editora Escala
 

Psique  
 
 
 
 

 

Nichan Dichtcehkenian
A clínica do existir
Há décadas lecionando e atuando como terapeuta, o psicólogo Nichan Dichtchekenian tem seu trabalho apontado como referência dentro da perspectiva filosófica conhecida como Fenomenologia Existencial

por Fernando Savaglia

Fotos: Fabio Hurpia

Ele tomou contato com a Fenomenologia Existencial no final dos anos 1960.

Há quatro décadas, leciona a disciplina em universidades e atua como terapeuta, utilizando conceitos heideggerianos em sua abordagem clínica.

Carismático e comunicativo, Nichan Dichtchekenian construiu uma carreira que hoje é destacada como referência no que se conhece como Psicologia Fe- nomenológica.

Este paulistano filho de armênios assegura que a influência do trabalho de sua mulher, a falecida filóso- fa Maria Fernanda Dichtchekenian, foi determinante no direcionamento de sua trajetória como professor e como psico- terapeuta.

De acordo com o psicólogo,Maria Fernanda, na época, ainda jovem, estremeceu o curso de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ao defender em 1970 sua tese de doutorado, baseada na fenomenologia do filósofo Edmund Husserll.

"Percebemos que o conhecimento que ela nos trazia era algo absolutamente diferente, crítico e até contrário ao conhecimento tal como estava estabelecido para nós na época, focado principalmente na Psicanálise e no Behaviorismo".

Dichtchekenian explica que, ainda que houvesse muita consistência no que estudava, a Fenomenologia passou a fazer parte de sua vida principalmente por ele sempre ter sido uma pessoa interessada na reflexão filosófica. Analisado durante anos por Solon Spanoudis (1922-1981), fundador da Associação Brasileira de Daseinsanalyse (veja quadro a respeito), o psicólogo define a Fenomenologia como a restauração de uma pergunta crucial para o entendimento do lugar do homem dentro de sua própria existência.

"Nossa cultura esqueceu a pergunta sobre o 'ser', pois considerou resolvida a questão. O 'ser', de maneira equivocada, é classificado como tudo aquilo que pode ser mensurável, palpável, determinado, útil, etc. O 'ser', na verdade, não pode ser esgotado em nenhuma destas possibilidades, embora cada uma delas per- tença ao ser".

Para Dichtchekenian, "fazer Fenomenologia é a tarefa de se aprofundar na especificidade das coisas tal como elas se mostram". Mesmo após tantos anos lecionando e atuando como terapeuta, o psicólogo garante que sua motivação para responder as perguntas relativas à existência é constantemente renovada, "nada na Fenomenologia está estabelecido.

A sensação que tenho é que ela está sempre começando. Diariamente me sinto chamado e convocado na tarefa de ser fenomenólogo". Acompanhe a seguir uma entrevista com um dos mais reverenciados profissionais desta que é considera- da a mais filosófica dentre todas as linhas de psicoterapia.

Psique - O que diferencia a abordagem da Fenomenologia Existencial em relação a outras linhas de psicoterapias?
Dichtchekenian - Meu trabalho está ligado com a existência da pessoa, de que maneira essa pessoa dá conta de seu existir, suas limitações, medo da morte, angústias, etc. Como você lida com aquilo que determina você? O que você faz com aquilo que caracteriza você? Que tipo de decisões você toma ou não toma? Qual o sentido de você ser como você é? Porque se você é deste jeito é porque você realiza algo deste jeito, você está alcançando uma presença na vida.
Meu trabalho como terapeuta é primeiro acompanhar a pessoa no modo dela ser e convidá-la a se apropriar de quem ela é. Eventualmente, até poder alcançar outras maneiras de ser, mas o principal é estabelecer um contato mais rico possível consigo mesmo e compreender que aquele sentido não é uma negação das possibilidades, mas uma nova possibilidade de ser.

Meu trabalho como terapeuta é primeiro acompanhar a pessoa no modo dela ser e em seguida convidá-la a se apropriar de quem ela é

Psique - O que pode atrapalhar este processo de "apropriação"?
Dichtchekenian - Muitas coisas. O sofrimento vem quando temos uma relação muito distante de nós mesmos. Sofro por ter uma relação alienada, me guio por critérios absolutamente impessoais para me escutar, me ver e me tocar. Importante frisar que ninguém faz isso por imaturidade ou ignorância de se conhecer. Fazemos isso por ser uma alternativa que encontramos na existência para nos protegermos da angústia de sermos nós mesmos. Minha distância em relação a mim não nasceu de uma ignorância. Esta distância foi se estabelecendo a partir do ter de lidar com o fato de eu ser o protagonista da minha vida. Uma terapia é um convite à pessoa estabelecer essa apropriação no sentido mais pleno, nos acontecimentos mais simples e cotidianos da vida.

Psique - Como a Fenomenologia lida com as psicopatologias?
Dichtchekenian - São modos de ser. O fato de as pessoas viverem aquilo que identificamos ou descrevemos como neurose, não a tira da vida, mas a situa, isso sim, de uma determinada maneira. Mas se a neurose restringe a realização de suas possibilidades, é necessário compreender isso junto com o analista, e entender o porquê de a pessoa agir assim. Isso não quer dizer que assinamos embaixo algo como "sou um neurótico feliz". É importante analisar por que a pessoa só pode viver dessa maneira e a partir daí se preparar para experimentar novas maneiras de ser.

Psique - Como trabalhar, então, com pacientes que padecem de angústias profundas, como, por exemplo, aquela que a psiquiatria chama de transtorno do pânico?
Dichtchekenian - Para mim o pânico é claramente o prenúncio de uma transformação e, é claro, com todo o terror que essa transformação pode gerar. É o anúncio de uma nova possibilidade de ser, no sentido em que efetivamente essa nova possibilidade anuncia um risco real que é o de eu abandonar a entrevistafamiliaridade em relação a quem eu já sou.
É um amadurecimento para uma nova possibilidade. Esse amadurecimento não é percebido a não ser pela ansiedade. O pânico surge quando esse amadurecimento leva à determinada direção e tira você de algo familiar, seguro e conhecido.

Psique - Se olharmos por esta ótica, até o conceito de psicopatologia perde sua força...
Dichtchekenian - Não acredito que exista nada em nós que de repente comece a funcionar de uma maneira inadequada ou deficitária. Existe uma grande diferença entre atribuir aos seus processos psíquicos a responsabilidade de seus problemas e você se responsabilizar pelas suas escolhas. Nosso trabalho como psicólogo é o de oferecer condições para que a pessoa consiga entrar num contato mais legítimo com ela mesma. Acredito que um dia será possível se discutir ferrenhamente com essa dimensão determinadora da existência, com a qual o saber do século XIX e XX se voltou para o homem. Pode parecer uma pretensão, mas essa nova visão já está se anunciando na maneira, por exemplo, como podemos conceber o pânico.

Psique - Mas nossas angústias também acabam nos caracterizando como humanos...
Dichtchekenian
- Sim, e nos caracterizam como o algo que é nada. A angústia é o nada presente, ela nos mostra que tudo que fazemos é uma escolha. Que podemos perder tudo do que temos tanta certeza que nos pertence. Nossa existência é expressão de escolhas, esforços e confiança. Nossa existência não é como a de uma planta que não pode deixar de ser uma planta. Essa existência, a da planta, é maravilhosa, mas é miseravelmente maravilhosa. A nossa, construímos cada dia, mesmo que optemos por não construí-la, destruí-la, etc.
Esta é nossa característica mais humana.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 86
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



Faça já a sua assinatura!

Psique

Desvende a mente humana

Assine por 1 ano
11x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Sociologia
Um olhar sobre o mundo que no para.

Assine por 2 anos
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Filosofia

Pensamentos universais de forma objetiva e sem complicaes.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Leituras da Histria

Fatos e personalidades que deixaram suas marcas.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS