Psicoterapia É Preciso ter FÉ Resultado terapêutico é melhor quando são levados em conta a crença e os valores espirituais do cliente
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Julio Peres é psicólogo clínico, doutor em Neurociências pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e pós-doutorado pelo Center for Spirituality and the Mind da Universidade Pensilvânia-EUA |
O interesse sobre a espiritualidade e a religiosidade sempre existiu no curso da história humana, em diferentes épocas ou culturas. De acordo com as estatísticas do World Values Survey, a massiva maioria da população mundial acredita na existência do espírito e sua sobrevivência após a morte. Uma pesquisa conduzida em 2007 pelo Datafolha mostrou que apenas 1% da população brasileira não acredita na existência de Deus, 21% não acreditam em vida após a morte e 44% não acreditam em reencarnação. A prevalência de práticas espirituais e religiosas é expressiva; apenas 7,3% da população não tem religião. O conjunto dos dados demográficos justifica a pertinência das psicoterapias em dedicar especial atenção a esse tema.
Crenças e práticas espirituais-religiosas constituem uma parte importante da cultura e dos princípios utilizados para dar forma a julgamentos e ao processamento de informações. Vários estudos demonstram que o conhecimento e a valorização dos sistemas de crenças dos clientes colaboram com a aderência do indivíduo à psicoterapia e, também, melhores resultados das intervenções.
Apesar disso, reconhecidas abordagens psicoterápicas como o Behaviorismo de Watson, a Psicanálise de Freud e a Terapia CognitivoComportamental de Beck não consideram em seus métodos a espiritualidade e a crença compartilhada pela maioria da população mundial, a sobrevivência após a morte. A contínua dicotomia entre espiritualidade e psicoterapias convencionais favoreceu a busca do grande número de pessoas por abordagens que consideram seus sistemas de crenças, causando o florescimento das Terapias Complementares no mundo.
Isso se deve em parte a uma linha histórica: a proposta original da Psicologia foi e é estudar e compreender o espírito - do latim: spiritus, que significa literalmente respiração, sopro. Os limitados métodos científicos dos séculos passados favoreceram o distanciamento da Psicologia em relação ao estudo do "não-palpável", enquanto a Medicina desenvolvia métodos para investigações do corpo (do latim: corpus, parte essencial). Hoje, continua óbvio que a Psicologia pode e deve investigar o espírito, e um número crescente de psicólogos se dedica a esse tema.
Benefícios para a saúde
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Freud considerava a religião como um remédio ilusório contra o desamparo |
Uma das primeiras discussões sobre religião no âmbito da Psicologia foi trazida por Freud, que a considerou como remédio ilusório contra o desamparo. A crença na vida após a morte estaria embasada no medo da morte, análogo ao medo da castração, e a situação à qual o ego estaria reagindo é a de ser abandonado. Atualmente, a experiência espiritual-religiosa deixou de ser considerada fonte de patologia e, em certas circunstâncias, passou a ser reconhecida como provedora do reequilíbrio e saúde da personalidade.
As teorias sociológicas atuais vêem a crença na vida após a morte como um componente central de muitos sistemas religiosos, fornecendo significado à vida atual com a continuidade na seguinte. Numa amostra nacional de 1.403 americanos, essa fé (ou crença inabalável) esteve positivamente correlacionada à qualidade de vida e especificamente relacionada com menor severidade de seis conjuntos de sintomas (ansiedade, depressão, compulsão, paranóia, fobia e somatização).
Estudos recentemente realizados sobre espiritualidade e religiosidade em amostras específicas (enfermidades graves, depressão e transtornos ansiosos) mostraram pertinência quanto à investigação do impacto dessas práticas na saúde mental e na qualidade de vida. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida revisou os estudos conduzidos nesse campo e revelou que, na maioria deles, níveis mais elevados da participação espiritual/religiosa foram associados a um maior bem-estar e saúde mental.
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