Contardo Calligaris Uma ficção autobiográfica Para o autor do romance O conto do amor, é natural que uma obra de ficção carregue em seu bojo muitos elementos da biografia de quem escreve. Afinal, nossas histórias inventadas, como acreditava Freud a respeito dos sonhos, são os fios soltos de nossas vidas
Por Rose Campos
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Rose Campos é jornalista e escreve sobre Psicologia. |
Há quase duas décadas o psicanalista italiano Contardo Calligaris optou por se estabelecer no Brasil. A Europa àquela altura havia perdido algumas figuras emblemáticas de sua cultura, como o biólogo, filósofo e psicólogo Jean Piaget, o filósofo Michel Foucault e o psicanalista Jacques Lacan, que tinham exercido grande influência na formação de Calligaris. O Brasil, para onde ele há alguns anos passara a vir com certa freqüência, lhe pareceu então o lugar mais promissor para dar continuidade às suas atividades.
A oportunidade de escrever semanalmente como colunista do jornal Folha de S.Paulo criou uma nova dimensão em seu trabalho. Autor de vários livros, publicou recentemente sua primeira obra de ficção, O conto do amor (Companhia das Letras, 2008). Na entrevista concedida em seu consultório, em São Paulo, Contardo Calligaris revela passagens marcantes de sua vida profissional e pessoal desde que deixou a Itália, aos 18 anos.
Psique - Como foi sua formação e como surgiu seu interesse pela Psicanálise?
Contardo Calligaris - Minha formação foi em Epistemologia Genética, na Suíça, numa época em que Piaget ainda estava ensinando. Ele não mais dirigia pesquisas, no entanto ainda dava palestras. Minha formação não teve nada de clínica. Eu me ocupava mais das ciências sociais. Então, por volta de 1969, 1970, comecei a fazer análise, na França, em Paris. Isso, a princípio, não tinha nada a ver com minha formação. Mas foi a partir de minha análise pessoal que comecei a me interessar pela Psicanálise.
Mais tarde fui fazer doutorado em Semiologia, com (Roland) Barthes.
Nos anos 1980 eu havia trancado a matrícula do doutorado e, ao decidir retomar, o fiz em Psicologia Clínica, quando então já havia despertado meu interesse pela prática clínica.
Psique - A análise à qual se submeteu na França era tradicional, ortodoxa? Como ela repercutiu em seu próprio trabalho?
Calligaris - Eu fazia três vezes por semana - talvez fosse mais, se permanecesse mais tempo em Paris.
Fazia com Serge Leclaire, membro da Escola Freudiana de Paris. É difícil dizer de Leclaire que ele era um lacaniano, dentro da caricatura atual que se tem a respeito da Psicanálise lacaniana. Ao longo de minha formação, na Escola Freudiana de Paris, comecei a freqüentar as apresentações de casos de pacientes feitas por (Jacques) Lacan. Essas apresentações aconteciam sempre às sextas-feiras, e eu as freqüentei durante um bom tempo, até Lacan interrompê-las, por estar doente, cerca de um ano antes da morte dele. Tornei-me membro da Escola Freudiana de Paris em 1975, e cercade um ano depois, comecei a atender. Um período muito importante para minha formação foram os três anos em que atuei como terapeuta numa equipe que contava também com médicos psiquiatras, terapeutas ocupacionais e pedagogos numa instituição que recebia crianças e adolescentes com problemas mentais graves, como autismo e psicose. A faixa etária ali variava de 4 a 17 anos. Foi uma experiência muito importante para mim, tanto do ponto de vista do universo institucional quanto da clínica para crianças.
"Ao longo de minha formação, na escola freudiana de Paris, comecei a freqüentar as apresentações de pacientes de Lacan"
Psique - Ao tratar casos tão graves, com quais objetivos se trabalhava. Havia alguma perspectiva de cura, ou de remissão de sintomas?
Calligaris - A instituição era administrada da maneira menos pior possível. A idéia era que as crianças ficassem ali durante o dia, recebessem atendimento e depois fossem devolvidas para seus lares. Na prática, muitas delas ao sair ficavam pelas ruas, perambulando. Então, toda segunda-feira de manhã tínhamos de sair em uma Kombi para procurá-las e resgatá-las. Logo em minha chegada, o que mais me impressionou foi o clima de desânimo que se abatia sobre o local. Vários psicanalistas que tinham passado por ali acabaram "fugindo" depois de três ou quatro meses. O salário pago até que era bom, algo como 100 francos a hora. Mesmo assim, era muito difícil tentado conduzir ateliês como os de marcenaria, de teatro, mas nessa altura já haviam desistido de fazer qualquer coisa há muito tempo.
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"Os brasileiros em geral não têm idéia disso, mas a miséria está presente em todos os países, inclusive nos mais ricos" |
Numa dessas minhas incursões pela clínica, lembro-me de uma situação chocante. Dois terapeutas ocupacionais estavam na oficina de marcenaria. Eram ótimos marceneiros e estavam bastante ocupados fabricando o que parecia ser uma cômoda para um deles. Foi quando deparei com uma menina de uns 14 ou 15 anos, sentada sobre uma poça de sangue. Os TOs nem haviam se dado conta do que acontecia. A menina devia ter encontrado por ali uma lixa para madeira e estava se masturbando com ela. Era um retrato do que enfrentávamos na clínica. A equipe toda se sentia muito desgastada.
Psique - Era uma instituição pública, que abrigava crianças pobres?
Calligaris - Existem bolsões de miséria humana mesmo num país como a França. Os brasileiros em geral não têm idéia disso, mas a miséria está presente em todos os países, inclusive naqueles mais ricos e desenvolvidos. A situação das famílias às vezes era muito precária. Havia, por exemplo, dois irmãos que a gente sempre ia repescar às segundas de manhã. Depois de conseguir encontrá-los, levávamos de volta e passávamos um bom tempo limpando-os. Eles costumavam voltar muito sujos, cheios de piolhos. A gente dava banho, limpava o cabelo ou, se necessário, raspava. Mas, ao retornar para casa, na verdade um quarto onde vivia a mãe e um homem, que não sei exatamente se era o pai deles, o ambiente era desolador. No quarto sem mobília alguma havia apenas um colchão. Aquilo era coberto com restos de excrementos, mijo e vômito. Em volta, um mar de garrafas vazias. A mãe e aquele homem estavam sempre em um estado acima da embriaguez. Nós nem falávamos com eles, porque eles não tinham condições de responder.
Simplesmente pegávamos as crianças e as levávamos de volta para o abrigo para, na semana seguinte, reencontrá- las do mesmo jeito. As condições, em muitos casos, eram tão caóticas quanto esta. Algumas vezes era possível tentar uma adoção provisória. Em geral, porém, se evitava tirar a criança da guarda dos pais. Ainda que complicada, a autoridade parental era a única referência para aquelas crianças.
Psique - Você acredita que certas situações de indigência potencializavam ou ajudavam a desencadear a doença mental? Calligaris - Não sei se dá para dizer isso. A pobreza não produz doença mental. A miséria, no entanto, pode produzir doença mental indiretamente. De que modo se dá essa produção indireta de doença mental? Através da exclusão. No caso de crianças, o que conduz a esse efeito é a exclusão dos pais.
Se os pais estão fora do campo do humano, isso os torna pais impossíveis. Não tem como esses pais ocuparem nenhuma posição simbólica dotada de algum valor para os filhos se eles não têm valor algum.
A não ser que, apesar de miserável, seja possível não se sentir excluído e socialmente invisível. Quando alguém vê uma mãe com criança na esquina, pedindo esmola, digo que o mais importante é falar com essa mãe como se fala com uma pessoa.
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