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Corpo, tempo e envelhecimento
O envelhecer ganha novos parâmetros e possibilidades, embora a dificuldade em compreender e abrir espaço para a velhice, a exemplo do que já se apresentou na Psicanálise, continue vigente na sociedade

Por Miriam Fichman Fainguelernt

Miriam Fichman Fainguelernt é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e coordenadora do Grupo de Estudos Psicanálise e Envelhecimento.

A atitude da Psicanálise em relação ao envelhecimento tem sido paradoxal. Durante muitas décadas os psicanalistas mostram-se desencorajados a aceitar para tratamento pacientes em idade avançada. Justificavam-se com a afirmação de Freud em seu texto On Psychoterapie (1955) de que, aos 50 anos, a rigidez dos mecanismos de defesa, somada à quantidade de material a ser elaborado e ao fraco impulso da idade para manter a dinâmica da análise em movimento, era desfavorável. Curiosamente, suas restrições surgem num momento de intensa criatividade - ele próprio se aproximando dos 50 anos -, no qual ele também lidava com a perda de uma filha querida e com o diagnóstico maligno de sua doença.

Os idosos não eram elegíveis como objeto de estudo nas pesquisas freudianas. No entanto, em 1914 temos a importante afirmativa de Karl Abraham de que, para o êxito da Psicanálise, o primordial seria a idade em que surge a neurose e não a idade na qual se inicia o tratamento.

Na pós-modernidade, o visual é posto acima de tudo. O corpo é antes de mais nada imagem. E a imagem exigida pela mídia e internalizada pelo coletivo é aquela moldada dentro de padrões muito rigorosos, nos quais o envelhecimento não se encaixa.

O desespero subjacente a esse olhar é enorme, é a experiência do vazio interior, de uma escultura de músculos que, como uma sobrecarga, envolve o corpo e esconde o oco que revela ninguém... (Dias, Marly). Há uma busca desesperada pela beleza e a satisfação. A velocidade e a fragilidade dos relacionamentos se dão com uma hiper-sexualização que busca apenas o prazer e a partir da qual é proibido e feio envelhecer, exibir e aceitar os sinais do tempo.

A VELHICE ESTÁ NO OUTRO
A passagem do tempo é vivenciada com desconcerto. O indivíduo não reconhece em si as metamorfoses advindas, passo a passo, com a senescência. Reconhece-as no outro.

É o outro que envelhece. Mas com surpresa, não mais que de repente, ele vê sua velhice no olhar do outro, que tal como um espelho lhe retorna aquele "estrangeiro" no qual se tornou (Rosely S. Matheus Peres).

Simone de Beauvoir expressou-se dessa forma: "(.) Em mim, é o outro que é idoso, quer dizer aquele que eu sou para os outros e esse outro sou eu".

Existe uma recusa ou mesmo um horror ao envelhecimento. A negação da realidade ocorre face às mudanças angustiantes que despertam a todo momento a ameaça de morte.

O sujeito passa não só a negar a realidade vivenciada, como a desinveste, num movimento defensivo de evitação.

A angústia nesta fase pode ser intensa e pode precipitar um desequilíbrio. Os mecanismos de defesa operam em forma sucessiva em vez de simultaneamente, o que pode levar à descompensação.

É uma fase na qual acontece a perda do cônjuge, da auto-estima, a restrição que limita qualquer tipo de desejo, as enfermidades físicas e atitudes da família e da sociedade. Tudo isso pode resultar em um estado depressivo (Krassoievitch).

"NESSA FASE PODE APARECER, POR CONTA DAS PERDAS, LIMITAÇÕES DO CORPO E ATITUDES SOCIAIS, UM QUADRO DEPRESSIVO"

Observam-se pessoas que se sentem jovens e ainda não se reconhecem em um corpo que não lhes parece seu. Mas não é só o corpo que se torna morada incerta. Incerto é o momento em que a chamada vida ativa já se transformou para a maioria em tempo livre e em perda da identidade profissional.

O adolescente se pergunta: "O que eu vou ser quando crescer?"; porém, o que ele será quando envelhecer? É uma questão nova (Rosiska Oliveira).

Incerto é o momento em que a chamada vida ativa se transforma em tempo livre e perda de identidade profissional

O ESPELHO DE NARCISO
As formas contemporâneas de reação à perda são superficiais, quase não se faz o trabalho de luto, exige-se rápida substituição do objeto perdido, uma restauração narcísica imediata.

"O que as pessoas desejam não é a vida fácil e pacífica que nos permite pensar sobre uma condição infeliz... Mas a agitação que conduz nossa mente para longe e nos distrai..." (Bauman, S.).

A morte e a tristeza foram afastadas da vista dos homens e das mulheres contemporâneos, "não são mais visíveis". A vida é vivida de um dia para outro, até que, por curiosa coincidência, não mais há dia seguinte (Bauman, S.).

Percebe-se nesta fase uma urgência em competir, uma hiperatividade no campo intelectual, profissional ou sexual, podendo resultar da necessidade de revigorar a autoestima face à decrepitude e à imagem de desvalorização do envelhecimento.

Há a tendência em se "patologizar" e "psiquiatrizar" os sentimentos de tristeza, enfraquecendo seu aspecto positivo, mesmo quando "os movimentos depressivos" fazem parte de uma elaboração psíquica (Rocha, Fernando).

O repúdio ao envelhecimento, muitas vezes, está no próprio velho, aprisionado e enamorado de sua imagem juvenil (como Narciso). Há pessoas que carregam dificuldades sexuais desde períodos primitivos e aproveitam a diminuição de suas capacidades para liberarse de um aspecto fastidioso em suas vidas. As próprias pessoas envelhecidas têm interiorizado que sexo em sua idade é inadequado.

O tempo na idade avançada pode ser vivenciado como perseguidor. Mas, quando falamos dessa fase da vida, de que tempo falamos? Um conceito de tempo cronológico ou um tempo fundamental, imensurável? Meia-idade, idade avançada, terceira idade, idade, velho-jovem, velho- velho, o que é ser de idade? Como definir a velhice? Quando é que se fica velho?

A velhice parece não ter um momento preciso para acontecer. Cada um inaugura seu tempo de ser velho, quando este lhe é imposto pela sociedade, por sua cultura, pelo organismo biológico.

O conceito de tempo, no idoso, aparece muito associado a outro: o de finitude. Portanto, seu tempo é o tempo que finda, experimentado como um processo inexorável de preparação para a morte, que se instaura ao longo da vida, mas que, na velhice, toca a dimensão do real.

Na clínica, observamos pacientes que se consideram eternamente jovens. Buscam a infinitude do tempo em análises prolongadas. Não se apressam em utilizar o recurso do processo analítico, especializando- se em adiamentos, deixando as decisões e as mudanças para um futuro eterno, a ponto de desconhecerem o tempo em que estão. Negam o avanço da idade pessoal e a idade do analista.

Nesta fase as pessoas de idade tendem ao retraimento, vivem num estado de perda de controle e de incapacidade de manter a ordem interna. Ameaçado o equilíbrio psíquico, o desejo de morrer pode se tornar intenso e até a idéia de suicídio pode chegar.

A projeção é utilizada para descartarem-se da angústia diante das próprias deficiências.

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