Raízes do complexo de Édipo A metapsicologia de Freud sobre a importância da função paterna para a educação e orientação dos filhos e seu decréscimo no mundo contemporâneo, em que se torna cada vez mais difícil aplicar regras e limites
Por Laura Ward da Rosa
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Laura Ward da Rosa é médica psicanalista da Federação Brasileira de Psicanálise e mestranda em Patologias do Desvalimento na UCES - Buenos Aires, Argentina.
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Embora a Psicanálise seja acusada de somente atribuir à mãe os problemas e sintomas que os filhos desenvolvem, na verdade o papel do pai sempre foi considerado central na constituição do sujeito e a sua presença indispensável para o desenvolvimento saudável da criança.
O próprio Freud tinha com o pai Jacob uma relação extremamente forte, detectando-se, em sua personalidade, muitos traços de identificação com o patriarca da família, sendo seu primogênito do segundo casamento com Amália, bem mais jovem do que o marido. Quando Freud nasceu, seu pai já tinha um neto de um de seus dois filhos do primeiro matrimônio, convivendo todos na mesma casa. Quando morreu seu pai, em 1896, Freud, então com 40 anos, sofreu um violento abalo que o levou a iniciar sua autoanálise, a partir da qual descobriu em si mesmo os fundamentos do inconsciente, os laços de amor e rivalidade entre pais, filhos e irmãos e as raízes do complexo de Édipo, com os quais desenvolveu sua metapsicologia e construiu o corpo teórico desse novo saber, tornando-se o pai da Psicanálise.
Desde então, a paternidade tem merecido constante investigação, quer quando se faz presente como função paterna exercida adequadamente, quer quando é deficiente ou mesmo ausente, trazendo consequências nefastas aos filhos e ao grupo familiar. Tanto quanto a mãe é a matriz, a origem psicobiológica e primeiro objeto de amor e cuidado, indispensável à constituição do bebê, o pai é também indispensável nesse processo e seu papel é fundamental na instalação dos limites e da capacidade de simbolização do infans, impulsionando a criança para o mundo, para crescer e desprender-se da mãe, para evoluir em outros espaços externos. O pai é, assim, o operador simbólico da alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe, ao instalar a lei de proibição do incesto, propiciando o desenvolvimento e a autonomia do filho.
| Gozo voyeurista-exibicionista |
| Inspirado no livro 1984, de George Orwell, no qual os habitantes de um país fictício são vigiados diariamente por câmeras do governo, o programa de TV Big Brother instala o confinamento de participantes escolhidos cuidadosamente para fornecerem espetáculo que mantenha uma audiência elevada, em busca da fama, dinheiro, sucesso, visibilidade, sem proporcionar nenhum acréscimo cultural aos espectadores, apenas gozo voyeurista-exibicionista, com a violação da intimidade. Em lugar da máxima cartesiana do "Penso, logo existo", encontramos "exibo-me, logo existo". |
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O papel simbólico do pai é tão importante quanto o da mãe. Enquanto o materno representa o amor, o paterno insere os limites éticos e morais no sujeito
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A sociedade atual é pródiga em excessos, consumo exagerado de bebidas, drogas, objetos eletrônicos, sexo, festas nas quais "é proibido proibir", carros cada vez mais velozes, enfim, ritmos e sons alucinantes, como se somente por meio desse exagero o sujeito pudesse existir e marcar sua presença, para obter aprovação e prazer. O que a Psicanálise nos demonstra é que tudo que é imposto e excessivo está para além do princípio do prazer, conforme descreveu Freud, ou seja, inscreve-se no gozo (genuss, no alemão e jouissance, no francês) que é pulsão de morte e leva ao desprazer. Por outro lado, em nosso trabalho clínico, convivemos com distintas formas de manifestações psicopatológicas, ditas novas patologias, que predominam na emergência do terceiro milênio. Citam-se os distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, as adições a drogas de diferentes tipos, cada vez mais potentes e determinantes de dependência física e psíquica. Também nas doenças psicossomáticas, nas quais o corpo responde ao excesso de angústia diretamente fazendo lesões orgânicas, predominam os componentes tanáticos1. Há falta de representações inconscientes das experiências iniciais da vida, padecem os pacientes do vazio representacional e manifestam-se pelo pensamento operatório, segundo Pierre Marty, da escola francesa de psicossomática.
Ainda como manifestações do excesso ligado ao corpo, verificamos, em muitos pacientes, distintamente da preocupação saudável de cuidar-se para manter a qualidade de vida, a necessidade imperiosa de manter a juventude por meio de procedimentos cirúrgicos repetidos, que tentam desmentir a passagem do tempo e o envelhecimento. (lifting, lipoesculturas, "preenchimentos", botox, ou adornos tipo tatuagens e piercings). Todo esse exagero focado no corpo visa preencher o vazio existencial, típico da condição narcisista do sujeito pós-moderno, alienado de seu próprio desejo e de seu próprio sentir, obrigado a adaptar-se ao Outro ou às regras da sociedade de consumo.
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A anulação paterna é um dos fatores determinantes para desencadear a pedofilia. Um pedófilo é o sujeito que ficou detido no narcisismo da infância e precisa de parceiros infantis para se identificar
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As condições alienantes denunciam que padecemos da falta de limite, da ausência de alguém que diga NÃO, que imponha a ordem, que diga: até aqui podemos - além daqui não podemos, sob pena de cavarmos nossa própria destruição ou abolição da subjetividade. Outro fenômeno assustador do mundo atual é o acréscimo da incidência de pedofilia, um tipo de perversão que diariamente ocupa os meios de comunicação de diversos países, disseminada por verdadeiras redes, na internet. É a denúncia do importante déficit simbólico que impede a demarcação nítida da barreira intergeracional, constatado a partir do século XX, fato bem documentado pela Antropologia e pela Psicanálise.
Regras culturais
Devemos à Claude Lévi-Strauss a investigação antropológica das estruturas de parentesco e dos elementos que determinam a passagem do homem do estado de natureza para a cultura, definindo critérios que permitam distinguir o que é natural, devendo obedecer a leis universais, do que é cultural, isto é, que se institui a partir de regras particulares de funcionamento dos grupos. Concordando com Freud, Lévi-Strauss, ao estudar os povos primitivos, conclui ser a lei de proibição do incesto a norma que instala a sociedade humana, distinta dos animais, nos quais ocorrem acasalamentos entre pais e filhos. Assim, Lévi-Strauss afirma: "A proibição do incesto não é nem puramente de origem cultural nem puramente de origem natural; e também não é uma dosagem de elementos parcialmente tomados de empréstimo à natureza e parcialmente à cultura. Ela constitui a trajetória fundamental graças a qual se realiza a passagem da natureza à cultura" (p.9,10).
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