editora Escala
 

Filosofia  
 
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

Dossiê
A diferença entre ler e aprender
A experiência de viver na Era da Informação nos traz inúmeras vantagens como viajar "non stop" pelo mundo do conhecimento. Porém, torna-se impossível lembrar-se de tudo o que vemos durante essa viagem

Por Sergio Cyrino da Costa

Há mais de 2 mil anos, toda a cultura que um cidadão da Grécia Clás- sica acumulava durante sua vida inteira caberia num jornal de domingo da era atual.

A sede de saber é um atributo hu- mano. O apetite pelo conhecimento e informação se origina na curiosidade da criança sobre sua origem; vem cres- cendo geometricamente desde a infân- cia da humanidade. O saber transmiti- do oralmente por um filósofo ou sábio aos seus discípulos era muito difícil de ser guardado, catalogado. Os papiros, as pedras, o trabalho persistente dos monges copistas, nos transmitem uma versão distante da história daqueles tempos remotos.

A obsessão pelo conhecimento estimula a necessidade de mudança que existe em cada um de nós, para nos mantermos vivos como indiví- duos e como espécie, descobrindo e transmitindo antes de morrermos. Estagnação é sinônimo de morte, de marasmo, de apatia.

Da tribo selvagem às universida- des, pontifica a figura idealizada do sábio, o dono do saber. "Só sei que nada sei", dizia Sócrates. Isto quer dizer que a busca pelo saber não termina nunca. A maior sabedoria con- sistia em reconhecer que o saber era uma estrada da qual não se via o fim. A boa teoria é aquela que pode ser contestada, levando a novas respostas por meio da pesquisa e discussão.

Os debates públicos sempre fizeram muito sucesso com os contendores pro- curando surpreender um ao outro por meio de informações inéditas.

Babel de ofertas

Há alguns anos, o saber, que estava confinado a poucos afortunados fre- quentadores de bibliotecas e livrarias, ganhou as ruas por algumas publicações traduzidas, em bancas de jornal. Um pequeno número de revistas deu lugar a uma verdadeira explosão de imagens, termos científicos elaborados, curiosida- des, literatura, desde física quântica até criação de cachorros e lutas marciais.

Se um viajante do tempo entras- se hoje na banca da esquina, não iria acreditar que aquela barraca onde comprava suas revistas e fascículos se transformou numa babel de ofertas.

Os fascículos semanais tinham um efeito curioso sobre o psiquismo do lei- tor: fazer que ele se imaginasse um bibli- ófilo, um imortal, cercado de volumes em que beberia na cultura completa do mundo. Ressalte-se aqui a palavra "com- pleta". O formato atual traz justamente a ideia de um saber infinito, oceânico.

Os antigos programas de pergun- tas da TV, como O céu é o limite e Ab- solutamente certo, prometiam fortunas aos candidatos que se especializavam em determinados campos do conhe- cimento, devorando todo o material disponível sobre o assunto escolhido. Eles despertavam a admiração da pla- teia pela quantidade de informações que conseguiam assimilar e reter.

Os assuntos variavam desde a vida das formigas e figuras ilustres até a Bíblia.

Quem se propõe a estes desafios já traz previamente dentro de si o hábito ininterrupto da busca por informações novas. Filmes como o atual sucesso Quem quer ser um milionário?, dirigido por Danny Boyle e distribuido por Fox Searchlight Pictures e por Europa Filmes, são o avesso da compulsão pela informação. Aqui, o que importa são a inteligência e a experiência de vida a serviço do poder mágico da sorte, que atuam em favor do personagem prin- cipal. Jamal está mais para adivinho, à maneira do Édipo grego que decifrou as perguntas da Esfinge para não ser devorado. O público vibra porque se identifica com a esperteza e coragem do Jamal anônimo, não com seu saber obsessivamente acumulado. Triunfo retumbante ou sarjeta.

A obsessão pelo conhecimento estimula a necessidade de mudança que existe em cada um de nós

O que moveria a compulsão à infor- mação? Como já foi dito neste artigo, o homem já nasce curioso. A criança ex- plora avidamente seu mundo imedia- to e vai ampliando sua capacidade de observação, à medida que se desenvol- ve. Enfia o dedo nas tomadas, leva os objetos à boca, move os olhos em todas as direções, acompanhando as luzes e ruídos do ambiente, extasiada com as primeiras informações que vão se acu- mulando dentro de sua mente. Um dos maiores discípulos de Freud, o brilhan- te húngaro Sándor Ferenczi, escreveu um pequeno trabalho em 1923 intitu- lado "O sonho do neném sábio". Nele, Ferenczi diz que os pacientes adultos frequentemente relatam sonhos nos quais crianças pequenas, e até bebês, são capazes de ensinar aos adultos com extrema erudição e locução perfeitas. O tema não é inédito, já que aparece em vários mitos, inclusive na história do próprio Jesus Cristo, em que ensinava aos sábios do templo. Ferenczi inter- preta que estes sonhos representam o desejo da criança de ultrapassar os adul- tos em sabedoria e ciência, invertendo, assim, a posição de inferioridade. Um adulto que se sentiu humilhado na in- fância ou atualmente, também poderia desejar vingar-se dos que tivessem criti- cado suas palavras ou atos.

Em muitos casos a obsessão pela informação e pelo conhecimento re- presenta um exercício de preparação para uma contenda verbal. Traços ob- sessivos são absolutamente necessários à nossa organização psíquica normal. Um dos grandes méritos de Sigmund Freud foi ter percebido que as patolo- gias mentais fazem parte dos compo- nentes no psiquismo normal de todos os indivíduos, em doses pequenas. Tudo que aprendemos passa a ser ca- talogado em compartimentos de nossa mente, como gavetas de um arquivo.

Algumas pessoas possuem o im- pulso irresistível de encher suas gavetas mentais até entupi-las de registros no- vos que não conseguem digerir. O cole- cionismo é a obsessão dos normais.

Sergio Cyrino da Costa é médico psiquiatra e psicanalista membro da federação Brasileira de Psicanálise (febrapsi) e da associação Psicanalítica do estado do Rio de Janeiro (aPeRJ-RiO4).

Os fascículos semanais tinham um efeito sobre o psiquismo: fazer que ele se imaginasse um imortal

Afinal, o que quer o compulsivo por informação? Em primeiro lugar, aprender tudo, alimentar- se de conhecimento, saciar sua sede de saber. Em segundo, que este saber responda a todas as perguntas, como uma coleção de figurinhas que se completa, adquirindo os números faltantes. O problema é que, na realidade, sempre falta algo, porque o saber não é estático. Os compulsivos não se conformam com isso. Com o aumento gigantesco do acesso à informação, boa parte das pessoas liberou seu lado compulsivo adormecido.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 45
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS