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Comportamento
Uma análise freudiana da obesidade
A patologia se mostra como a pandemia de uma sociedade moderna de consumo e de idealização do corpo

Por Raquel Berg

A obesidade ocupa um espaço impor- tante na sociedade atual. Em sua tra- jetória ao longo dos anos, ela deixou de ser vista como uma patologia ex- clusiva de pessoas de maior renda para se tornar uma epidemia que não escolhe cor, idade, sexo, classe social ou anos de estudo. Apesar de muitos estudiosos da área médica considerarem a obesi- dade como uma doença de cunho exclusivamen- te orgânico, a psicanalista alemã Hilde Bruch já havia levantado a possibilidade de o distúrbio ser trazido para o terreno das patologias alimentares.

Uma pesquisa desenvolvida recentemente no Instituto de Psicologia da USP examinou, a partir do referencial freudiano, como a obe- sidade se articula à busca por um corpo ideal e aos sintomas relacionados às patologias da ali- mentação. Para a sua realização, foram exami- nados textos freudianos juntamente com seus respectivos comentadores, e feita uma revisão da bibliografia existente.

No geral, sabe-se que a obesidade é resultado de energia excedente que leva a um acúmulo de gordura, e seu surgimento pode estar ligado a al- guns fatores como regulação metabólica, altera- ções endócrinas, suscetibilidade genética e quan- tidade de alimento ingerido. Entretanto, apesar de a obesidade ser o produto de vulnerabilidade genética associada a um ambiente promotor da doença, é alta a taxa de comorbidades psiquiátri- cas entre os pacientes que procuram tratamento, o que impede a completa exclusão de modelos psicológicos na compreensão dessa patologia.

Um dos métodos mais utilizados para a clas- sificação de uma pessoa como obesa é pela cor- relação peso-altura – Índice de Massa Corporal ou IMC. De acordo com o IMC, as pessoas po- dem ser sub-divididas em cinco categorias:

 

 

 

 

Faixa IMC
Sobrepeso Entre 25 e 29.9 kg/m²
Obesidade grau I Entre 30.0 e 34.9 kg/m²
Obesidade grau II Entre 35.0 e 39.9 kg/m²
Obesidade grau III > 40.0 kg/m²
Normalidade Entre 18,5 e 24,9 kg/m²

 

Em decorrência do aumento exponencial do número de casos, surgiram muitas formas de tra- tamento e prevenção da obesidade, como a inter- venção profissional, com o oferecimento de novos tipos de alimentos de baixas calorias, e também o uso de técnicas milagrosas para emagrecer. Além disso, a sociedade tem tentado se adaptar. Hoje, há uma quantidade infinita de alimentos de linha diet, mídias que oferecem técnicas para perder peso e orientações de saúde para aqueles que desconhe- cem as conseqüências do excesso de peso, além de comunidades virtuais e grupos anônimos.

A obesidade se tornou um paradigma não somente porque traz prejuízos à saúde, mas também porque ela é o oposto do estereótipo atual de corpo perfeito. Por um lado, esse dis- túrbio se tornou foco de preocupação dos pro- fissionais da saúde a partir do momento em que passou a ser relacionada com doença e morta- lidade. Criou-se um campo de trabalho acer- ca das causas e do tratamento, cuja principal preocupação é a perda de peso e a melhora das condições de saúde física — já que há um sofri- mento por trás da dificuldade em movimentos simples como abaixar-se ou sentar-se.

Por outro lado, os tratamentos tornaram-se um passaporte para alcançar um protótipo de beleza considerado ideal. Numa realidade em que o belo é o corpo magro, a impossibilidade de ter esse corpo traz um sentimento de inferioridade e culpa e, com isso, estratégias mais invasivas como a cirurgia bariátrica tornam-se uma opção atraente para atingir um ideal sem esforço, ainda que os objetivos dessa cirurgia sejam a redução de peso associada à melhora da qualidade de vida e à redução de comorbidades, tanto físicas quanto psicológicas.

Há diversas evidências de que a obesidade pode ser articulada à concepção psicanalítica de formação de sintomas. Ou seja, a proposta é mostrar que é insuficiente pensar nessa patologia somente a partir de um substrato orgânico. Para isso, é importante lembrar a questão da relação mente-corpo na formação de sintomas na histeria que, no final do século XIX, se apresentava como um enigma para o modelo médico por causa da ausência de um correlato anatomo-clínico que a explicasse. Na atualidade, em contraposição, o excesso de evidências anatomo-clínicas na obesidade poderia dificultar a identificação de fatores psicológicos ligados a esse quadro.

Raquel Berg é psicóloga e pesquisadora da Usp

 

Imagens: Shutterstock

No entanto, a recorrência de sofrimento psíquico após a cirurgia bariátrica possibilita considerar que a obesidade, assim como a histeria, destaca como a relação do sujeito com seu corpo está para além da noção de um corpo biológico. Assim, a relação entre corpo, sintoma e psique é tratada a partir dos estudos de Freud sobre a histeria. Para o autor, os sintomas evidenciados pelas pacientes eram frutos de reminiscências, o que quer dizer que os sintomas remetiam a lembranças de caráter singular. Segundo Freud: “Pode-se, portanto, dizer que as idéias que se tornaram patológicas persistiram com tanto vigor emocional porque lhes foram negados os processos de desgaste normais”.

A hipótese freudiana da formação da histeria se baseou na articulação entre uma situação traumática e a formação de sintomas, e esse trauma se caracterizava por uma situação na qual a pessoa não era capaz de lidar com a própria angústia decorrente daquela situação. No trabalho investigativo, é possível verificar que a obesidade surge após situações de muito estresse, como a morte de um ente querido ou uma experiência traumática.

Um único sintoma corresponde a diversos significados simultâneos e em sucessão, que correspondem a uma imagem que a pessoa faz de seu próprio corpo. Como o seu significado é flexível e mutável, o sintoma pode corresponder a diversos significados em diferentes períodos. Nesse sentido, as perturbações alimentares ocupam uma posição de cruzamento entre a infância e a idade adulta, entre o psíquico e o somático, entre o individual e o social. Essa posição de cruzamento indica uma possível ligação entre essas perturbações e as estratégias psíquicas para lidar com o processo de mudanças que implica em perdas, o que obriga o sujeito a comer para dar vazão às emoções.

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