Sociedade Mal-entendido amor Como reconhecer o ciúme normal e diferenciar o limite entre o que é adequado em uma relação e o que é fruto de uma mente insana
A população brasileira tem assistido a vários fatos estarrecedores, noticiados e explorados pela mídia, de violência familiar e crimes passionais, envolvendo pais e filhos. O último, de grande repercussão, é o caso Eloá e da sucessão de mal-entendidos e erros na condução do possível resgate. Conhecendo melhor os antecedentes, a pergunta que se impõe é como uma adolescente de 12 anos se envolve com um rapaz de 19 em uma relação de três anos, é seqüestrada e morta por ele, sem que nada pudesse ter sido feito para evitar sequer o relacionamento ou o desenlace.
A avó, em entrevista para a imprensa, afirmou que Lindemberg disse estar apaixonado e que se casaria com Eloá. Mesmo admirada na escola e considerada uma garota bonita e disputada pelos rapazes, Eloá seguiu até o fim ligada a seu algoz. As informações disponíveis são de que a relação era tumultuada por brigas, mas ele sempre voltava como se nada tivesse acontecido. Quando Eloá rompe o namoro, Lindemberg passa a segui-la, tendo inclusive a agredido na rua, segundo declaração da mãe, e ameaçado seus amigos. A moça teria ligado para o pai, Everaldo, pedindo que ele registrasse um boletim de ocorrência na polícia, e o rapaz, então, ameaça o pai de que isso poderia prejudicá-lo. Everaldo deduz, portanto, que Lindemberg sabia do seu passado.
Aos poucos, no desenrolar da tragédia, o mundo de Eloá é desvelado, seu ambiente familiar pontuado pela violência, de um pai condenado por crimes, apresentado pelos veículos de comunicação como cabo expulso da polícia militar, pertencente a grupo de extermínio no Nordeste, acusado de ser o próprio executor das mortes e foragido da justiça, adotando nome falso.A adolescência é o período de reviver as fantasias da infância ligadas aos primeiros objetos de amor, a mãe e o pai, conhecida configuração triangular descrita por Freud como complexo de Édipo.
A entrada em atividade dos hormônios, proporcionada por uma série de glândulas, promove o crescimento corporal e sexual, porém o emocional é mais lento e de maior complexidade. É o momento dos sonhos e devaneios, da busca de amizades, mais precoces na menina do que no menino. As primeiras experiências, desde o nascimento do bebê, marcam os primeiros traços dos padrões de relacionamento amoroso, que a pessoa desenvolverá na vida adulta e é na adolescência que são testados e revividos com os objetos fora do ambiente familiar, no mundo da cultura.
Eloá era muito querida e admirada pelos colegas, segundo as professoras, e desempenhava-se bem na escola. Contava também com a fiel amiga Nayara, que a acompanhou até o fim, com quem certamente trocava seus segredos e suas expectativas florescentes de uma vida amorosa feliz, como comprovam as belas fotos de ambas, entre poses e sorrisos. Paralelamente a esse mundo, havia para Eloá, porém, um lado escuro: um pai portador de armas, matador, procurado pela polícia há 15 anos, portanto, desde o seu nascimento.
Esse "engrama pictográfico", segundo definição da psicanalista da escola francesa Piera Aulagnier que descreveu com precisão os registros originários dos primeiros meses de vida seria fatal e certamente facilitou a entrada de Lindemberg na vida de Eloá e no ambiente familiar, a ponto de ele desafiar e avisar a todos que faria "uma besteira" e, mesmo assim, continuasse a perseguir a menina e a sair com seu irmão.
Objeto de Amor
Freud descreveu a escolha do objeto de amor de dois modos: anaclítico e narcisista. Com base na observação da vida erótica dos seres humanos, ele afirma que as primeiras satisfações sexuais auto-eróticas são experimentadas em relação às funções vitais que servem à finalidade de autopreservação, o amor ligado ao cuidado e proteção proporcionado pela mãe ou substituta. Esse seria o padrão para a escolha de modo anaclítico ou "de ligação". No segundo modo, do tipo narcisista, a pessoa sofreu uma perturbação em seu desenvolvimento libidinal e, em conseqüência, faz escolhas centradas em seu próprio Eu. Freud afirma em Obras Completas de Sigmund Freud (Imago Editora, 1974): Procuram, inequivocamente, a si mesmas como objeto amoroso e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista. De acordo com o tipo narcisista a pessoa ama:
a) a ela própria
b) o que ela própria foi
c) o que ela gostaria de ser
d) alguém que foi uma vez parte dela mesma.
Lindemberg tinha, em Eloá, tudo o que ele gostaria de ter: beleza, prestígio, amigos, família, colegas dedicados. No momento em que Eloá rompe o namoro, seu mundo cai e ele não encontra mais referência para sua não-existência, já que todo o seu Eu estava identificado com ela, eleita como seu próprio ideal. Esse Eu ideal passara a ser o alvo de seu amor por si próprio. Daí ele afirmar à mãe de Eloá, no contato por telefone após o seqüestro, que ela já o havia destruído e que ele a odiava e por isso a mataria. Acrescente-se que a mãe o chamava "meu filho".
A questão que se coloca é como diferenciar o limite entre o que é adequado num relacionamento amoroso e o que é fruto de uma mente insana. O amor não mata, o problema é que só ficamos sabendo depois. Toda a demanda de amor visa a recobrir a falta-a-ser do sujeito, uma vez que o amor fornece a ilusão de recobrir nossa falta estrutural, nossa precariedade e nosso limite. Apaixonar-se é reacender a esperança da completude, mas é também expor-se ao risco da perda. Daí porque amor e ódio transitam juntos, o que levou Lacan a criar o termo "amoródio".
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Nayara era a fiel amiga e confidente de Eloá, e permaneceram juntas até o fim do desastroso seqüestro |
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