Sociopsicologia Crise do capital e psicologia De que maneira o sujeito é afetado pela angústia coletiva enfatizada pelas relações de trabalho e distribuição de riquezas e como o campo da psi pode ajudar neste momento
Por Denise Deschamps e Eduardo J. S. Honorato
Em que a Psicologia poderá se apresentar como um vetor dentro dessa conjuntura? De inúmeras formas, mas aqui abordaremos uma questão que lhe é sempre intrínseca e que muitos autores de correntes diferentes já se debruçaram para estudar a questão, como Michael Foucault, Herbert Marcuse, Adorno, Georges Canguilhem, th omaz Szasz, Franco Basaglia, dentre muitos outros nomes. Em análises diferentes, esses nomes nos remetem a especifi- cidade do estudo da Psicologia e o quanto ela tem de tendência ao que poderíamos chamar de "normalização". (Canguilhem)
Em um momento em que suas ferramentas serão consideradas úteis para selecionar sujeitos mais dóceis para as linhas de produção e também justificar a exclusão de uma mão de obra excedente cada vez mais numerosa, também há, ao mesmo tempo, a insatisfação crescente do sujeito que vê as possibilidades daquilo que lhe foi vendido como gratificação e realização, sendo tomadas, dia após dia, em seus investimentos.
Como a Psicologia fará uma proposta de trabalho com essa angústia crescente no individual e no coletivo? Como trabalhará diante da angústia, da exclusão e do crescimento da massa de miseráveis? O que em seu discurso irá se aliar ao que se rebela a opressão e exploração? O que justificará isso com conceitos de normatização do psíquico? Toda prática do campo psi é atravessada por questões ideológicas, levadas ou não em consideração por esse profissional que atua.
PSICOLOGIA INTRÍNSECA
Se levarmos em conta a análise da conjuntura econômica aqui apresentada, veremos que ao campo psi cabe, mais uma vez, se pensar como ferramenta ou dispositivo de controle ou como caminho organizador da justa pressão social. Pensar sua prática como alheia a essa questão torna-se algo, a nosso ver, alienado e alienante da possibilidade de ser, na concepção integral que esse conceito traz e que é tão intrinsecamente relacionado à própria existência da Psicologia. Aqui, nos abstemos de discutir sua inserção epistemológica, embora saibamos que essa seria, também, uma discussão importante na abordagem desse tema. Mas, nesse artigo, pretendemos apenas sublinhar e convidar ao debate do atravessamento desse acontecimento que agita o coletivo com a prática da Psicologia no Brasil.
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A Psicologia passa a entender o sujeito por meio de outras ópticas, como a da Sociologia. Para compreender a crise, por exemplo, psicólogos olham para Marx, que entendia a desenfreada linha de produção como uma das consequências do capitalismo |
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Pensando no indivíduo
O livro Cultura e Psicanálise traz ensaios de Herbert Marcuse (1889- 1979) e, dentre eles, o marxista se inspira na Psicanálise para rejeitar a noção ocidental de progresso como desenvolvimento das forças produtivas. Esta obra de Marcuse revela um pensador radical, rigoroso e criativo, preocupado em construir uma alternativa política ao mundo da mercadoria. |
VEREMOS NA CLÍNICA O APARECIMENTO DE SINTOMAS DE PÂNICO E DEPRESSÃO CORRELACIONADOS À PERDA DE EMPREGO
A questão se apresenta muito mais complexa do que convicções políticas ou visão de mundo. Nesse sentido, a neutralidade buscada dos instrumentos do campo psi se verão pensados a partir tanto da sua construção quanto da utilização e possibilidades múltiplas de leitura. Pensar uma ciência neutra é hoje algo questionado, mesmo pelas linhas que tentam se adequar ao que conhecemos como "ciência dura", tentando traçar uma similitude com as ciências naturais. Mesmo que não abordemos essas questões da epistemologia, teremos de pensar em uma prática que se compromete com um sujeito que sofre a partir de um contexto de opressão e exploração. Pensar uma ética profissional, atrelada a uma práxis que se constrói no esteio daquilo que nomeamos como subjetividade.
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Em uma constituição plural, como a família, os indivíduos enfrentam a angústia de manter o mesmo padrão de vida de antes da crise, com seu poder de compra inalterado |
ENTRE O SINGULAR E O PLURAL
A Psicanálise há muitas décadas empresta sua leitura para pensar o homem a partir de uma cultura, problematizando sua relação com ela e dela com o homem. "Assim sendo, a Psicanálise pode ser considerada como fato científi- co, como acontecimento histórico-social, como ideologia em si mesma ou como integrante de uma ideologia. E isto é válido para todas e para cada uma de suas componentes: a terapêutica, a investigação e a teoria4".
Poderemos supor inúmeras determinantes que se constituem naquilo que fala das metas sociais que se modificam a partir de contextos político-ideológicos e, principalmente, que esses se apoiam e ao mesmo tempo constroem tudo aquilo que entenderemos como ideologia, intrinsecamente ligada a esses ideais. Tomemos então agora, em outra perspectiva possível, a afirmativa freudiana: "os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal do ego"5.
Propomos pensar em um possível exemplo: supomos saber que, hoje, uma parte significativa de jovens, que tem acesso à graduação universitária, traz em seus projetos de futuro uma vida no exterior, fora do Brasil, tanto para continuidade de seus estudos quanto para a busca de mercado de trabalho mais promissor. Será que poderemos entender isso apenas a partir de uma análise individual? Ou esse desejo nasce e se apoia em uma leitura - mesmo que inconsciente - de todo um campo político, econômico e do ideário que os sustentam?
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