editora Escala
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000    
 
Filosofia  
 
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

Comprar: brincadeira de criança?
Tidos como a geração mais rica e influente de todos os tempos, crianças e adolescentes capitalizam cerca de 1,18 trilhão de dólares por ano

Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

shutterstock

"Eles estão mais propensos a ter um amigo no outro lado do mundo do que na própria rua. Ficam pra morrer quando a bateria do celular está fraca e conhecem imagem de marcas melhor do que qualquer especialista em anúncios." É com essas palavras que Martin Lindstrom, consultor da Fortune 500 (lista publicada anualmente na revista Fortune, que reúne as 500 empresas estadunidenses mais ricas), se refere aos tweens: público entre 8 e 14 anos, não totalmente criança, nem adolescente. No artigo "Marca não é mais brincadeira de criança" - publicado, em 2004, no Journal of Consumer Marketing -, o mesmo Martin se refere ao grupo como a geração mais rica e influente de todos os tempos. "Eles têm argumentos bem planejados para ajudar a assegurar que as despesas da família estarão de acordo com seus interesses." O autor recorre a estudo desenvolvido em 1999 pelo Centro de Política Pública de Annenberg. A pesquisa mostra que as crianças gastam 60% a mais de tempo por ano assistindo à televisão que permanecendo na escola. Também aponta que, há mais de três décadas, as despesas dos pequenos dobram brutalmente a cada dez anos. "Hoje, estima-se que este segmento-controle influencie sozinho espantosos 1,18 trilhão de dólares por ano através do próprio dinheiro e da influência que têm sobre as compras dos pais."

De início, o objeto remete a uma sensação de satisfação, mas depois de comprado, perde a importância e é substituído por um novo desejo
Consumo e Consumismo
Consumo é a atividade econômica fundamentada na utilização direta das riquezas geradas e, por isso, pressupõe racionalidade em sua prática. Consumismo é o ato de adquirir produtos e serviços de maneira compulsiva, sem necessidade ou consciência.
Fonte: Instituto Alana

De coprovedoras a consumidoras
Vários fatores estão relacionados a essa participação ativa das crianças na economia global, entre eles o fato de deixarem de trabalhar para ficarem focadas nos estudos. Isto é o que mostra o artigo "Crianças na economia familiar do século XX: de coprovedoras a consumidoras", veiculado no periódico History of the Family, em 2004. Feito com base em estudo desenvolvido na Escola para Pesquisa de Ciências Sociais, na Holanda, o texto aborda essa transição de papéis, iniciada no final do século XIX e consolidada nas décadas de 1960 e 1970. "O desenvolvimento ocorreu de forma gradual e as mudanças foram verificadas antes nas famílias de classe média e depois nas operárias."
A maior liberdade dos pequenos para gastar dinheiro veio com a consolidação do capitalismo, alicerçado no consumo. Para a psicóloga Andréia Mendes dos Santos, essa relação hipervalorizou o ato de comprar. "O sujeito de hoje está se adaptando às transformações no mundo. Encontra-se com dificuldades de suportar sua própria frustração e se relaciona superficialmente com os objetos que adquire. De início, eles remetem a uma sensação de satisfação, mas, depois de comprados, perdem a importância, sendo substituídos por outro desejo de consumir", opina ela, que é doutora em serviço social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Eliana Atie, membro da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), ratifica o discurso de Andréia: "É comum nos vermos compelidos a preencher nossos vazios apressadamente. Se nós, adultos, fazemos, imagine as crianças, que não têm maturidade suficiente para ponderar. É um quero-quero sem fim". De acordo com a psicanalista, a busca por uma sensação de completude está intimamente relacionada à experiência de nascer. "Quando deixa o útero materno, cada indivíduo passa a querer recuperar esse estado nirvânico. Em alguns momentos, essa necessidade de completude pode estar associada ao desejo de possuir algo."
Na opinião da psicanalista, é natural que, em alguns momentos, o ato de consumir se manifeste de forma exagerada na vida de um indivíduo. Entretanto, ele se torna nocivo quando é distorcido, passando a substituir um vazio que, antes, era preenchido com passeio ou um piquenique com os pais, por exemplo. "Por trás de cada objeto, há um significado, que pode ser uma resposta à ausência da pessoa que não está por perto. Recebê-lo é ter certeza de que a pessoa estará de volta e um vazio será preenchido."

valor da marca
Para Eliana, as crianças de hoje não são consumistas e, sim, "demandantes", termo que atribui aos apelos publicitários para adquirir produtos com o fim de adquirir um status. "No passado recente, todas meninas queriam ser 'xuxas' e, para fazer parte do grupo, tinham que se vestir como a apresentadora", diz. Segundo ela, esse valor simbólico dos produtos é entendido pelas crianças, ainda que de maneira rudimentar. "São pequenas, mas sabem o que as torna poderosas. Se tiverem de escolher entre a Hello Kitty e uma boneca de pano, provavelmente escolherão a primeira, mesmo que a segunda seja mais bonita."
De acordo com o estudo intitulado "O significado do nome das marcas para crianças: uma investigação em desenvolvimento", essa relação ocorre em três estágios. Primeiro, os pequenos reconhecem nos nomes um caminho para identificar um produto específico e uma categoria. Em seguida, irão ver a marca como um elemento único, distinta da embalagem e do produto. Feita essa separação, os consumidores mirins começam a pensar sobre o nome da marca de forma mais abstrata, partindo para características não-observáveis ou associações, como qualidade e prestígio. O texto também aponta outro fator que interfere nesse relacionamento: a idade de quem compra. "Crianças se tornam mais afinadas com os significados conceituais e sociais do estímulo ao consumo na medida em que se tornam mais velhas, pois acumulam mais experiência e têm mais oportunidades de ver o produto sendo usado no contexto social", diz o artigo, publicado em 2003, no Journal of Consumer Psychology.
Já o artigo "O uso do simbolismo da marca pelas crianças - um aprofundamento da teoria da cultura do consumidor", veiculado este ano no European Journal of Marketing, constatou que, para os adolescentes, marcas são sinônimo de entretenimento e diversão. Os autores do estudo verificaram que a aceitação ou rejeição de marcas simbolizam ritos de passagem para ingressar em um grupo e também a existência de um conflito entre o discurso dos anúncios e o de professores e pais. A investigação foi feita com 56 crianças de 7 e 8 anos, e 10 e 11, provenientes de duas escolas - uma privada e outra pública - situadas em uma cidade pequena do Reino Unido. Também foi destacado o fato de os participantes considerarem "estrelas do universo pop, ídolos do esporte, brinquedos eletrônicos, programas de TV e comerciais, formas de entretenimento igualmente válidas".

1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 45
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado


 
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000