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PSICANÁLISE
Família: a mola mestra da sociedade
Sob o ponto de vista da clínica psicanalítica, intercessões e problemas apresentados na família formam bases para uma sociedade limitada em seus relacionamentos e avanços. Uma reformulação pode conferir qualidade na dinâmica da vida

Por Alexander de Paula Barnabés

A família sempre será a base de uma sociedade e, principalmente, de um relacionamento. Quem não tem uma família estruturada, provavelmente enfrentará dificuldades, já que o ser humano é impulsionado pelos sentimentos e não avalia os valores da lógica, da compreensão e da limitação do indivíduo que está em foco. Ao contrário, é atraído pelo sexo, pela boa qualidade de vida, por aquilo que pode conquistar ou receber neste “negócio” chamado relacionamento.

Família – quem não teve ou tem a sua? Anexados vêm também os problemas, as complexidades e a dinâmica milagrosa de estabelecer relacionamentos com um grupo de pessoas que estão ligadas por laços de parentesco. Contudo, os indivíduos são obrigados a terem posições bem específicas dentro de um contexto histórico cultural. A palavra família é de origem latina e é usada para definir um vínculo doméstico, íntimo. Qualquer indivíduo, por mais isolado que seja, jamais estará separado da experiência dele em sua própria família. Assim, cada família terá sua própria definição e, certamente, estará passando longe das definições estabelecidas pelo historiador, sociólogo ou antropólogo (em relação a qualquer família aparecerão com a mesma freqüência as exceções e regras).

Família geralmente começa com dois integrantes, homem e mulher, que pelos seus sentimentos entendem que estão prontos para estabelecerem um laço, apesar de a família nuclear sofrer radicais transformações em relação ao número crescente de casamentos seguidos de descasamentos e recasamentos. O que cria uma nova composição familiar que nem sempre será formada mais por um homem e uma mulher, pois embora estejam ingressados num novo relacionamento não param para fazer suas reformulações, apontar seus erros e acertos cometidos no último envolvimento. E de uma forma natural assinam a responsabilidade de se envolver com outra pessoa sem ao menos fazer o levantamento da estrutura predominante no outro, e se de fato estarão compartilhando dos mesmos ideais, projetos e sonhos.

Simplesmente por um grito da solidão, homens e mulheres partem rumo a um infinito que será determinado pela “sorte”. Vivamos o momento é uma frase bem conhecida desses que gostam de viver assim. Os filhos precisam se adaptar sozinhos ao novo lar que agora será dirigido por alguém que nem mesmo se preocupa em fazer reformulações internas, mas sim externas. As pessoas se perdem em mais TER do que SER, formando e constituindo as bases da família em coisas fúteis que não oferecem resistência para as avalanches da vida.

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Alexander de Paula Barnabés é psicanalista Clínico e membro do Sindicato de Psicanalistas do Estado de São Paulo.

Transformações

O núcleo familiar tradicional, homem e mulher, sofreu grandes transformações na família ocidental.
É importante lembrar que atualmente novos laços familiares têm se formado a partir de uniões homossexuais, por exemplo.

A dinâmica do casal para a família tem a probabilidade de trazer para o jogo aspectos do relacionamento entre os pais, que eles não tinham vivenciado um com o outro da mesma forma antes. As pessoas ingressam na “instituição” da família pelo nascimento. É nesse ponto que o que tinha sido anteriormente à dinâmica de um relacionamento a dois (por si influenciado por figuras parentais internas) torna-se parte de uma realidade externa.

A “instituição”, então, já é uma composição de duas outras – a mãe e a família dela, o pai e a família dele. O nascimento do bebê deve ser visto como um tipo especial de acontecimento, já que marcará o início de dinâmicas que podem estabelecer padrões de relacionamentos bem específicos no futuro daquela família. Com o nascimento, um triângulo aparece no mundo externo, que começa a fazer parte do triângulo interno, ou fantasia compartilhada do casal. Agora que o triângulo é observável, começam a surgir os problemas concentrados nas composições de bases, ocorridas nos relacionamentos com os pais desses indivíduos, a possibilidade de exclusão, de trocas de pares, de vitimização, ciúme e competição são inevitáveis.

Começa o jogo. O nascimento do bebê pode provocar não só sentimentos bastante protetores, afetuosos, amorosos, como também sentimentos bastante infantis e dependentes. A sociedade começa a ficar fragilizada por esses aspectos, porque a criança passa a sofrer a carência dos pais e ter sua personalidade comprometida. A família é que molda a personalidade de uma criança fazendo-a ser o que somos hoje, dentro do aspecto de nossas emoções.

Um tipo especial de acontecimento é o nascimento do bebê. É ele que marcará o início de dinâmicas e padrões de relacionamentos

A vida começa a não ser articulada como deveria ser. Pais possessivos projetam filhos possessivos, pais doentes projetam filhos doentes, pais que não se realizaram travam o processo de dependência dos filhos, pois desejam que seus sonhos sejam realizados por meio das crianças. Não é dado o direito de desenvolver-se naturalmente com moldes normais e sugestões rasas. A criança passa a querer tudo, e tem tudo, mas quando não consegue ou não ganha tende a querer de qualquer forma, não mede esforços.

E assim, sucessivamente, a sociedade passa a perder a flexibilidade na chamada mola da sociedade. Em virtude desses distúrbios, a aparente fortaleza do adulto e a fragilidade do bebê não são as únicas e mais importantes das diferenças formativas. A família fica comprometida em gerar a cada dia seres comprometidos com a multiplicação desses atos, onde neste universo, a criatividade perde para a modernidade, o normal perde para o patológico, os pais perdem para os filhos e a sociedade geme pedindo socorro.

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