenças neuropsiquiátricas; necropsias, eletroencefalografia e análise do líquido cefalorraquidiano.
Nos dias atuais, novas tecnologias, como as tomografias por emissão de pósitrons (PET) ou por emissão de fótons únicos (SPECT) e a ressonância magnética funcional (fRMN), nos revelam os segredos do cérebro vivo, em funcionamento, sob demanda, em desenvolvimento, on-line e em cores.
Com base nessas novas tecnologias é possível não apenas analisar o desenvolvimento do cérebro como também mapear os circuitos e áreas cerebrais envolvidas no comportamento e em determinadas tarefas como ler, escrever, prestar atenção e memorizar. O advento dessas tecnologias está permitindo aos neurocientistas do século XXI vislumbrar quão flexíveis, ativos e complexos são o cérebro, o comportamento e o aprendizado humanos.
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| Nutrição e afeto estão entre os fatores essenciais para o pleno desenvolvimento de todas as capacidades cerebrais humanas |
Até muito recentemente acreditava-se ser predominante o papel dos genes no desenvolvimento do cérebro e que este amadurecimento cerebral, por sua vez, era o que definia como haveríamos de interagir com o mundo. Não se reconhecia que as experiências de um bebê em seus primeiros dias, meses ou anos de vida pudessem ter impacto decisivo na arquitetura cerebral e nas aptidões cognitivas futuras.
Graças a essas novas e sofisticadas tecnologias de investigação e a décadas de estudos em anatomia, genética, química e fisiologia cerebral, as Neurociências hoje e a cada dia nos enriquecem com uma verdadeira avalanche de novos conhecimentos, que há vinte ou trinta anos seriam com certeza recebidos com ceticismo.
O impacto desse avanço alcança amplo espectro de decisões, do casal que pretende ter um filho às políticas governamentais nas áreas social, educacional e de saúde.
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