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Linguagem como comportamento
A fala como um tipo de comportamento social regido por regras para uma interação direta com o ambiente

Por Alessandro Vieira dos Reis

Todos falam bobagens de vez em quando. Mesmo os grandes gênios. Voltaire, por exemplo, disse que todos os macacos poderiam falar. Só não o fazem porque sabem que seriam explorados como força de trabalho pelos seres humanos.

A curiosa abobrinha de Voltaire chama a atenção por dois pontos: o filósofo pressupõe que há pensamento sem fala (pois o macaco decide não falar após certa reflexão simiesca) e que, ao se comunicar pela fala, passa a pertencer à esfera humana do trabalho, isto é, no modo de vida social. Esses são dois dos pontos sobre os quais este artigo trata. A palavra, seja ela falada ou escrita, é de vital importância para os filósofos, mas também para cientistas do Comportamento.

O Behaviorismo Radical oferece uma abordagem funcionalista da linguagem. O psicólogo B. F. Skinner, em Questões recentes em análise do comportamento (Papirus Editora, 2006), explica como a filosofia clássica sempre tratou a linguagem como uma apreensão do mundo por meio de "cópias de segunda mão" (as palavras), organizadas em um sistema representacional subjetivo (a linguagem impressa na mente). "Segundo o ponto de vista comportamental, a direção da ação é exatamente reversa."

A Teoria da Informação pressupõe que emissores e receptores se comunicam pela transmissão de sinais, conteúdos. Skinner defende que essa visão lida apenas com o aspecto estrutural da linguagem - por exemplo, de sua gramática ou vocabulário -, mas não dá conta de explicar como e por que ela funciona.

Os episódios de fala são entendidos, para um analista do Comportamento, como ações modeladas por contextos sociais próprios do convívio em uma comunidade verbal específica. Em outras palavras: a fala não é um processo metafísico de absorção e tradução da realidade, mas um tipo de comportamento social que permite acesso indireto (através do ouvinte) a certos elementos do ambiente.

Falar é um tipo de comportamento, não distinto de outros. Para alguns filósofos, como Voltaire, a linguagem é um tipo especial e em tudo distinto da ação humana, com regras particulares e que torna o homem separado de toda a natureza. Essa visão filosófica é herdeira da teologia judaico-cristã, pela qual o poder divino, do qual o homem foi partícipe e pode voltar a ser, era expresso por meio do Verbo, isto é, palavra em ação.

VOLTAIRE ACREDITAVA QUE A LINGUAGEM ERA UM TIPO ESPECIAL E EM TUDO DISTINTO DA AÇÃO HUMANA, COM REGRAS PARTICULARES

Sendo comportamento, a fala consiste na emissão de ações verbais, Respostas contextualizadas ambiental e historicamente, Situação Anterior, e que gera conseqüências, Situação Posterior.

Afinal, como entender a natureza da fala? A resposta comportamental, levando em conta sua função social iminente, está na compreensão do ouvir. Só falamos porque estamos imersos num contexto de regras culturais onde a fala é reforçada por quem exerce o papel de audiência. A existência de uma audiência reforçadora é a Situação Anterior fundamental para emissão de Respostas de fala, pois garante reforço como conseqüência na Situação Posterior. Dizendo de outra forma: nenhuma palavra ocorre em um vácuo de influências. Antes, o comportamento verbal é fortemente determinado pelas circunstâncias em que ocorre.

Para Voltaire, todos os macacos poderiam falar, não o fazem para não serem explorados pelo homem

TIPOS DE COMPORTAMENTO VERBAL
Skinner define o comportamento verbal, no livro Sobre o behaviorismo (Cultrix, 2006), como "todo aquele que afeta o ambiente influenciando o comportamento de um ou mais ouvintes". Suponhamos que você dê bom dia a um estranho na rua. Talvez seja provável que a pessoa fique surpresa e se sinta impelida a reagir de alguma forma. Talvez ela retribua o bom-dia. Talvez fique ruborizada ou faça uma careta. Mas, de qualquer forma, você afetou seu comportamento falando.

Agora se atenha a uma situação imediatamente concreta: você está lendo este artigo. Certamente está. Emiti comportamentos verbais (no caso, digitei uma série de palavras em um computador) e, mesmo não havendo contato físico entre mim e você, leitor, minhas palavras estão influenciando seu comportamento, seja incitando idéias, propondo reflexões, gerando um risinho discreto ou uma careta de discordância.

Isso é verdadeiro mesmo para um caso curioso de comportamento verbal: o solilóquio. Trata-se de um episódio verbal em que o falante e o ouvinte são a mesma pessoa. Um exemplo de solilóquio: pense em uma pessoa em dieta, sozinha diante da geladeira aberta, repetindo em voz alta: "Não vou comer esse doce".

Novamente: falar é exercer poder sobre o comportamento de quem ouve. A linguagem trata- se, funcionalmente, de uma ferramenta pela qual podemos influir em nós mesmos e nos outros e apenas por meio de vocalizações ou escrita, sem precisar operar diretamente nas circunstâncias físicas. Se digo "por favor, acenda a luz", essa declaração funciona como o que Charles Catania chamou de "mando", isto é, um comportamento que envolve uma necessidade do falante, seguida de uma resposta verbal sua e as conseqüências geradas pelo controle da ação do ouvinte.

Uma outra função da linguagem é aquilo que Skinner chamou de tato. Metaforicamente, usar a palavra para tocar a realidade, descrevendo-a. Podemos fazer uma variação do exemplo anterior. Digamos que alguém diga: "Caramba, como é difícil enxergar nesse escuro. Vou voltar a estudar amanhã pela manhã". Então outra pessoa diz: "Nossa, é verdade. Eu também não gosto de ler de noite por isso". Essa sentença funciona como um tato, uma vez que o ambiente sinaliza uma oportunidade para falar, e a mudança produzida no ambiente é, simplesmente, a interação com o ouvinte.

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