Mitos da infidelidade A traição fere os ideais românticos de amor, comprometimento e exclusividade que caracterizam os relacionamentos amorosos contemporâneos. E boa parte das crenças que a cercam estão envoltas em equívocos e idéias que não correspondem à realidade
Por Thiago de Almeida e Kátia Regina Beal Rodrigues
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No cimena
Infidelidade (EUA, 2002) é uma refilmagem de A Mulher Infiel, de 1969. O casal, formado há 11 anos, tem um filho e leva uma vida normal até um encontro prosaico colocar outro homem na vida da esposa amorosa. A história se torna dramática, no entanto, quando um crime passional provoca uma reviravolta. No remake os atros são Diane Lane (que ganhou indicação para o Oscar pela fita) e Richard Gere. |
QUEM TRAI NÃO AMA
A pessoa que pratica a infidelidade não ama o parceiro e o caso é a prova cabal disso.
Não podemos pensar que a falta de amor é o maior fator que justifique uma infidelidade. Buscando não se sentirem tão vulneráveis diante de seus parceiros, algumas pessoas procuram outras como uma fonte de afirmação de valor.
A explicação para a infidelidade pode derivar de uma racionalização, ou seja, da construção intelectualmente convincente que essas pessoas tentam argumentar para si mesmas e para as demais na tentativa de justificar os próprios atos. Outras relatam que traíram por vingança ou para chamar a atenção de seus parceiros, se por algum motivo se sentiam negligenciadas. Acreditamos que não falte nada aos parceiros traídos, e sim para aqueles que traem. Em alguns casos, praticar a infidelidade ajuda a mitigar a dor da vaidade ferida.
Ao sermos traídos, a vida nos oferece um espectro de escolhas para vivenciar este sentimento. Hillman (1981) ressalta os perigos que podem se suceder à infidelidade. O mais comum é a retaliação. A vingança em alguns casos permite a descarga emocional. Mas em geral é difícil elaborar a dor da rejeição.
Se os homens geralmente têm medo da infidelidade, sobretudo sexual, as mulheres similarmente têm medo de serem abandonadas emocionalmente e financeiramente (Buss, 2000). Segundo Fischer (2006), as mulheres são mais propensas que os homens a fazer vistas grossas para casos de seus parceiros que não chamem tanto a atenção. Esse mecanismo, segundo a Psicologia, é definido como negação e tem a função de diminuir a ansiedade. Contudo, se uma mulher passa a perceber que o parceiro está se vinculando emocionalmente a outra mulher, ou se observa que ele desvia recursos de tempo e dinheiro que poderiam ser aplicados em seu benefício e de seus filhos, a mulher pode se tornar extremamente ciumenta.
Tanto o homem quanto a mulher buscam a novidade em outro relacionamento. Pode ser diálogo, carinho, amor ou um passatempo na cama. É comum supor, por exemplo, que um homem casado e feliz não se apaixone por outra mulher, nem deixe a esposa por uma aventura. De forma análoga, cogita-se que nenhuma esposa arrisca um casamento feliz por causa de outro homem. A aventura, então, provaria haver algo errado entre o casal. Esta visão é falsa. As pessoas se envolvem em relações extraconjugais por diversas razões e somente uma parcela delas reflete conflitos matrimoniais ou de relacionamentos de qualquer outra natureza. Mas, podemos conjecturar por que nem todos os que já foram traídos se tornam traidores. Para melhor entender a situação, precisaremos importar da Física o conceito de resiliência. Este termo originalmente se refere à propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
Em Psicologia, costumamos nos referir à capacidade da pessoa de se recobrar facilmente ou se adaptar aos infortúnios ou às mudanças. Assim, uma pessoa nascida em uma família na qual roubar seja prática comum não necessariamente tornar-se-á um ladrão, dada sua resiliência interna. Raciocínio semelhante pode ser aplicado à infidelidade. Ter convivido na infância com pais que traíram não é decisivo para que, na idade adulta, se tornem pessoas que vão trair seus parceiros.
Nas situações clínicas com as quais pudemos nos deparar, defrontamo-nos com casos de pessoas muito pouco assertivas, que por não saberem dizer não aos insistentes pedidos de um colega de trabalho, por exemplo, tiveram um caso, muitas vezes arrependendo-se depois. Em situações como essa, quando não é isto que se quer, resta a possibilidade de um enfático não, embora isso nem sempre se apresente. Portanto, aqui ressaltamos que a infidelidade não necessariamente está relacionada à ausência de amor e, às vezes, ao contrário, refere-se ao seu excesso.
No estudo "Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações", Almeida (2007) constata que, independentemente do grau de comprometimento e do investimento que as pessoas entrevistadas demonstravam com seus atuais parceiros, elas ainda poderiam se engajar na infidelidade. Portanto, a fidelidade é um conceito bastante subjetivo e não há definição prévia a respeito.
"Na maioria das vezes, o parceiro que se envolve com outra pessoa n está se
sentindo ouvido e respeitado" |
A CULPA É DELE
O caso foi culpa do traído e, de alguma forma, este deve ser responsabilizado porque não satisfez todas as necessidades do parceiro infiel.
A decisão sobre como lidar com uma situação intolerável é claramente individual. É possível supor que o principal fator de indução à infidelidade seja a insatisfação no vínculo amoroso. Estudo realizado por Glass & Wright (1985), no entanto, demonstrou que o nível de felicidade, ao menos entre os homens, em casais estabelecidos, não tinha nenhum efeito na probabilidade de infidelidade. É verdade que, para um relacionamento fracassar, deve haver cooperação de ambos. Mas tal constatação não permite afirmar que o culpado pela traição seja a pessoa traída. Pessoas que estejam de certa forma saturadas do parceiro ou do relacionamento talvez precipitem a infidelidade. Porém, é um equívoco achar que induzam o outro a esse tipo de comportamento. Por definição, aliás, a ocorrência da infidelidade pressupõe ausência física da pessoa traída. Uma exceção a esta lógica, no entanto, são os casais swingers, que costumam agir de mútuo acordo, não configurando, portanto, a infidelidade.
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FINJA QUE NADA SABE
A melhor abordagem para a descoberta de um caso é fingir que não se sabe, evitando assim uma crise.
O pensamento mais comum que subsidiaria este mito é o que reza o adágio: "O que os olhos não vêem o coração não sente". Muitas confusões, brigas, desentendimentos e rupturas eclodem em virtude de nossas palavras, daquilo que ouvimos, cobramos, exigimos, sugerimos ou insinuamos para a outra pessoa. E muitos daqueles que aparentemente ignoram os casos do(a) parceiro(a) suspeitam e sofrem com a infidelidade presumida. Alguns acreditam ser mais seguro a ignorância do que trazer o problema à tona, investigando a verdade, pois reconhecem no diálogo a possibilidade da discórdia em vez da reconciliação. Os casos costumam ser interpretados por quem é traído como uma forma de o outro comunicar sua vontade de sair do relacionamento. Para ambos, no entanto, o adiamento do confronto tende a aumentar a desonestidade entre o casal. E, quanto mais tempo se calam diante das suspeitas, mais difícil se torna enfrentá-las. "A infidelidade não está no sexo, necessariamente, mas no segredo" (Zampieri, 2004, p. 169). Então, é razoável supor que, quando alguém trai a confiança de outrem, não está tentando criar proximidade, intimidade ou entendimento. Toda e qualquer conspiração e maquinação contra os amantes, uma vez revelado o caso, pode surtir um efeito negativo, denominado efeito Romeu e Julieta pela Psicologia do amor. Significa que obstáculos sociais ou físicos tenderiam a acender em nós a paixão romântica. E, como nos sentimos vinculados àqueles com os quais compartilhamos nossos segredos e muito pouco à vontade com aqueles para quem mentimos, um caso pode ter seu fundamento no segredo. Um encaminhamento sábio para equacionar a situação seria optar pelo diálogo mais sincero possível e isento de agressões. Quando não nos sentimos capazes de conduzir a situação dessa forma, aí então se estabelece a oportunidade de buscar ajuda de profissionais especializados, como o psicoterapeuta familiar.
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