PESQUISA Discrepância entre os gêneros Sintomas típicos da depressão nos homens tem maior prevalência em mulheres
Por Agência Notisa de Jornalismo Científico
Embora pareça estranha, a questão é simples: para os cientistas, a depressão feminina original tem sinais aparentemente mais "dóceis". A masculina se caracteriza por expressões mais violentas e agitadas. Quando as mulheres invertem o quadro, passam a ser consideradas portadoras de depressão masculina. Mais importante: os cientistas alegam que a depressão tipicamente masculina é mal diagnosticada tanto em homens quanto em mulheres, já que quadros considerados como sendo primariamente abuso de drogas ou psicopatias, entre outros, podem estar confundindo os terapeutas que custam a enxergar a depressão como responsável por estes comportamentos.
O fato é que estudos já realizados sobre a depressão apontam para o que seria um paradoxo. Dados epidemiológicos mostram que 60% a 70% das pessoas que cometem suicídio têm a chamada depressão maior - mais grave, do ponto de vista psicopatológico - e que esta depressão é pelo menos duas vezes mais comum entre as mulheres. Entretanto, o número de mortes por suicídio é de 5 a 6 vezes maior dentre os homens. Por que, mesmo sendo aparentemente mais resistentes à depressão, os homens efetivamente se matam, enquanto as mulheres, mais frequentemente deprimidas, cometem tentativas de suicídio menos drásticas? É possível que o sofrimento psíquico simplesmente não esteja sendo identificado pelos parâmetros utilizados atualmente no diagnóstico da depressão? O que a comunidade terapêutica aponta é que nem sempre estes "sintomas agressivos" são considerados como constituintes de um quadro de depressão, nem em homens nem em mulheres.
| Bipolaridade na depressão masculina? |
Embora cada vez mais estudos estejam investigando ou levando em consideração a depressão masculina, a especificidade de seus sintomas ainda é uma questão em aberto. Há justificativa para a classificação de um novo tipo de depressão ou os sintomas estão relacionados a condições comórbidas, como transtornos de personalidade, dependência de álcool ou transtorno de déficit de atenção ou hiperatividade (TDAH)?
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Depressão masculina seria marcada pela bipolaridade, aumentando, ainda mais, os riscos de suicídio
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Rihmer, no terceiro número de 2004 do Journal of Bipolar Disorders, argumentou que sintomas masculinos, em particular a irritabilidade, que parece ser o sintoma mais significativo da depressão masculina, são também as características principais dos estados mistos de depressão. Segundo ele, tais estados são duas vezes mais comuns na depressão bipolar do que na unipolar - logo, é possível que a síndrome depressiva masculina esteja mais ligada à depressão bipolar do que à unipolar.
Além disso, a depressão bipolar é, com frequência, associada a um comportamento social desviante em adolescentes, e o risco de suicídio de pacientes bipolares é muito mais alto do que nos unipolares.
Independentemente dos aspectos da comorbidade e possíveis falhas no diagnóstico, os sintomas do sofrimento psíquico masculino representam estratégias comuns de resiliência (coping) exteriorizadas. Os padrões da disfunção da resposta do homem ao estresse talvez sejam especialmente pronunciados em determinados subgrupos nos casos em que a masculinidade deles é ameaçada e que o medo de uma possível estigmatização de ser considerado como "não homem" insurja. |
De qualquer forma, a discrepância identifi- cada entre os gêneros fez que os cientistas considerassem a existência de um tipo de depressão especificamente "masculina", cujos principais sintomas seriam: atuação (acting out) no sentido psicanalítico - ação impulsiva, normalmente prejudicial a si e aos outros por motivações inconscientes -, falta de controle de impulsos, comportamento antissocial, abuso de substância, baixa tolerância ao estresse, irritabilidade, inquietação e descontentamento.
Essa hipótese é, em parte, corroborada até mesmo por pesquisas etnológicas e antropológicas, que mostram que homens e mulheres reagem de maneiras diferentes quando sob estresse. Sabe-se que, por exemplo, as mulheres buscam mais frequentemente por ajuda e tentam proteger a si mesmas e à sua família, ao passo que os homens são movidos por um instinto mais agressivo, de luta.
Entretanto, embora o termo "depressão masculina" venha recebendo cada vez mais atenção da mídia, a evidência científica sobre o assunto ainda é limitada. Por um lado, estudos já realizados sobre as diferenças de gênero nos sintomas depressivos identificaram, consistentemente, que os homens simplesmente relatam menos sintomas depressivos do que as mulheres e que poucas diferenças de gênero podem ser observadas no que diz respeito às características dos sintomas. Em outras palavras: de acordo com estes estudos, não existiria um quadro específico com sintomas característicos.
Por outro lado, os métodos de diagnósticos utilizados nas pesquisas epidemiológicas têm focado nos sintomas típicos e há a possibilidade de os sintomas "masculinos" estarem sendo negligenciados. Seria como se os especialistas estivessem fazendo as perguntas incorretas ou olhando para a direção errada - e o homem doente não estaria sendo identificado como tal. De qualquer forma, ainda há poucos resultados indicando que estes possíveis sintomas, tais como hostilidade não verbal e traços de agressividade, sejam mais prevalentes em homens deprimidos.
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