Da possessão ao delírio A Ciência, pelo intercâmbio de informações entre a Psiquiatria, Psicologia e Neurociências, vem tentando decifrar e discutir as experiências místicas e os eventos paranormais e traz à cena conceitos como dissociação da consciência, patologia e espiritualidade
Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

Estudar Ciência e fé sem cair no abismo determinista que separa ambos, além de lidar com fenômenos ainda distantes de alguma explicação racional aceitável, é estar disposto a construir uma tradição de pesquisa de difícil credibilidade. De um lado, conceitos secularmente consolidados no universo científico que contribuem com uma visão excessivamente cética dos episódios tidos como sobrenaturais; de outro, a fé como elemento indissociável de explicações religiosas ortodoxas. Não foi à toa que pesquisas parapsicológicas permaneceram estagnadas ao longo de grande parte do século passado e apenas agora voltam a ocupar as páginas dos principais periódicos científicos internacionais.
Na retomada mundial dos estudos sobre mediunidade, respeitando barreiras culturais e de credo, algumas perguntas permanecem. Como confrontar fatos dentro de um assunto cuja crença no que os olhos vêem é distante de ser suficiente? De que maneira Psicologia e eventos paranormais conseguem dialogar e produzir teorias conclusivas sobre idéias de pós-morte, possessão, telepatia e outros eventos de difícil compreensão? Especialistas são unânimes em afirmar que, embora nenhuma dessas questões tenha resposta definitiva, procurar entender sua esfera psicossocial e, dentro desta, a oferta de bem-estar que a mediunidade possa oferecer (ou não) é o primeiro passo para uma abordagem isenta.
O interesse da Psicologia por eventos paranormais antecede paradigmas clássicos da área, dentre eles a aceitação de conceitos como o de mente subconsciente, processos de dissociação e certas concepções de psicopatologia. O resgate histórico dos estudos da mediunidade, conforme versam alguns pesquisadores, foi essencial para a construção desses conceitos, especialmente entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX. Frederic Myers e Pierre Janet foram dois dos protagonistas do desenvolvimento de um ambiente pré-paradigmático para a parapsicologia e prolífico para várias outras disciplinas.
Foi nesse ambiente que se criaram concepções como a de que todos os fenômenos mediúnicos são originados no subconsciente. De um lado, admitia-se que essa região da mente era responsável pela produção de fenômenos autônomos motores e sensoriais, mas sem a intervenção de espíritos desencarnados; de outro, entendia-se o subconsciente como o lugar onde espíritos exerciam influência e determinavam ações exteriorizadas pelo médium.
Frederic Myers, pesquisador psíquico clássico e um dos principais desenvolvedores de teorias relacionadas ao subconsciente, foi um dos que acreditavam na influência do sobrenatural no comportamento mediúnico. Em seus escritos, ele defende a existência de um Self único, mas dividido em duas partes — uma parte com uma pequena porção consciente (supraliminal) e outra com grande parcela inconsciente (subliminal). Segundo Myers, o Self subliminal é responsável pela vida sensorial coordenando atividades desde o sono e o hipnotismo, passando por enfermidades histeroconversivas, até chegar a alucinações, telepatia, clarividência, automatismos motores e transes de possessão.
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