Dossiê Com pulsão e distúrbios alimentares Para a Psicanálise, este comportamento é uma articulação da mente que não está suficientemente preparada para enfrentar o real e desenvolve recursos de fuga
Por cássia A. nuevo Barreto Bruno
| Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é psicanalista, membro da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e da International Psychoanalytical Association (IPA). Analista didata e atual diretora científi ca da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP). |
O título, assim, com essa dupla cono- tação, é muito atraente para uma discussão que leva em conta essa ambiguidade. Podemos entender com pulsão como: com vida (com pulsão) com energia e, concomitantemente, entender o oposto, (outro lado,) isto é: sem vida, sem energia. Dependendo da intensidade, a pulsão pode virar compulsão, algo como excesso de pulsão, a ponto de provocar uma quebra no sistema regula- dor dos afetos.
Com esta observação, podemos considerar que pulsão e compulsão são elementos da mente e ocorrem em diferentes intensidades e momentos da vida. Alguns perdem o equilíbrio emocional de forma muito grave, no entanto, não é o que acontece com a maioria, em que os danos não são excessivos. Todos temos condutas restritivas, faze- mos dietas, exercícios, ou bebemos em festas, mas a compulsão é diferente, ela é o excesso de um determinado comportamento que está associado à descarga de tensão, de dor, de compulsão.
Como a dor psíquica não pode ser experi- mentada, ela é canalizada para a ação motora: a compulsão. Signifi ca um agir angustiado, re- petitivo, intenso, e que resulta na anestesiação da dor, transformando-a em dor corporal. O que é psíquico é vivido no corpo, como físico. Na verdade, o corpo vem em socorro da mente, entra em cena para protegê-la de uma dor psí- quica insuportável.
Nem sempre temos uma mente sufi cientemen- te forte para suportar uma dor, um sofrimento, ou porque a mente encontra-se frágil, com estafa, ou porque a dor é grande demais, um trauma.
Desse ponto de vista já deu para perceber que a Psicanálise não visa à supressão, repressão do com- portamento compulsivo. Seu objetivo é o fortaleci- mento da mente para que esta esteja apta a supor- tar maior intensidade de sofrimento sem precisar recorrer a esse tipo de defesa compulsiva.
Sabemos que a mente é o resultado da intera- ção de recursos internos que são desenvolvidos em decorrência de solicitações internas ou externas. Isso nos remete à ideia de que os distúrbios psí- quicos são recursos mentais altamente sofi sticados e desenvolvidos pela mente como meio de lidar com as exigências do real. Neste sentido, toda a humanidade lança mão desse recurso; o que varia é o grau de intensidade dos estímulos externos e a capacidade psicológica de desenvolver meios, mais ou menos adequados para lidar com tais exigências, e que variem em diferentes momentos da vida. Todos nos utilizamos de mecanismos menos eficientes, no sentido de crescimento e desenvolvimento, em certas situações da vida; são os nossos pontos cegos.
"Diante de uma frustração, o aparelho mental não consegue elaborar uma dor menor"
O que ocorre no atendimento psicanalítico é que, no processo de investigação da mente, as funções psíquicas vão se desenvolvendo e, consequentemente, tornam-se mais eficazes para lidar com suas dificuldades.
 |
| Para evitar a dor mental, o cérebro recorre a uma tática que transfere a dor para o corpo físico, tornando a pulsão uma compulsão |
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |