Entrevista Miguel Nicolelis Neurociência para todos Médico e neurocientista, Miguel Angelo Laporta Nicolelis preferiu optar por um lugar onde tivesse, além de recursos técnicos de ponta, mais oportunidade de ser criativo
por Rose Campos
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Rose Campos é jornalista e escreve sobre Psicologia.
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Miguel Nicolelis aprendeu desde cedo, ainda na USP, que a ciência não se faz com protocolos, mas questionando-os e abrindo novos caminhos. Desta forma, consegue ir mais longe do que talvez ele próprio tenha imaginado. Hoje, Nicolelis lidera um grupo de pesquisadores da área de Neurociência da Universidade de Duke, em Durham, nos Estados Unidos, cujo principal objetivo é, por meio de interações entre o cérebro humano e máquinas, devolver a pacientes com algum tipo de paraplegia a capacidade de mover seus membros e possivelmente se locomover.
Quando isto acontecer - e há indícios de que não estamos tão distantes desse dia -, será mais um grande limite transposto pela ciência. Ou a transposição para a realidade de algo que só parecia possível dentro do repertório mais ousado da ficção científica. Tanto que as neuropróteses, ou braços robóticos de movimentos controlados por sinais cerebrais, trabalho que ele assina como responsável, figuram hoje na lista do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) como uma das tecnologias que devem mudar o mundo.
Não é pouca coisa. Para Nicolelis, grandes mudanças implicam também educação. Por isso, criou, junto com outros colegas, um Instituto Internacional de Neurociências no Brasil. Porém não em São Paulo ou no Rio de Janeiro, principal eixo de conhecimento e econômico do país, mas numa cidade nordestina. Natal, no Rio Grande do Norte, foi o local escolhido para sediar o projeto, que já começa a dar seus frutos.
O renome deste neurocientista hoje não se restringe ao Brasil, seu país de origem, nem aos Estados Unidos, onde trabalha há mais de duas décadas. O cientista ganhou notoriedade mundial, já recebeu prêmios científicos em diversos países e foi convidado para criar também na Suíça um centro de pesquisas em Neurociências. A entrevista que você lê a seguir foi feita por telefone, em meio ao seu trabalho no Instituto Internacional de Neurociências em Natal.
Psique - O senhor começou a estudar computação aqui no Brasil numa época em que essa área ainda era incipiente. Como lhe ocorreu que pudesse aproximar o conhecimento da computação com a Neurociência?
Miguel Nicolelis - Por volta de 1984, 1985, computação e Neurociência de fato eram coisas bem separadas, tanto aqui quanto nos Estados Unidos. A noção de que poderia trabalhar com ambas conjuntamente começou quando se percebeu ser possível o processamento de sinais biológicos por sistemas computacionais. A grande revolução aconteceu, então, em duas áreas: com a construção de placas para registrar sinais biológicos e com o expressivo aumento da velocidade dos analisadores.Esses dois fatores combinados mudaram a forma como se encarava a computação em Medicina. Por coincidência, quando cheguei para trabalhar nos Estados Unidos, estavam tentando novas abordagens com o equipamento computacional recém-adquirido.
Psique - O senhor já mencionou algumas vezes a influência do dr. César Timo-Iária, neurofisiologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em seu trabalho. O que principalmente pôde aprender com ele?
Cada vez mais a Formação está restrita ao conhecimento técnico e a reprodução de métodos. é o cientista que sabe tudo de nada
Nicolelis - O dr. Timo-Iária não foi somente um pioneiro. Ele foi um cientista com visão humanista e um pesquisador diferenciado. Ele próprio já fazia uma distinção entre o pesquisador e o técnico. As pessoas cada vez mais possuem formação restrita ao conhecimento técnico e reproduzem métodos. Já o modo como o dr. Timo-Iária encarava a ciência era mais ampla e autônoma, com uma visão comparável à de um renascentista. Ele detinha vasta cultura em outras áreas, de um modo que eu nunca encontrei em outro pesquisador. Hoje, ao contrário, a tendência é a extrema especialização. Cientistas que sabem tudo de nada é o que mais se vê. Aprendi com ele a ver a ciência como um produto da nossa espécie e como algo que pode influenciar profundamente nossas vidas. Tive o apoio dele quando decidi que o que eu queria fazer em meu trabalho de pesquisa era algo muito diferente do que acontecia no main stream da época. Ele me avisou que haveria dificuldades e resistência e que muitos não iriam entender meus propósitos. Foi isso. Levou uns 20 anos para aceitarem que havia mérito nessa nova abordagem, tanto do ponto de vista conceitual quanto experimental.
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