Mitos da infidelidade A traição fere os ideais românticos de amor, comprometimento e exclusividade que caracterizam os relacionamentos amorosos contemporâneos. E boa parte das crenças que a cercam estão envoltas em equívocos e idéias que não correspondem à realidade
Por Thiago de Almeida e Kátia Regina Beal Rodrigues
"Na verdade, estabelecer um relacionamento amoroso com alguém não elimina o interesse amoroso ou sexual por outras pessoas" |
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Infidelidade e a Aids
Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade, de Ana Maria Fonseca Zampieri ( Ágora, 2004) aborda temas tabus no cenário do casamento brasileiro heterossexual, colocando em evidência a questão da AIDS. O livro é dirigido especialmente aos profissionais que trabalham com pessoas abordando tanto os aspectos psicológico e clínico, como social. |
É O FIM DA RELAÇÃO
Se acontecer um caso, o casamento ou relacionamento amoroso de qualquer natureza deve cessar imediatamente.
Etimologicamente, do grego, crise refere-se ao momento no qual o ser humano se encaminha para uma decisão, e, portanto, um momento crucial de sua existência. Logo, não há uma decisão certa ou errada a se tomar sobre permanecer casado ou se divorciar após uma experiência de infidelidade. A descoberta de uma infidelidade instaura um momento crítico e surge a necessidade de definições. Ao mesmo tempo, surge a oportunidade de crescimento. Para alguns, será impossível conviver com a representação do relacionamento maculado pela infidelidade. Outros serão mais complacentes e recuperarão a confiança no parceiro, muitas vezes após sucessivas provas de fidelidade. Finda a crise, o casamento tanto pode se tornar pior como melhor. O relacionamento amoroso pode sobreviver a uma traição, desde que ambos estejam empenhados em compreender as razões da experiência vivida, cada qual em seu tempo. Nem sempre isso é possível, e talvez demande maior esforço da pessoa traída.
Hillman (1981) acredita que a infidelidade pode ser uma rica oportunidade para a prática do perdão. E perdoar aqui não significa apagar os acontecimentos, mas aprender a conviver com eles de forma construtiva. Não existem fórmulas ou receitas para isso. Somente no dia-a-dia se podem reedificar as bases do relacionamento abaladas pela infidelidade. Regino et al. (2005) nos alertam que não basta o traído reconhecer o que aconteceu e dar um sentido a isso. É necessário que o traidor reconheça sem falsos pudores o seu erro, admita a infidelidade e conte com a ajuda do parceiro para reconstruírem o relacionamento. Responsabilizar-se pela infidelidade significaria assumir o rompimento do pacto de fidelidade. Segundo Costa, o amor romântico nasce na "Era dos Sentimentos" marcado por renúncias, devaneios e projetos em longo prazo, mas hoje, na "Era das Sensações", com o enfraquecimento da sociedade patriarcal e o culto às satisfações imediatas, esse ideal mostra sua incongruência. "Vivemos numa moral dupla: de um lado a sedução das sensações e, do outro, a saudade dos sentimentos. Queremos um amor imortal e com data de validade marcada: eis sua incontornável antinomia e sua moderna vicissitude!" (Costa, 1998, p. 21).
Outra razão para a infidelidade pode ser a busca de auto-afirmação. Homens e mulheres frustrados diante da sua incapacidade de se realizar e melhorar a relação conjugal buscariam outros relacionamentos a fim de mostrar que ainda são capazes de conquistar alguém, sentindo-se assim atraentes e desejáveis (Zampieri, 2004). A excessiva absorção no trabalho, segundo Matarazzo (2000), também pode levar a um envolvimento extraconjugal, pelo sentimento de rejeição e abandono que desperta no companheiro.
Se a infidelidade é confirmada, um espectro variado de emoções pode surgir. Parrot (1991) afirma que, se a atenção recai na atitude infiel do parceiro, ressalta a mágoa e a raiva. Depressão e ansiedade se sobressaem quando a atenção recai na inadequação pessoal do ciumento e, por fim, se a superioridade do rival é o foco do ciumento, o sentimento mais expoente é a inveja. Em recente pesquisa, estudiosos do assunto afirmam que na atualidade a mulher trai mais, sem apresentar remorso por seus atos. Os principais motivos citados: curiosidade, oportunidade, solidão no casamento, a busca por sexo de qualidade e vingança (Pinheiro, 2004). Quanto aos homens, é menos comum do que se imagina encontrar alguns vivendo um caso extraconjugal que teve início pelo simples fato de não conseguir resistir a um apelo e que se prolonga por anos. Quando questionados, os homens que traíam afirmaram que amavam tanto suas esposas quanto suas amantes. Já as mulheres, em geral, precisam de um motivo para trair, seja ele o alcoolismo incurável do marido, seu próprio fracasso profissional e financeiro, a constante violência emocional a que são submetidas ou a simples vontade de vingar uma infidelidade. Para a mulher é bem mais fácil cair na armadilha do "amor romântico", imaginando que aquele caso supriria todas as suas carências e, portanto, apaixonarse pelo amante é quase inevitável (Pereira & Monteiro, 2001).
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Admitir a infidelidade e reconhecer sem falsos pudores os erros são fatores que ajudam o parceiro a reconstruir o relacionamento |
A crença é de que os homens trairiam mais que as mulheres. Eles aprendem desde pequenos que podem ter mais de um relacionamento e sentemse, por isso, apoiados na infidelidade. A idealização da parceira perfeita, pelos homens, e do homem que as apóie e as ajude, pelas mulheres (que costumam confundir "casamento com felicidade"), faz com que as pessoas reivindiquem muito umas das outras, o que gera frustrações e abre caminho para a infidelidade.
A perda da atração pelo companheiro é uma causa muito citada pelas pessoas infiéis (Menezes, 2005). O desejo também pode morrendo com a convivência, ou porque os parceiros já não são mais os mesmos (a mulher pode engordar muito ou o homem pode não gostar de tomar banho). Assim, o desejo vai sendo reprimido e as fantasias sexuais se multiplicam, até que um dia aparece uma terceira pessoa (Matarazzo, 2000). Segundo Bolsanello (2000), quanto maior a duração do casamento, maiores as possibilidades de desilusão. As origens do desapontamento são: excesso de trabalho, longas separações, conflitos emocionais, manias, longos silêncios, enfim, uma série de fatores que levam ao inevitável tédio do dia-a-dia.
Uma das motivações para procurar outra pessoa é a necessidade do novo e não a falta de amor ou de estimulação sexual |
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Ciúme motivador
Quanto mais ci úme se sente em relação ao parceiro, mais chances há desse parceiro se envolver amorosamente com outra pessoa. Esse fenômeno, chamado "profecia auto-realizadora", foi comprovado na pesquisa realizada pelo psicólogo Thiago de Almeida, do Instituto de Psicologia da USP. Foram entrevistados 45 casais heterossexuais, de várias idades, que estivessem juntos há pelo menos seis meses. |
QUEM AMA NÃO TRAI
O amor é uma "vacina" contra a infidelidade.
A alta taxa de dissolução matrimonial e mesmo de ruptura em relacionamentos prémaritais há muito tempo intriga os pesquisadores. No mundo contemporâneo muitos são os ingredientes do intitulado amor romântico - apaixonamento, desejo sexual, amor e laço conjugal indissolúvel. O modelo amoroso romântico, que promete felicidade duradoura, tem também seu ônus, como as postergações e restrições eróticas que o indivíduo contemporâneo não estaria disposto a sofrer (Lejarraga, 2005). É comum acreditar que o amor seja capaz de combater a infidelidade.
Na verdade, estabelecer um relacionamento amoroso com outra pessoa não elimina o interesse amoroso ou sexual por outras pessoas (Amélio, 2001). Lemos afirma que "o amor, na verdade, não condiciona nada" (Lemos, 1994, p.102), ao se referir que nem sempre a expectativa amorosa de um parceiro corresponde à fidelidade do outro.
A personagem Violeta, da ópera de Giuseppe Verdi, La Traviata, canta: "Vivamos só para o prazer, porque o amor, como as flores, murcha rapidamente". É mais provável que Violeta esteja se referindo ao fenômeno da paixão do que ao amor propriamente dito.
O amor não é um fenômeno caótico. Não amamos qualquer pessoa indiscriminadamente. Cada relacionamento amoroso constituído é uma díade que se forma a partir de pessoas que se escolhem por alguns princípios que regem essa seleção de parceiros (Almeida, 2004). Também se costuma esperar que haja uma relação entre comprometimento e infidelidade. No estudo conduzido por Almeida em 2007, verificou-se que a idade está associada, ainda que de forma fraca, ao fator "comprometimento", ou seja, pessoas mais velhas tenderiam a estabelecer relacionamentos de forma mais comprometida. O estudo não conseguiu responder, entretanto, se parceiros infiéis são menos comprometidos que os demais.
Diversos são os fatores que predizem o compromisso para homens e mulheres (Fitzpatrick & Sollie, 1999). Alguns deles, como o nível de satisfação, grau de investimento afetivo ou alternativas entre o parceiro e um possível rival tornam-se melhores preditores para o compromisso de mulheres do que para homens.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora a vida amorosa contemporânea seja marcadamente diferente da vivida por gerações anteriores, elementos tradicionais, como o ideal de amor romântico e o desejo de fidelidade amorosa, ainda permanecem.
A infidelidade não corresponde, necessariamente, ao fim do amor. Os motivos que levam alguém a trair podem ser os mais evidentes como também os mais íntimos e aparentemente inexplicáveis. Na maioria das vezes, o parceiro que se envolve com outra pessoa não está se sentindo ouvido e respeitado, passando a ter a necessidade de avaliar seu poder de sedução.
A infidelidade, na maioria das vezes, acontece pelo adormecimento do relacionamento quando do desgaste proporcionado pela sensação de posse do outro.
Embora a descoberta da infidelidade possa ser uma das experiências mais devastadoras, pode ser, além disso, sintoma de que o relacionamento não vai bem. Nesse sentido, o que faz alguém procurar outra pessoa é a necessidade do novo, não a falta de amor ou de estimulação sexual.
Quando falta comunicação e os parceiros esquecem que o amor é uma construção diária, a atração é colocada em cheque. É preciso, portanto, que todos os dias o relacionamento seja alimentado, com os desejos e vontade de cada um dos parceiros, e que haja principalmente o diálogo, pois somente dessa forma é possível lidar com o terrível sentimento de posse que tanto mina as relações e se torna um dos principais fundamentos para o medo da infidelidade e seus mitos. PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 |