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Entre o bem e o mal
Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias

Por Roberta de Medeiros

Roberta de Medeiros é jornalista e escreve para esta publicação

O médico Sigmund Freud (1856-1939) considerou a religião como remédio ilusório contra o desamparo. A crença na vida após a morte estaria embasada no medo da morte, análogo ao medo da castração. Nesse caso, o ego estaria reagindo à situação de abandono. Para ele, os demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos que foram reprimidos. Os espíritos que se comunicam durante os estados de transe e possessão seriam apenas projeções dessas entidades mentais para o mundo externo.

Da mesma maneira que o fundador da Psicanálise, a Psiquiatria tendia a tomar como patológicos certos comportamentos religiosos. A visão negativa por parte dessa classe deu origem a reações discriminatórias, principalmente em relação ao espiritismo e a religiões afro-brasileiras, cujas experiências foram interpretadas como manifestação (ou causa) de doenças mentais. Essas religiões partem do princípio de que o espírito é imortal e que pode se comunicar com os vivos por intermédio de um médium - pessoa com a capacidade de "mediar" a comunicação com o mundo espiritual.

Um acalorado debate entre médicos e espíritas se estendeu entre a segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Médicos chegaram a publicar artigos e teses sobre a chamada "loucura espírita". E começaram a combatê-la. Ora proibindo a divulgação da religião, ora combatendo o charlatanismo, ato praticado por seus seguidores que, frequentemente, são acusados de utilizar ilegalmente a medicina para tratar pacientes com doenças mentais. Em contrapartida, os centros espíritas produziam teses tentando legitimar suas crenças e fundaram seus próprios hospitais psiquiátricos.

Segundo Pierre Janet, o indivíduo tem uma segunda consciência que, quando emerge, traz reações denominadas dissociações, como as alucinações sugeridas no filme O Exorcista

DESAGREGAÇÃO PSICOLÓGICA

Entre os médicos, surgiram duas correntes proeminentes: uma delas pretendia avaliar como os fenômenos mediúnicos poderiam oferecer elementos para melhor compreensão do funcionamento da mente e outra que se ocupou em combater a religião, considerando as manifestações mediúnicas como doença mental - essa foi a que mais influenciou os psiquiatras brasileiros.

Eles se basearam na teoria do médico e psicólogo Pierre Janet (1859- 1947) que fala sobre automatismo psicológico. Em sua obra L´Automatisme Psychologic, ele define a mente a partir do funcionamento integrado de diversos módulos mentais independentes (memória, percepção, afeto, sensação). Quando um desses módulos começa a funcionar de maneira independente, teríamos o que o pesquisador chama de desagregação psicológica ou dissociação.

PIERRE JANET DEFINE A MENTE A PARTIR DO FUNCIONAMENTO INTEGRADO DE DIVERSOS MÓDULOS MENTAIS INDEPENDENTES

Janet chamou esse funcionamento independente da consciência de automatismo mental. Ele propunha a existência de uma "segunda consciência". Quando a personalidade se desagrega, uma parcela dela pode se desgarrar do conjunto e dar origem a diversos automatismos motores e sensoriais. Daí os fenômenos como a escrita automática, personalidades múltiplas, anestesias, catalepsias, sonambulismo e alucinações. Ele não acreditava que as experiências mediúnicas pudessem, de fato, ser originadas pelo contato com espíritos. "Em muitos casos há o simples desdobramento da personalidade - a identidade segunda - dizem-se espírito - exprimindo pensamentos latentes do médium: é o treino da mitomania", escreveu Janet.

Outro a se dedicar ao tema foi William James (1842-1910), um dos psicólogos mais importantes de todos os tempos. Seus estudos sobre a religião resultaram no famoso livro As variedades da experiência religiosa e a então chamada psychical research (pesquisa psíquica). Defensor do "empirismo radical", James acreditava que os fenômenos mais absurdos eram passíveis de análise. A investigação da mediunidade recebeu especial destaque e, por mais de duas décadas, ele realizou pesquisas com uma das mais renomadas médiuns do século XIX: Leonore Piper.

O pesquisador considerava a possessão mediúnica uma forma natural de personalidade alternativa, sem necessariamente ter um caráter patológico. Dentre as possíveis explicações para os fenômenos mediúnicos estariam a fraude, a dissociação com uma tendência a personificar outra personalidade e a influência de um espírito. Ele considerava que a telepatia e a real comunicação de um espírito poderiam explicar essas experiências religiosas.

Apoiado em estudos sobre telepatia, hipnotismo e alucinações, o pesquisador inglês Frederic W. H. Myers considerou os fenômenos mediúnicos como manifestação do subconsciente. Desenvolveu a teoria do self subliminal. Existiria "uma consciência mais abrangente, mais profunda, cujo potencial permanece em sua maior parte latente". Utilizou a palavra "subliminal" para designar "tudo o que ocorre sob o limiar ordinário, fora da consciência habitual".

Haveria apenas um "self ", com uma pequena porção consciente (supraliminal) e grande parte inconsciente (subliminal). Os conteúdos subliminais que atingem a consciência frequentemente são diferentes de qualquer elemento de nossa vida supraliminal, inclusive faculdades das quais não há conhecimento prévio. Essas habilidades, como as inspirações dos gênios, telepatia, clarividência e mesmo a comunicação com os mortos - envolveriam uma grande ampliação das faculdades mentais. Sua principal obra, Human personality and its survival of bodily death, foi deixada incompleta e só foi publicada depois de sua morte.

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