editora Escala
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000    
 
Filosofia  
 
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

Memória: o fascínio da evolução biológica
Responsável pela aquisição, manutenção, gerenciamento e evocação de informações, a memória é muito mais do que simples lembrança, é uma mudança de comportamento. Conheça quais fatores envolvem o assunto e como se dá essa mudança

Por André Frazão Helene

Memória é certamente um dos produtos mais fascinantes da evolução biológica e, também, extremamente sofisticada e envolvida em uma enorme gama de processos fisiológicos. O que torna uma definição precisa do que é memória difícil de ser apresentada. De maneira bastante sintética, aceita-se que memória seja responsável pela mudança de um comportamento a partir de uma experiência anterior. Memória tem a ver com mudança e entendê-la envolve saber como se dão tais mudanças.

É importante ressaltar que os sistemas e processos chamados de memória são aqueles responsáveis pela aquisição, manutenção, gerenciamento e evocação de informações. A partir disso, o conceito de memória deve ser expandido para muito mais do que se costuma chamar de lembrar, ligado à evocação de fatos e eventos vividos.

É sempre delicado transpor termos e conhecimentos acadêmicos para um formato mais abrangente: há uma perda de informação e precisão nesse processo, uma contaminação do significado científico, de termos mais ou menos precisos, pelo significado que as palavras têm normalmente no uso diário que fazemos delas. Isso também ocorre com o termo memória.

Apesar disso, esse esforço é obrigatório para qualquer um que queira transformar o conhecimento obtido em laboratório em algo que possa estar presente na vida das pessoas.

ONDE ESTÁ A MEMÓRIA NO CÉREBRO?
O funcionamento da memória está diretamente ligado à atividade eletroquímica das células neuronais. Wilder Penfield exemplificou, na década de 1930, com estímulos elétricos na superfície do córtex de pessoas acordadas. Eram relatadas recordações de fatos que há muito tempo não lembravam, assim como variadas experiências alucinatórias. O resultado dessa experiência mostra que a memória está expressa no conjunto específico e, ao mesmo tempo, na forma como as células neuronais - que compõem nosso sistema nervoso - serão excitadas.

Cada um desses neurônios envia projeções para milhares de outros neurônios que, por sua vez, recebem projeções de outros milhares de neurônios. Formam, assim, redes específicas ligadas a memória, também específicas, e uma enorme variedade de processos e elementos químicos ligados a esse processo. É nas sinapses (região de contato entre dois neurônios) que acontece o controle de qual ação que um neurônio terá sobre o próximo nessas redes.

Pode-se dizer, de maneira simplificada, que essas sinapses efetuam o controle da atividade do próximo neurônio da rede através da quantidade, forma e tipo de neurotransmissor liberado. Essas variações modulam a atividade do próximo neurônio, e assim por diante, representando um fato, uma ação ou uma sensação. Esses processos químicos são fundamentais para a memória e fazem parte de um conjunto grande de fatores que fazem com que certas redes sejam mais facilmente percorridas por esses disparos elétricos que outras, estabelecendo a existência de memórias.

Isto não quer dizer que todos os neurônios do sistema nervoso estejam associados a todas as memórias. Suas diferentes áreas estão ligadas a diferentes funções. Assim, segundo o exemplo de Penfield, se fossem estimuladas as áreas corticais mais posteriores, seriam relatadas experiências, inclusive memórias visuais. Isto ocorre porque a região mais posterior do córtex recebe estimulações originadas da atividade das células da retina e está ligada tanto à interpretação quanto ao arquivamento de informações visuais.

shutterstock
Atividades da memória
H. Ebbinghaus (1885) foi o fundador da pesquisa experimental da mem ória e definiu suas principais atividades: 1) o reconhecimento; 2) a recordação de percepções na forma de representações. O reconhecimento é posto à prova pela escolha de elementos apresentados antes de uma coleção de elementos antigos e novos.
A recorda ção, pela reprodução na chamada livre recordação ou após associação aos pares, em que se deve mencionar (mais raro mostrar) o segundo membro após a apresentação do primeiro. Em 1922, Kroh, entre outros, relatou desempenhos extraordinários de memória (de um assim chamado artífice de cálculo).
Dicionário de Psicologia Dorsch (Vozes, 2008)

Essas memórias, expressas nas regiões perceptuais, se alastram na forma de atividade elétrica dos neurônios, ativam áreas chamadas associativas e recebem estimulação de diferentes áreas perceptuais (visual, olfativa, auditiva etc.). Nessas regiões, da mesma forma, também ocorrem processos de formação de memórias, mas agora multimodais. O exemplo mostra claramente que, apesar de haver uma especialização das diferentes áreas, em última instância todas as regiões do sistema nervoso estão ligadas à formação de memória, de diferentes formas. Mais do que procurar por sítios de memória hoje se tenta entender os processos de formação de memórias, em quaisquer regiões que eles ocorram.

OS TIPOS DE MEMÓRIA
Do ponto de vista evolutivo, ser capaz de antecipar quais as conseqüências de certos atos ou experiências pode ser uma característica muito vantajosa e selecionada evolutivamente. Nesse sentido, integrar o conceito de evolução à psicologia cognitiva permite visualizar requerimentos específicos para um ganho na solução de problemas.

Inúmeros pesquisadores, por pensarem dessa forma, foram levados a propor a existência de conjuntos de habilidades, inclusive de memória, que poderiam ser identificadas como produto de uma seleção natural, chamados módulos de memória.

shutterstock

Parece haver, na história, uma convergência na aceitação de que tais módulos se expressam nas relações temporais do arquivamento de memória e no grau de consciência em que se tem acesso dessas memórias. É possível pensar que haja um "módulo" de memória associado a curtos períodos de tempo e, outro, a longos períodos de tempo de retenção, um tipo de memória de acesso consciente (dita explícita) e outra inconsciente (implícita). Apesar dessa descrição, excessivamente esquemática, não é um erro afirmar que estas relações revelam parte do que está descrito no modelo de sistemas de memória.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 45
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado


 
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000