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Pesquisa
Genética em saúde mental
De que maneira e em que medida um gene pode modelar um comportamento humano? A resposta a tal pergunta tem inquietado estudiosos, em particular aqueles ligados à genética comportamental

Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

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O avanço nas pesquisas genéticas tem levado a contrastes nos resultados e discordâncias entre os estudiosos.

Significa dizer que, em contraposição ao entusiasmo provocado pelos estudos da área, que sugerem interações entre determinados genes e fatores ambientais específicos, não faltam análises científicas demonstrando a dificuldade de se alcançar novamente, com o devido rigor, os resultados obtidos anteriormente em diferentes contextos e grupos de indivíduos diversos. Em outras palavras, as conclusões de um pesquisador, quando testadas novamente, por vezes, mostram-se não tão conclusivas ou mesmo inteiramente falsas – como é próprio da verdadeira Ciência.

Com relação ao tema genética e comportamento, pode-se mesmo afirmar que, de maneira geral, o imbróglio científico parte da premissa de que o fenótipo de todo ser humano é o resultado de fatores genéticos (seus genes herdados) e ambientais (sua vida propriamente dita) – e da interação entre esses dois grandes conjuntos de fatores. O que pode ser sintetizado por meio da fórmula: P = G + E, onde “P” é o fenótipo (phenotype), “G” é o genótipo (genotype) e “E” é o ambiente (environment). Diante disso, a meta dos especialistas é exatamente compreender como se inter-relacionam os elementos dessa relação de fatores.

Teste do CO2

De acordo com Marco Battaglia, o transtorno do pânico apresenta uma característica “única”: a possibilidade de reproduzir episódios de transtorno de pânico no laboratório pelo uso de diferentes substâncias, entre elas o dióxido de carbono (CO2) inalado.

Segundo o pesquisador, pessoas com o transtorno apresentam uma reação além do normal ao CO2, pois elas possuem um detector para sufocação supersensível. “Consequentemente, [ao receberem uma concentração acima do normal de CO2] elas interpretam mal o alarme de sufocação e experimentam desconforto respiratório, hiperventilação e pânico. Nesse sentido, garante o pesquisador, o pânico não é medo, e os ataques de pânico podem ser mais bem encarados como falsos alarmes de origem biológica não condicionada”, disse.

O especialista explicou, ainda, que a inalação de CO2 em homens ativa um caminho de resposta que se origina na superfície ventral da medula e se estende até ponte, mesencéfalo, áreas límbica e paralímbica, os giros parahipocampal e fusiforme e a ínsula anterior. “A quimiossensibilidade central foi localizada na superfície ventral da medula e é operada tanto por neurônios serotonérgicos quanto por receptores muscarínicos colinérgicos”, acrescentou.

Sobre estes últimos, estudo realizado pelo próprio autor, em 2001, com um pequeno número de pessoas, apontou nesta direção. Após analisar 12 indivíduos com transtorno de pânico, os resultados revelaram que a resposta exagerada ao CO2 pode ser modulada por meio do bloqueio dos receptores muscarínicos centrais provocado pelo biperideno, um antagonista muscarínico que bloqueia a transmissão dos impulsos colinérgicos centrais.

“Parece improvável, entretanto, que a disfunção de qualquer sistema neurotransmissor único ou a estimulação do quimiorreceptor medular pelo CO2, isoladamente, possa responder pela complexa fenomenologia dos ataques de pânicos do transtorno”, afirma no artigo sobre a pesquisa, publicado nos Archives of General Psychiatry.

Conforme explicou Marco Battaglia, do departamento de neurociências do San Raffaele Institute, em Milão (Itália), durante simpósio no 17º Congresso Europeu de Psiquiatria, realizado no final de janeiro, em Lisboa, não obstante o nível de precaução com os relatos recentes da interação entre gene e ambiente, o gargalo – tanto conceitual quanto metodológico – para a aceitação ou rejeição dos novos resultados repousa no valor biológico que seja passível de mensuração e no real significado de qualquer novo achado.

“A divergência de resultados aconselha que se tenha prudência, visto que pode haver riscos de uma simplificação exagerada, sofisticação desnecessária e aumento excessivo da significância em, virtualmente, qualquer análise de variância focada em um conjunto de polimorfismos e fatores de risco ambientais para algumas ou uma única variável comportamental”, complementou (veja quadro Teste do CO2).

Transtorno do pânico

A despeito das dificuldades, cada vez mais estudos têm procurado identificar os fatores de risco genéticos e ambientais que podem estar associados a condições diversas, como depressão, ansiedade e transtorno de pânico, dentre outros problemas. De acordo com Battaglia, embora, tipicamente, os sintomas do transtorno do pânico se instalem no começo da idade adulta, investigações em idades mais precoces podem ajudar a compreender melhor a doença. Nesse contexto, merece especial atenção o transtorno de ansiedade na infância, relacionado à separação da criança de sua figura de ligação, geralmente a mãe, que pode anteceder o transtorno de pânico.

“Alguns eventos adversos ocorrendo durante o período inicial da vida podem aumentar o risco de manifestação posterior de desordem em adição aos (ou em interação com os) fatores genéticos causais familiares”, explica Battaglia em artigo publicado em janeiro deste ano nos Archives of General Psychiatry.

O estudo teve como objetivo identificar as fontes de covariância – ou seja, em estatística, a probabilidade relacionada a variáveis independentes e aleatórias – entre a ansiedade de separação, a hipersensibilidade ao gás carbônico (CO2) – exame que avalia a reação da pessoa exposta ao CO2 – (veja quadro Teste do CO2) e o transtorno do pânico na vida adulta e analisar o efeito da perda da figura de referência parental na infância nesse contexto.

" Determinantes genéticos parecem ser a causa da ansiedade de separação continuar como transtorno do pânico "

Para tanto, foram incluídos na pesquisa 712 adultos jovens noruegueses, com 31 anos de idade em média (64% mulheres), sendo 356 pares de irmãos, todos gêmeos (49% idênticos ou monozigóticos) – com genes iguais. Os autores do estudo coletaram informações sobre a reatividade ao CO2 e sobre o histórico de episódios de transtorno do pânico, perda parental durante a infância e sintomas de ansiedade de separação.

Estudos indicam que transtorno do pânico pode ter sua origem na infância, a partir de um rompimento com a figura maternal

O levantamento das características clínicas e sociodemográficas mostrou que 6,6% dos participantes apresentavam transtorno do pânico, e 10,4% tinham um histórico de ansiedade de separação, números similares aos identificados por outros estudos na população em geral. Além disso, 4,1% relataram perda parental decorrente de morte, e 11,1%, por separação (divórcio, transferência no trabalho, serviço militar, etc.).

As análises preliminares mostraram que as respostas positivas ao CO2 foram preditas pela ansiedade de separação e pelo transtorno do pânico, mas não por um histórico de fobia social, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, depressão ou fobias diante de sangue ou de machucados.

Os autores, então, testaram se a adição de um agente ambiental especificado – no caso, a perda parental na infância – poderia melhorar a capacidade do modelo metodológico para explicar possíveis associações. Segundo o artigo, a escolha da perda parental como agente ambiental se deu em função do fato de que, com frequência, os estudos fracassam em detectar um papel substancial para fatores compartilhados, e ela (a perda) responde por 4,9% da variância total do transtorno do pânico. “Nós avaliamos se a presença ou ausência de perda parental foi associada a estimativas de parâmetros diferentes, isso é, se sua ação poderia, em alguma medida, ser descrita em termos de interação”, explica Battaglia.

Os resultados mostraram que a covariância entre a ansiedade de separação na infância, a hipersensibilidade ao CO2 e o transtorno do pânico podem ser explicados por uma variável latente subjacente única, que influencia os três fenótipos. “Determinantes genéticos compartilhados parecem ser a causa básica principal de a ansiedade de separação na infância continuar como transtorno do pânico na fase adulta e da associação de ambos os quadros à sensibilidade elevada ao CO2”, afirmam.

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