TECNOLOGIA ambiente virtual para lesões cerebrais Experiências feitas em universidades brasileiras mostram que sessões de navegação em ambientes 3D promovem ganhos das funções cognitivas, como atenção, percepção, compreensão, aprendizagem, memória, resolução de problemas e raciocínio
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Roberta de Medeiros é jornalista e escreve para esta publicação |
A tecnologia está presente em vários campos de atuação, até mesmo na área médica. Pesquisadores de universidades brasileiras estudam a aplicação de ambientes virtuais para reabilitação do déficit cognitivo causado por distúrbios neuropsiquiátricos.
O tratamento farmacológico e a terapia são associados a aparelhos, softwares e internet. Jogos de computador em 3D que simulam situações do cotidiano podem promover a reabilitação da cognição, que envolve várias funções mentais, como atenção, percepção, compreensão aprendizagem, memória, resolução de problemas e raciocínio.
A principal vantagem da realidade virtual é a imersão - o usuário mergulha em um mundo tridimensional artificial, que é completamente gerado pelo computador. O usuário percebe, por meio de um ou mais sentidos, dados vindos da máquina, gerados em dispositivos especiais por meio de uma simulação interativa.
Na tentativa de recriar a realidade, podem ser usados diversos dispositivos: capacete de visualização, dispositivos de rastreamento, luvas eletrônicas, joysticks, que permitem ao usuário navegar por um ambiente virtual e interagir com objetos virtuais
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Alguns pacientes já podem gozar de tratamentos avançados, com a tecnologia da terceira dimensão.
É o caso dos indivíduos com esclerose múltipla, que perdem o equilíbrio entre outras cognições |
O tratamento é voltado para pacientes com doenças psiquiátricas e afetivas causadas por acidentes de parto, acidentes vasculares, ou ainda distúrbios neurológicos provocados por paralisia cerebral, mal de Alzheimer, mal de Parkinson e esclerose múltipla.
Nos mais jovens, as deficiências são associadas a vários problemas de desenvolvimento, como falta de atenção causada por transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
O emprego da tecnologia se apóia no mecanismo da plasticidade cerebral, que é a capacidade do cérebro de ser moldado pela experiência, de aprender e reorganizar-se, substituindo circuitos lesionados a partir de estímulos comportamentais.
A plasticidade se desenvolve a partir de vias excitatórias e inibitórias atuantes nas terminações nos neurônios, nas sinapses. Com o aprendizado e a memória, ocorrem alterações na força ou eficácia da neurotransmissão das sinapses.
Isso significa que a partir da reabilitação cognitiva, da terapia e do tratamento medicamentoso há uma reprogramação das redes neuronais, com o surgimento de conexões que antes não existiam. A partir daí, é possível reduzir os efeitos causados por danos cerebrais.
"O sistema nervoso de um bebê é como uma superfície de gelo plana. Os estímulos externos são esferas de ar. E toda pessoa tem liberdade de definir seu caminho.
Toda vez que ela passa por uma experiência é como se socasse o gelo e a esfera se aprisionasse.
Em 15 anos trabalhando com populações humanas, o que eu percebo é que o presente é resultado do passado. Isso diz respeito a todas as doenças, inclusive as neurológicas.
Ela depende da maneira da pessoa encarar a realidade. Quando surge uma nova oportunidade de mudar a atitude mental diante dos fenômenos, é como se uma parte do cérebro voltasse a ter gelo, as esferas pudessem passar por lá", explica o médico Fernando Antonio Cardoso Bignardi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O processo de reabilitação se inicia após análise médica realizada por um neurologista. Depois, um neuropsicólogo avalia as deficiências provocadas pela lesão em termos cognitivos e afetivos. Então, o psicólogo, treina o paciente com exercícios especialmente projetados para a reabilitação em sua deficiência cognitiva.
Os exercícios podem ser aplicados por meio de formulários impressos, vídeos, fitas de áudio ou qualquer outro meio capaz de representar situações do cotidiano nas quais o paciente é incentivado a se concentrar, interagir, raciocinar, tomar decisões, entender o discurso corrente e expressar sentimentos e pensamentos. O ambiente virtual surge como uma ferramenta a mais para a recuperação.
ESQUIZOFRENIA E EDUCAÇÃO
É o que mostra um projeto-piloto no Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). O estudo avaliou a eficácia do tratamento em pacientes com esquizofrenia a partir da imersão em ambientes tridimensionais.
O recurso permite tratar as disfunções do funcionamento cognitivo, déficits associados ao mau funcionamento do lobo frontal, como o comprometimento das funções executivas, da capacidade de resolução de problemas, da memória e da atenção.
O paciente passa por sessões de navegação que simulam situações que são negligenciadas em razão da doença, como fazer compras no supermercado.
Outro ambiente simula uma casa e estimula a execução de tarefas básicas, como tomar banho e escovar os dentes. Apos 16 sessões de treinamento, o usuário passa por uma avaliação. São aplicadas escalas que medem a evolução do quadro do paciente.
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| Pessoas com doenças neuropsiquiátricas enfrentam o reconhecimento médico para usufruírem das tecnologias de ambiente virtual |
Os resultados são animadores.
Os pesquisadores constataram uma melhora dos sintomas psicóticos negativos presentes na esquizofrenia, como isolamento e apatia e embotamento afetivo, e das habilidades de lidar com as questões do dia-a-dia.
"A estimulação a partir do treinamento é uma experiência pioneira que melhora o desempenho na vida real e aumenta a independência na execução de atividades cotidianas freqüentemente comprometidas no paciente esquizofrênico, que geralmente se mostra muito passivo e dependente da família", avalia o psiquiatra Elie Cheniaux, professor da UERJ.
"O treinamento é semelhante ao do piloto de avião que testa suas habilidades antes de sair do chão", compara.
As sessões de navegação são acompanhadas durante seis meses e podem envolver diversos profissionais como psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais.
"Existem pesquisas em várias partes do mundo que atestam os benefícios trazidos pelo tratamento em ambientes virtuais", afirma a professora Rosa Maria Moreira da Costa, professora da UERJ, que coordena o estudo.
"O processo de desenvolvimento e modelagem desse sistema se apóia no emprego da linguagem de computador e passa desenvolvimento de novas técnicas de informática", explica Rosa, que é pioneira na América Latina no estudo do uso do ambiente virtual para tratamento de pacientes com distúrbio neuropsiquiátrico.
Ela observa que, apesar da tecnologia de realidade virtual ser amplamente explorada na área médica, produzindo várias experiências inovadoras ligadas ao treinamento cirúrgico e anatômico, seu potencial na reabilitação cognitiva tem recebido menos atenção. Uma das maiores dificuldades em colocar em prática o tratamento de doenças neuropsiquiátricas a partir da realidade virtual é que ainda há uma reação da área médica em reconhecer a tecnologia.
"Essa é a maior difi- culdade em se introduzir a tecnologia nos hospitais, ainda há restrições por parte dos médicos", lamenta.
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